Jamil Chade http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Tue, 23 Jul 2019 15:40:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Europeus não confiam em compromissos ambientais assumidos pelo Brasil http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/europeus-nao-confiam-em-compromissos-ambientais-assumidos-pelo-brasil/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/europeus-nao-confiam-em-compromissos-ambientais-assumidos-pelo-brasil/#respond Tue, 23 Jul 2019 15:40:23 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1757

Diante de Parlamento Europeu, deputados de esquerda protestam contra acordo com Mercosul

 

“Acordo comercial sozinho não vai salvar a Amazônia”, responde a comissária de Comércio da UE

 

GENEBRA – Num primeiro debate no Parlamento Europeu sobre a aprovação do acordo comercial entre UE e o Mercosul, deputados deixaram claro nesta terça-feira que não confiam nos compromissos assumidos pelo governo brasileiro no que se refere à proteção da Amazônia e questionam se salvaguardas não poderiam ser usadas contra produtos brasileiros.

A reunião serviu para confirmar que temas ambientais serão fundamentais numa eventual ratificação do acordo e que os deputados estarão acompanhando de perto os dados sobre o desmatamento no Brasil.

Em resposta, a comissária de Comércio da Europa, Cecilia Malstrom, foi clara: “um acordo comercial sozinho não vai salvar a Amazônia”.

Depois de 20 anos de negociações, os dois blocos fecharam um acordo há poucas semanas. Mas, para entrar em vigor, ainda precisará passar por parlamentos nacionais e, depois, pelo Parlamento Europeu.

O processo pode levar até dois anos. Mas no primeiro debate entre a negociadora e os deputados, ficou evidente que o capítulo ambiental permeará todo o debate. Kathleen Van Brempt, deputada do grupo social-democrata, alertou: “não se pode fechar os olhos” sobre a situação ambiental no Brasil. “O desmatamento está ocorrendo”.

Para ela, a UE precisa esclarecer o que será feito para garantir que os compromissos assumidos pelo Brasil no setor ambiental serão respeitados.

Botão Vermelho

Sugerindo até mesmo o uso de um “botão vermelho” para frear um acordo caso assuntos ambientais sejam violados, a parlamentar insistiu que o assunto não desaparecerá.

Alguns, de fato, levantaram a possibilidade de se usar salvaguardar contra produtos brasileiros caso haja uma violação de aspectos ambientais do acordo, o que foi rejeitado por Malmstrom, que insistiu que o recurso apenas existe para frear importações que violem cotas ou que acabem afetando de forma injusta produtores locais. “O botão vermelho é para importação”, disse.

Os deputados também destacaram como 600 cientistas e inúmeros grupos indígenas questionaram o acordo. “É irônico que estamos ouvindo falar do corte de florestas e, ao mesmo tempo, facilitando a entrada de produtos para a Europa”, declarou o deputado conservador Seán Kelly. Ele, porém, não esconde que está preocupado com a concorrência da carne brasileira para os produtores europeus.

A deputada ecologista, Anna Cavazzini, lamentou o fato de a UE não ter sido mais ambiciosa no aspecto ambiental. “Foi estabelecido que produtos de áreas desmatadas não entrarão na Europa, como a soja. Mas temos certeza que são parados na fronteira?”, questionou.

A deputada Inmaculada Rodrigues-Pinero também fez seu alerta de que o comércio “não pode significar corte de florestas”. Ela ainda destaca para o compromisso dos governos que fecharam o acordo a dar um papel real para a sociedade civil no monitoramento do acordo.

Helmut Scholz, do grupo de esquerda, também apontou para os riscos que representa o acordo no setor da participação civil. “Sabemos da realidade política no Brasil”, alertou. Ele questiona se representantes de grupos indígenas e ongs de fato independentes terão acesso à participação.

Nos últimos meses, o governo de Jair Bolsonaro desmontou os comitês e órgãos com a participação da sociedade civil.

Cecilia Malmstrom, comissária de Comércio da UE, tentou sair em defesa do acordo. Apesar de um tratado não poder salvar a floresta, ela acredita que a UE pode ajudar ao exigir que compromissos sejam assinados. “Se sairmos do acordo, seria melhor?” rebateu. “Ou seria melhor ter acordos vinculantes, como o de salvar o Amazonas?”, disse.

Ele lembrou que, durante as eleições presidenciais no Brasil, existiam “rumores” de que o país sairia do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas. “Mas eles não se repetiram e recebemos sinais claros de que o Brasil não vai sair”, explicou.

Segundo ela, o tratado com o Mercosul transforma o Acordo de Paris em uma obrigação legal. “Existem forças no mundo que querem ir para outro lado”, alertou. Com o acordo comercial, segundo ela, o tratado climático passou a ser um compromisso legal vinculante. “Ancoramos Paris”, disse.

Sua avaliação é de que o acordo comercial pode ser uma força para o bem e servir para pressionar o Brasil. “Não podemos mandar a polícia. Mas podemos tomar passos”, disse a comissária, lembrando como questões trabalhistas na Coreia do Sul levaram à necessidade de que medidas fossem tomadas. Malmstrom, ainda assim, indicou que não houve um consenso na Europa sobre o uso de sanções contra países.

Entre os deputados europeus, vários questionaram justamente a falta de capacidade da UE em garantir que o Brasil siga seus compromissos, como Aurore Lalucq, do grupo de esquerda.

O deputado conservador polonês, Witold Jan Waszczykowski, foi ainda mais direto. “Se não existem instrumentos para aplicar padrões, só podemos destruir a reputação do Brasil se algum problema ocorrer?”, questionou.

Comércio

Não faltaram ainda dúvidas sobre como parar produtos brasileiros que estejam usando agrotóxicos proibidos na Europa, além de preocupações sobre setores específicos como frango, etanol e carnes, além de citros.

Mas Malmstrom insistiu sobre as vantagens econômicas e política do acordo. Para ela, o tratado é “equilibrado” e tem uma “importância geopolítica”. Segundo a negociadora chefe, ao ser o primeiro bloco a fechar um acordo com o Mercosul, a Europa tem uma vantagem comercial grande ao entrar com seus produtos com tarifas mais baixas.

A comissária ainda prevê uma economia de 4 bilhões de euros em taxas para os exportadores europeus, um valor oito vezes superior ao que foi obtido no acordo com o Canadá.

Ela também garantiu que as sensibilidades de certos setores europeus serão protegidas. Ao ser questionada sobre a entrada de frango brasileiro e o risco para os produtores europeus, a comissária deixou escapar: “o que demos a eles (Mercosul) é muito pouco”.

No Brasil, o governo comemorou o acordo, inclusive no setor de exportação de carnes.

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Boris, você está errado http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/boris-voce-esta-errado/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/boris-voce-esta-errado/#respond Tue, 23 Jul 2019 13:02:10 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1755

Hannah McKay, 22 de junho de 2019. Reuters

 

GENEBRA – Boris Johnson foi demitido de seu primeiro trabalho como jornalista, no jornal britânico The Times. Motivo: ele inventou uma citação sobre Edward II.

Mas ele não desistiria. Com pouco mais de 24 anos, seria enviado para Bruxelas pelo Daily Telegraph para ser o correspondente para assuntos europeus. O ano: 1989.

Num perfil publicado pela revista The New Yorker, o autor conta como o jovem Boris
conhecia bem a capital da Europa. Afinal, seu pai havia servido em Bruxelas como um dos funcionários da então Comunidade Econômica Europeia. Boris tinha apenas nove anos de idade quando sua família se mudou para Bruxelas.

Mas ao retornar para la, anos depois, inaugurou uma nova forma de fazer jornalismo entre os correspondentes: exagerar e colocar a opinião pública inglesa contra o bloco.

Em seus relatos, ele contava com um elevado grau de imaginação sobre como a UE queria padronizar os tamanhos de caixões pelo bloco, estabelecer que todo adubo tivesse o mesmo cheiro e até padronizar o tamanho de preservativos. Pouco daquilo tinha uma relação com a realidade.

Ao longo de sua carreira política, sua mente diferenciada e sua passagem por Oxford lhe garantiram grandes debates. Mas sempre usando atalhos, meias verdades e, segundo seus críticos, muitas ilusões. Para a oposição, a mais perigosa delas foi o Brexit.

Johnson teria vendido a saída do bloco como uma ilusão de uma maior renda à classe média frustrada do Reino Unido. Nas urnas, a estratégia funcionou. Hoje, Johnson chega ao auge de seu poder. E, imediatamente, a UE se prepara para viver meses intensos e turbulentos.

Não faltam ainda comparações com outros ilusionistas, como Boris Yeltsin. Ambos chegaram ao poder com promessas mirabolantes e irrealistas. Nos anos 90, o russo prometia levar à economia local ao capitalismo, num espaço de 500 dias. Hoje, é o outro Boris que promete ir adiante com o Brexit, custe o que custar, até o dia 31 de outubro.

Quem faz a avaliação é Vytenis Andriukaitis, o comissário europeu para a saúde e a segurança alimentar. De nacionalidade lituana, ele alerta que os aliados de
Boris Johnson na campanha pelo Brexit seriam tão desonestos como Boris Yeltsin.

Sua avaliação é das mais duras contra o novo líder britânico, acusado por muitos na Europa por ter jogado a carta populista em busca de poder e levado o Reino Unido ao seu maior caos desde o final da Segunda Guerra Mundial.

“Quase ironicamente, sem comparar o próprio Reino Unido com a URSS porque não é comparável, não consigo pensar num padrão dourado melhor do que a URSS em termos de distorção de facto, falsificação da realidade e esquecimento brusco da realidade”, escreveu.

“Depois, os heróis da era da perestroika juraram que iriam criar uma economia de mercado na Rússia pós-soviética em 500 dias! O “Programa dos 500 Dias” é história. Tal como as outras promessas mais irrealistas da altura, isto nunca se tornou realidade. As pessoas pagaram estas promessas vazias com empobrecimento, desigualdade e muito mais. O programa deixou também uma citação infame: Boris, ti ne prav (“Boris, você está errado”)!

Para ele, Londres tem “um Boris diferente, claro, mas havia algo na maneira de fazer política que era semelhante: muitas promessas irrealistas, ignorando racionalidades econômicas e decisões racionais”.

“Essas decisões levaram a uma nova constituição autocrática e finalmente abriram o caminho para Vladimir Putin. Hoje, na Rússia, temos oligarcas, uma pseudoeconomia de mercado, uma pseudo-democracia regulada e governada. E o autoritarismo de Putin. Para Boris Yeltsin, o aviso se tornou realidade: “Boris, você está errado”. Esperemos que não seja o caso de Boris Johnson se ele for eleito hoje”, afirmou o lituano.

Não faltam ainda críticos que também apontam para o caráter pouco diplomático do novo chefe de governo do Reino Unido. Os incidentes diplomáticos são vários. Mas um dos que ficou marcado foi quando ele chamou Obama de “presidente meio-queniano”, numa alusão ao fato de o país africano ter sido parte do Império Britânico.

Eu estive em uma ocasião com ele, em 2012. Era a véspera da abertura da Olimpíada de Londres e o COI realizava um daqueles banquetes olímpicos. Johnson decidiu chegar ao evento em sua bicicleta e sozinho, em parte para ridicularizar os donos dos anéis. Enquanto me perguntava sobre o Rio em 2016, insistia que ele não tinha nada para comemorar. “Só podemos celebrar ao final do evento”, disse, num sinal claro de que não descansaria para transformar aquele evento em um trampolim político.

Funcionou e ele acabaria assumindo posições cada vez mais relevantes no Reino Unido.

Ainda nos anos 90, quando o repórter Boris Johnson finalmente deixou Bruxelas e voltou para Londres, o então repórter do Times de Londres, James Landale, rabiscou um poema em sua “homenagem”:

Boris told such dreadful lies
It made one gasp and stretch one’s eyes.

Sua chegada ao poder, neste quente verão europeu, também está obrigando a muitos a suspirar.

 

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Novo informe sobre Mudanças Climáticas colocará Bolsonaro sob pressão http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/22/novo-informe-sobre-mudancas-climaticas-colocara-bolsonaro-sob-pressao/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/22/novo-informe-sobre-mudancas-climaticas-colocara-bolsonaro-sob-pressao/#respond Mon, 22 Jul 2019 09:11:14 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1750

Na ONU, lideranças indígenas protestam contra as políticas ambientais do governo Bolsonaro.

 

GENEBRA – Um novo informe do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigle em inglês) promete se transformar no novo ponto de desentendimento entre cientistas, a comunidade internacional e o governo de Jair Bolsonaro.

O documento será publicado no início de agosto para avaliar a relação entre mudanças climáticas e o uso da terra. A constatação é de que há uma tensão cada vez maior: de um lado, a produção de alimentos. De outro, a preservação como forma de lidar com as mudanças climáticas.

Os detalhes do informe ainda estão sendo mantidos em sigilo, assim como suas conclusões e recomendações. Mas um dos pontos é a conclusão de que a terra é “finita” e “limitada”, o que portanto está causando um confronto entre aqueles que defendem a expansão de seu uso para a agricultura e aqueles que insistem que essa terra precisa fazer parte de um esforço para mitigar o impacto de mudanças climáticas no mundo.

Seus autores não disfarçam que existe o risco de um debate entre cientistas e governos sobre temas como a produção de alimentos ou bioenergia.

A preservação de uma certa área tem um impacto global e que, portanto, ações sobre a terra não podem ser consideradas apenas como uma decisão de impacto local.

Na semana passada, Bolsonaro causou ampla repercussão internacional quando declarou a jornalistas estrangeiros sua visão sobre a preservação da Amazônia.

“Existem regulamentações ambientais absurdas (no Brasil) que promovem um divórcio entre preservação ambiental e desenvolvimento”, afirma. “A Amazônia é nossa, não é de vocês”, declarou. “Existe uma verdadeira psicose ambiental que deixa de existir comigo”, alertou.

Ele também surpreendeu ao colocar em questão dados científicos produzidos sobre desmatamento e garantiu que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente no mundo. “Se todos os dados de desmatamento dos últimos dez anos fossem verdadeiros, a Amazônia não existiria mais”, disse.

Ao longo dos últimos meses, dados sobre mudanças climáticas chegaram a ser questionadas também pelo chanceler Ernesto Araújo.

Assim que assumiu, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, extinguiu a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas e a substituiu pela Secretaria de Florestas e Desenvolvimento Sustentável. Para a surpresa mundial, o Brasil ainda desistiu de sediar a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-25), em dezembro.

Ativistas ainda criticaram quando o ministro disse que o governo precisava se preocupar com coisas mais tangíveis e que o assunto das mudanças climáticas era para “acadêmicos” sobre como estará o planeta “daqui a 500 anos”. Sua pasta ainda contingenciou 96% dos recursos que existiam para a Política Nacional sobre Mudanças Climáticas.

Barack Obama e outros líderes já deixaram claro que a atual geração é a primeira no mundo a viver os reais impactos das mudanças climáticas.

No caso do IPCC, ainda que a sede de sua secretaria fique em Genebra, 53% dos cientistas que participaram da elaboração do documento são de países em desenvolvimento. O documento deve ser publicado no dia 8 de agosto.

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Nacionalismo e China ameaçam ordem econômica que completa 75 anos http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/22/nacionalismo-e-china-ameacam-ordem-economica-que-completa-75-anos/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/22/nacionalismo-e-china-ameacam-ordem-economica-que-completa-75-anos/#respond Mon, 22 Jul 2019 07:00:26 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1738  

 

Em 1944, em Bretton Woods, mundo se uniu para criar um novo sistema econômico. 75 anos depois, essa estrutura é alvo de ataques e hesitação e FMI, Banco Mundial e OMC aceleram suas reformas.

 

GENEBRA – A Segunda Guerra Mundial não tinha sequer terminado. De fato, o desembarque na Normandia cumpria apenas três semanas quando, num canto perdido do estado de New Hampshire, nos EUA, delegados de 44 países e mais de 700 pessoas se reuniriam para começar a desenhar o novo mundo que surgiria com a eventual derrota de Adolf Hitler.

No dia 22 de julho de 1944, há exatos 75 anos, o que sairia daquela reunião em Bretton Woods seria a nova estrutura da economia mundial com a predominância americana, abrindo caminho e colocando as bases para o que, anos depois, seria conhecido como globalização.

Hoje, o sistema está sob forte questionamento, enquanto o nacionalismo e o protecionismo atacam as bases das estruturas criada naquele momento. Tentando sobreviver e sob forte pressão do fortalecimento da China, as instituições que foram originadas em 1944 mergulham em reformas e uma mudança de perfil.

Mas, mesmo em alguns governos, a sensação é de que o sistema já chegou a seu limite e terá de ser reinventado, obrigando FMI, Banco Mundial e a OMC a se repensar.

Bretton Woods criaria um novo sistema financeiro global com o objetivo de evitar que a Grande Depressão do final dos anos 20 e início dos 30 voltasse a ocorrer. Para muitos naquela reunião, havia sido o tombo inédito da economia mundial que abrira caminho para populistas, nacionalismo e, claro, para a guerra.

Coube a um economista do Tesouro americano pensar em uma estrutura internacional que pudesse dar estabilidade, criar regras e, ao mesmo tempo, manter a supremacia dos EUA e seus aliados. Às ideias americanas foram somadas propostas do lendário economista britânico John Maynard Keynes.

O período entre a Primeira Guerra Mundial e o Colapso das Bolsas de 1929 viu uma proliferação de discursos protecionistas e, quando a recessão chegou, não demorou para que as barreiras comerciais e as desvalorizações de moedas se proliferassem.

Tampouco demorou para que, diante de uma guerra comercial cada vez mais intensas, governos passassem a lidar com os demais como inimigos.

Durante três semanas, economistas de todo o mundo se debruçaram sobre um plano que, depois do desembarque dos Aliados na França, representaria uma segunda etapa de uma estratégia para salvar o mundo.

O americano Harry Dexter White chegou à constatação de que a economia global, se quisesse sobreviver, teria de ser regida por duas instituições: um fundo para administração o sistema de câmbio e um banco para reconstruir o mundo de sua pior guerra. Nada mais nada menos que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. O tripé de Bretton Woods seria completado com novas regras do comércio, o GATT e que, décadas depois, se transformaria na OMC.

White ainda manobrou para que a conferência estabelecesse o dólar como referência, ainda que o padrão ouro fosse consolidado. Mas, ainda que fosse apontado como o provável primeiro diretor-geral do FMI, o economista americano teve sua candidatura retirada diante das suspeitas do governo de seu país de que ele fosse um informante dos soviéticos. Comunista ou não, a realidade é que White foi fundamental para construir a nova base da economia mundial.

Ao concluir os trabalhos, o então secretário do Tesouro dos EUA, Henry Morgenthau, ressaltaria que foi justamente graças à cooperação internacional que o mudo se fortaleceu e abriria caminho à prosperidade.

Segundo ele, os delegados dos 44 países “não viram incompatibilidade entre a devoção a seus próprios países e uma ação conjunta”. “De fato, descobrimos que a única forma genuína de proteger nossos interesses nacionais seria a cooperação internacional”, declarou. Para analistas, o sistema funcionou: o comércio se multiplicou 40 vezes entre 1950 e 2017 com a abertura de mercados do receituário de Bretton Woods e a pobreza que atingia 75% da população mundial em 1950 foi reduzida sete vezes.

Mas junto com esse sistema veio uma profunda desregulação dos mercados, o que agravou a disparidade social em muitos países e, acima de tudo, transformou o mercado em um poder paralelo, incapaz de ser controlado pelos estados.

 

Delegados se reúnem em 1944 em Bretton Woods. Foto: aquivo Bretton Woods

 

Ameaças

75 anos depois, os discursos de alguns dos principais líderes políticos causam calafrios a historiadores e mesmo economistas, que destacam a “coincidência” das palavras e termos usados nos anos 30 e agora.

“Devemos proteger nossas fronteiras dos estragos que outros países”, disse em 2017 o presidente Donald Trump, no que seria o início de uma guerra comercial. “A proteção conduzirá a uma maior prosperidade e força”, completou.

O que era apenas uma estratégia nos bastidores aos poucos passou a ser vocal. Na OMC, o governo americano não disfarça que quer uma reforma completa, processo que já teve seu início. Em dezembro, se nada for feito, os tribunais da entidade deixarão de funcionar, num colapso para a existência de regras.

Ao longo dos últimos meses, tarifas sobre mais de US$ 400 bilhões foram aplicadas e tanto o FMI como a OMC alertam que a economia global pode sofrer.

Mas a ameaça não vem apenas de Washington. Para o governo da França, por exemplo, o surgimento de novas potências, como a China, colocam o sistema sob um forte teste.

“A ordem de Bretton Woods como a conhecemos chegou a seu limite”, disse Bruno Le Maire, ministro de Finanças da França numa coletiva para marcar os 75 anos do acordo.  “A alternativa que temos é clara: ou reinventamos Bretton Woods ou ela corre o risco de perder relevância e eventualmente desaparecer”, disse.

Em sua avaliação, se  Bretton Woods definiu o século 20, o século 21 pode ser definido pela Nova Rota da Seda, um projeto chinês para conectar a China, Ásia e Europa, em um plano de bilhões de dólares para refazer um país inteiro.

“Se não formos capazes de reinventar Bretton Woods, a Nova Rota da Seda vai ser a nova ordem e os padrões chineses podem se tornar nos novos padrões internacionais”, disse.

No Banco Mundial e no FMI, a urgência por uma reinvenção também é palpável. As instituições foram acusadas por anos de aplicar receitas a economias em desenvolvimento que, apesar de sanar contas do estado e pagar seus credores, exigiam da população sacrifícios que não existiam nos países ricos.

A partir de 2008, foi a vez de países europeus terem também pedir socorro ao FMI e, em troca, aplicar seu receituário. O resultado: desemprego e uma crise social, aprofundando a imagem desgastada das instituições de Bretton Woods. O que se veria nos anos seguintes seria um descontentamento crescente de diferentes populações do mundo diante da sensação de que estariam sendo deixadas para trás e da percepção de que as instituições que salvaram os bancos, em 2008, pouco fizeram por elas.

Não demorou para que líderes populistas surgissem quase de forma simultânea no mundo. Quase todos tinham a mesma promessa: a de romper com a elite no poder que estaba ignorando as populações.

O receituário, porém, caminha sobre trilhos muito parecidos ao dos anos 30: a falta de cooperação internacional, a proliferação de barreiras comerciais, a ameaças de desvalorizações da moeda e um profundo sentimento de desfiança entre os líderes.
Oportunidade Perdida

Essa, porém, não é a primeira vez que o sistema é alvo de ataques. A crise mundial de 2008 colocou a estrutura de Bretton Woods à beira de colapso.

Naquele momento, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, desembarcou em Camp David com a missao de costurar com o presidente George W. Bush o que ja se chamaria de Bretton Woods 2: reformar o sistema internacional, garantir maiores controles sobre a economia global e, assim, evitar novas crises.

Os paises emergentes deixaram claro que não haveria como estabelecer um novo sistema sem sua presença.

Cenario de tantas negociações de paz, Camp David seria o princípio de uma agenda ambiciosa: reformar o FMI, o Banco Mundial e todas as regras internacionais que administram o mercado financeiro.

Mas se a economia mundial foi salva graças à cooperação internacional a partir de 2008 e se bancos foram resgatados, a realidade é que a reforma do sistema não ocorreu da forma que muitos esperavam.

Em diversos documentos que circularam naquele momento, ficava claro que tanto europeus como americanos estavam preocupados com a posição que governos emergentes tomariam diante da crise. A estratégia foi a de buscar uma forma de convencer os emergentes a apoiar as propostas que surgiam nos países ricos, cedendo em alguns pontos justamente para não criar um racha na comunidade internacional.

Um dos telegramas norte-americanos emitidos depois da primeira reunião de cúpula do G-20, no dia 19 de novembro de 2008, a diplomacia americana relata como os europeus saíram aliviados diante do fato de os governos emergentes terem “comprado” o receituário proposto durante o evento.

Dias depois, o governo da França insistia aos americanos que a estratégia para lidar com a crise teria de envolver um plano para envolver os emergentes e não gerar “uma divisão norte-sul” no mundo.

O temor tinha fundamentos. Pelos documentos, fica evidente a preocupação dos americanos diante da insistência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em apontar os países ricos como culpados pela crise.

A constatação da diplomacia americana foi de que Brasília também usava a crise para obter uma maior voz no cenário internacional. “O Brasil está cada vez mais tentando ter um papel de liderança”, indicou. “O Brasil dificilmente vai apoiar maiores poderes ao FMI sem reformas e um maior papel do Brasil dentro do FMI”, alertou o telegrama de 31 de outubro.

Já no dia 7 de novembro daquele mesmo ano, uma avaliação feita pelos americanos chegava a constatação de que “qualquer ideia de fortalecer o papel de instituições como o FMI estaria ligada a um reforma para dar ao governo do Brasil mais voz e voto”. “O Brasil não apoiaria um modelo de órgão internacional com autoridade de dizer o que o Brasil deve fazer, mas sem uma voz suficiente do Brasil para influenciar suas decisões”, indicou.

Dez anos depois, as reformas não foram completadas e, diante de um discurso populista e nacionalista, essas instituições vivem um de seus momentos mais críticos desde 1944.

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Desemprego e recessão deixaram população mais vulnerável à fome http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/desemprego-e-recessao-deixaram-populacao-mais-vulneravel-a-fome/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/desemprego-e-recessao-deixaram-populacao-mais-vulneravel-a-fome/#respond Sat, 20 Jul 2019 09:56:36 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1734

9.out.2017 – José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, durante entrevista coletiva em Roma (Itália), cidade-sede da entidade (DIVULGAÇÃO/FAO)

 

GENEBRA – As agências da ONU colocaram o Brasil como um dos países que, por conta da crise econômica nos últimos anos e do aumento do desemprego, viu um aumento da vulnerabilidade de sua população ao risco da fome.

Os dados fazem parte do relatório de cinco entidades das Nações Unidas que, no início da semana, traçou o mapa da fome no mundo. O documento foi preparado pela FAO, OMS e outras instituições e serve como a principal referência sobre a fome no mundo.

As agências estimaram que, de 137 países analisados, 84 deles estavam em uma situação de maior vulnerabilidade por conta de crises econômicas nos últimos anos.

O Brasil foi um deles. Na América do Sul, a mesma situação é destacada para a Bolívia, Equador, Guiana, Paraguai, Suriname e Venezuela.

Num outro trecho do mesmo informe, as agências da ONU voltam a colocar o Brasil entre os países com “um aumento da prevalência da má-nutrição” por conta de crises econômicas registradas entre 2011 e 2017.

Um ano antes, em seu relatório de 2018, a FAO  havia apontado que, entre 2015 e 2017, o Brasil registrava menos de 5,2 milhões de pessoas que passavam fome.

As agências da ONU explicam que ainda não contam com os dados brasileiros para 2018, já que as informações ainda não foram repassadas pelas autoridades.

Mas alguns dados dariam uma sinalização: a anemia entre mulheres em idade reprodutiva aumentou. Ela passou de 25,3% em 2012 para 27,2% em 2016.

AVANÇOS

O total de famintos em 2017 representava, ainda assim, uma melhora importante em comparação aos dados de 2004, quando 8,6 milhões de brasileiros passavam fome. O índice é também bastante inferior às taxas dos anos 90.

Em termos percentuais, a fome passou de 12% da população brasileira em 1999 para 4% em 2004 e menos de 2,5% em 2010. No mesmo período, a fome entre crianças foi reduzida de forma importante, com queda de 6 pontos percentuais.

Mas o temor da entidade é quanto ao impacto da recessão econômica no Brasil e o salto importante nas taxas de desemprego.

Em entrevista ao UOL no início do ano, o diretor-geral da entidade, José Graziano, foi claro em dizer que a crise econômica levava a crer que haveria um aumento no número de pessoas sob risco de fome no País. “Até agora, o que se pode antecipar é um aumento da insegurança alimentar em geral devido à crise econômica, com aumento do desemprego”, declarou. Naquela entrevista, ele também alertou que o combate à fome não poderia ter ideologia.

Um outro lado da vulnerabilidade das populações também é, paradoxalmente, o aumento da obesidade. Com uma renda menor, a tendência de famílias é a de buscar produtos mais baratos e, portanto, menos saudáveis. O resultado, no Brasil, acabou contribuindo para o salto na obesidade.

Em 2004, essa taxa era de 19%. Mas, em 2017, a proporção chegou a 22,3% dos brasileiros, num dos maiores saltos registrados no mundo.

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Governo Maduro denuncia congelamento de R$ 20 bi em bancos no exterior http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/governo-maduro-denuncia-congelamento-de-r-20-bi-em-bancos-no-exterior/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/governo-maduro-denuncia-congelamento-de-r-20-bi-em-bancos-no-exterior/#respond Sat, 20 Jul 2019 07:00:21 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1727

 

GENEBRA – Bancos europeus, norte-americanos e mesmo asiáticos já congelaram mais de US$ 5,4 bilhões (R$ 20,08 bilhões) em ativos pertencentes ao estado venezuelano. Os dados são do próprio governo de Nicolas Maduro e obtidos pelo UOL.

Apenas no Novo Banco, de Portugal, US$ 1,5 bilhão estão congelados, além de US$ 1,3 bilhão em barras de ouro no Banco da Inglaterra.

Durante o governo de Hugo Chávez, Caracas optou por reduzir sua dependência sobre o dólar americano e passou a acumular reservas em ouro e espalhar seus ativos pelo mundo. Em 2011, já vivendo um esgotamento de seu modelo econômico, Chávez ordenou que US$ 11 bilhões em reservas internacionais aplicadas fora do país fossem repatriadas. Nos anos seguintes, porém, o dinheiro foi consumido por um governo que tentava se manter no poder.

De acordo com o levantamento de Caracas, mais de 50 bancos pelo mundo seguiram ordens emitidas por seus governos para impedir que Maduro tenha acesso aos recursos. Parte desse congelamento ocorre por suspeitas de corrupção, enquanto outro montante significativo tem uma relação direta com as sanções impostas pelo governo de Donald Trump e alguns países europeus.

No Citibank, dos EUA, por exemplo, um total de US$ 458 milhões estavam congelados ao final de abril de 2019. Outros bancos que tomaram medidas similares são o UnionBank, o Banque Delubac e o Sumitomo Bank. Na Suíça, os venezuelanos acusam o UBS de também ter bloqueado recursos.

Desde que o cerco financeiro ganhou uma maior intensidade, o governo passou a tentar acordos e movimentar recursos usando rotas alternativas, incluindo Rússia, China, Turquia e o Oriente Médio.

Mas não é apenas uma ordem internacional que vem levando os bancos a congelar os ativos. A Assembleia Nacional da Venezuela também tem feito pedidos para que a comunidade internacional ajude a asfixiar o regime Maduro.

Juan Guaido, que se auto-declarou presidente interino, chegou a nomear membros de um novo conselho de administração da empresa Citgo, na esperança de obter o controle sobre a companhia com sede em Houston, nos EUA, e de propriedade do estado venezuelano.

A diplomacia venezuelana insiste que o governo americano congelou os ativos da empresa para impedir que seus lucros sejam repatriados para a Venezuela. O valor total seria de US$ 11 bilhões.

Crise

Para o governo de Maduro, são esses bloqueios que explicariam os problemas de falta de remédios e outros produtos e serviços na Venezuela. Mas uma investigação recentemente publicada pela ONU desmente a versão oficial de Caracas.

Para a entidade internacional, não existem dúvidas de que o embargo econômico imposto pelos americanos aprofundou a crise social. Mas a ONU alerta que os problemas começaram antes de qualquer bloqueio, desmontando a tese de Maduro para se defender.

Para a ONU, portanto, a responsabilidade pela crise é do governo. “A má alocação de recursos, a corrupção, a falta de manutenção da infraestrutura pública e o grave subinvestimento resultaram em violações ao direito a um padrão de vida adequado relacionadas ao colapso dos serviços públicos, como transporte público, acesso à eletricidade, água e gás natural”, disse o informe.

Hoje, o salário mínimo é de apenas US$ 7,00, o que seria suficiente para atender a apenas 4% do valor da cesta básica de alimentos no país. De acordo com a ONU, o principal programa de assistência alimentar “não satisfaz as necessidades nutricionais básicas”.

“O governo não demonstrou que utilizou todos os recursos à sua disposição para assegurar a realização progressiva do direito à alimentação, nem que não conseguiu obter assistência internacional para preencher as lacunas”, disse. Segundo a ONU, há uma escassez de 60 a 100% de medicamentos essenciais em quatro das principais cidades da Venezuela, incluindo Caracas.

Algumas cidades não contam com contraceptivos e o número de gravidezes de adolescentes aumentou em 65% desde 2015. Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, 1.557 pessoas morreram por falta de suprimentos nos hospitais.

Segundo a investigação, o governo Maduro tem usado os programas sociais para atender apenas aqueles que continuam aliados ao regime. Cartões que dão acesso ao abastecimento também passaram a ter um controle partidário. Mulheres que, em bairros mais pobres, protestam contra a falta de serviços também são excluídas de programas sociais. Muitas, assim, optam pelo silêncio

Hoje, a inflação acumulada no país é de mais de 2.866.670 % e a perda do PIB chega a 44%.

Maduro qualificou a investigação de “mentirosa”.

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“A situação atual é sem precedentes em nossa história”, alertam indígenas http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/a-situacao-atual-e-sem-precedentes-em-nossa-historia-alertam-indigenas/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/a-situacao-atual-e-sem-precedentes-em-nossa-historia-alertam-indigenas/#respond Fri, 19 Jul 2019 16:16:45 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1729

Na ONO, lideranças indígenas protestam contra governo Bolsonaro.

 

De forma inédita, principais lideranças se unem para denunciar Bolsonaro na ONU

 

GENEBRA – As lideranças indígenas brasileiras se unem e denunciaram nesta sexta-feira as políticas do governo de Jair Bolsonaro. O ato ocorreu na ONU, onde reuniões durante a semana explicitaram o colapso no diálogo entre o governo brasileiro e os indígenas.

O documento de protesto foi assinado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, pela Coordenação das Organizações da Amazônia Brasileira, pela Federação dos Povos Indígenas do Pará, Rede de Juventude Indígena, Articulação das Mulheres Indígenas do Ceará, Hutukara Associação Yanomami, Tronco Velho Pankararu, Conselho Indigenista Missionário e pela Rede de Cooperação Amazônica.

“Mesmo reconhecendo que também enfrentamos vários problemas e dificuldades em governos anteriores, a situação atual é sem precedentes em nossa história”, declararam.

O protesto, porém, foi acima de tudo um grito de socorro, lançado à comunidade internacional. “Neste momento de retrocessos nas políticas sociais e nos padrões civilizatórios brasileiros, julgamos importante nos manifestar”, explicaram.

“Vimos perante a comunidade internacional dos povos indígenas, dos Estados-membros das Nações Unidas, das organizações-não governamentais, de acadêmicos e especialistas demonstrar nossa indignação com a atual política do governo do Brasil com respeito aos povos indígenas”, declararam.

“Dizemos ao mundo que agora o Brasil é governado por um presidente que sistematicamente vem se declarando contrário aos povos indígenas, contrário à manutenção e proteção dos territórios indígenas e das áreas protegidas, contrário à participação social e ao ativismo da sociedade civil organizada”, disseram.

Mesmo depois das eleições, eles alertam que Bolsonaro segue dando declarações e entrevistas em que “reafirma sua disposição de não demarcar nenhum centímetro de terra indígena, de buscar formas de autorizar a mineração e a exploração dos recursos naturais nessas terras e, ainda, de reduzir terras indígenas e unidades de conservação, garantidas pela Constituição Federal”.

“Dizemos ao mundo que, entre seus primeiros atos como presidente, transferiu o órgão indigenista federal, a FUNAI, do Ministério da Justiça para o Ministério dos Direitos Humanos, Mulher e Cidadania, chefiado por uma pastora evangélica, e retirou dele a incumbência de demarcar terras indígenas, passando essa atribuição ao Ministério da Agricultura e Pesca, este chefiado por uma ruralista”, alertaram.

“Mesmo o Congresso Nacional tendo rejeitado tais mudanças, insistiu na transferência de atribuições da FUNAI, reeditando nova medida provisória (MP 886), em ato de confronto ao parlamento e considerado inconstitucional”, insistiram.

“Dizemos ao mundo que, contrário à participação e controle social, o Presidente Bolsonaro extinguiu por decreto todos os colegiados, fóruns e conselhos que incluíam representantes da sociedade civil, entre eles o CNPI – Conselho Nacional de Política Indigenista, principal instância de pactuação da política indigenista, Conselho Gestor da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas e o Fórum de Presidentes do Conselho Distrital de Saúde Indígena”, denunciaram.

Ódio

Outro destaque da declaração é o repúdio ao discurso de ódio contra os povos indígenas. Segundo eles, essa tendência “cresce no país, induzindo ao aumento de invasões de territórios indígenas e da violência, criminalização e ameaças de lideranças indígenas, ao mesmo tempo em que se desmontam as políticas de saúde, educação, cultura e gestão territorial indígena”.

O grupo ainda denuncia a exploração ilegal de minérios nas terras indígenas, o desmatamento ilegal para exploração de madeira e a aprovação de 197 agrotóxicos nos últimos seis meses.

As lideranças também criticavam a postura do governo brasileiro na ONU. Ao longo dos últimos dias, o governo se mostrou hesitante sobre uma maior participação dos povos indígenas no Conselho de Direitos Humanos.

O Itamaraty também surpreendeu ao ler um texto em que indicava que a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas não tinha poder vinculante, sugerindo que o governo não adotaria muitos de seus pontos.

Ao longo da semana, o governo brasileiro tem insistido que Brasilia tem como política a proteção de grupos indígenas e, numa das reuniões, seus diplomatas deixaram claro que não aceitariam sugestões de que estaria ocorrendo um “genocídio”.

Outro mantra do governo tem sido o de comparar o tamanho dos países europeus com terras indígenas reconhecidas em décadas passadas.

Os indígenas “repudiam” a comparação. Tal iniciativa, segundo eles, “omite o grande número de territórios sem nenhuma definição e a total falta de disposição do atual governo em dar seguimento aos processos de reconhecimento territorial de vários povos e comunidades indígenas, alijados de seu direito mais fundamental, bem como a falta de ação para coibir invasões em territórios já reconhecidos”.

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América Latina é região que mais perdeu floresta no século 21 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/cobertura-florestal-na-america-latina-e-que-mais-sofreu-queda-no-seculo-21/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/cobertura-florestal-na-america-latina-e-que-mais-sofreu-queda-no-seculo-21/#respond Fri, 19 Jul 2019 07:00:00 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1722  

Desmatamento da Amazônia no Peru Foto: WFU/ACERS

 

GENEBRA – A América Latina foi a região do mundo que registrou a maior queda de cobertura florestal nos 15 primeiros anos do século 21. Os dados foram apresentados nesta quinta-feira pela FAO e destacam que, no atual ritmo, o planeta não conseguirá atingir seus objetivos de conservação do meio ambiente até 2030.

“A perda de floresta continua em uma taxa alarmante em algumas regiões”, destaca o informe da entidade. “Entre 2000 e 2015, a proporção de área de floresta em comparação à área terrestre do mundo caiu de 31,1% para 30,7%”, indicou. De acordo com o levantamento, os dados são coletados a cada cinco anos e, portanto, apenas em 2020 é que se poderá ter uma melhor ideia do que ocorreu nos últimos anos.

Mas a entidade deixa claro: “grande parte da perda ocorreu nos trópicos, com a maior queda na América Latina e na África”. A conversão de áreas de floresta para o uso agrícola estaria entre os principais motivos para a perda das florestas. De acordo com a FAO, 80% da biodiversidade terrestre do mundo estão nas florestas.

No ano 2000, 49,1% do território latino-americano era coberto por florestas. Em 2015, essa taxa caiu para 46,4%. Na África Sub-Saariana, a taxa era de 29% e, em 2015, caiu para 26,9%.

Ganhos

Se na América Latina a cobertura florestal perde espaço, a FAO destaca como a Europa e América do Norte fazem um caminho inverso. “Nessas regiões, reflorestamento ativo e restauração, assim como a expansão natural de florestas em terras agrícolas abandonadas, levaram a uma expansão da área de floresta”, indicou.

Na América do Norte e Europa, a taxa de cobertura florestal era de 40,5% em 2000 e, 15 anos depois, passou para 41%.

Em algumas partes do Sudeste Asiático a floresta também ganhou terreno, passando de 28,2% em 2000 para 29,4% em 2015.

Outra preocupação da FAO se refere à extinção rápida de espécies de sementes, animais e plantas. A entidade estima que, hoje, 60% delas estejam sob o risco de extinção. De cerca de 7,1 mil espécies que existem apenas em um país, 1,9 mil delas estão já na lista de potenciais casos de extinção, incluindo uma espécie de gado na Etiópia e a cabra Gembrong em Bali.

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Neonazistas recorrem a games e memes para recrutar crianças http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/18/neonazistas-recorrem-a-games-e-memes-para-recrutar-criancas/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/18/neonazistas-recorrem-a-games-e-memes-para-recrutar-criancas/#respond Thu, 18 Jul 2019 07:00:19 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1713  

Gudrun Burwitz fotografada com seu pai, Heinrich Himmler, em 1938; ele era um dos homens de confiança de Hitler (AP)

 

GENEBRA – O envolvimento de jovens em movimentos nazistas faz parte da própria história da ideologia. Mas, no século 21, entidades clandestinas têm usado justamente as novas tecnologias e até games para seduzir crianças, algumas a partir de 13 anos.

Isso é o que revela uma nova investigação conduzida por relatores da ONU (Organização das Nações Unidas) e que aponta para o fato de que o apoio a movimentos neonazistas no mundo está cada vez mais jovem e violento, principalmente na Europa e na América do Norte.

O documento, preparado pela relatora Tendayi Achiume, indica como esses jovens são vistos pelos grupos extremistas como “impressionáveis, sozinhos, marginalizados e buscando um sentido de identidade”. Muitos, segundo a investigação, não têm a capacidade de distinguir entre verdade e informação falsa, o que os torna ainda mais vulneráveis.

Nos anos 1930, eram programas de rádio, acampamentos e escolas que garantiram a atração desses menores à Juventude Nazista. Dezenas de ligas foram criadas pela Alemanha com a finalidade de formar bases para a sobrevivência do modelo. A partir de 1936, meninos e meninas passaram a ser incluídos em grupos nazistas de forma compulsória.

“Hoje, grupos de ódio usam estratégias similares em seu modelo de recrutamento”, alerta o documento da ONU. Mas, agora, contam com a tecnologia.

Um exemplo é o website neonazista Daily Stormer. Seu editor afirmou que o site foi “projetado principalmente para atingir crianças”, com o objetivo de radicalização. “Para atrair crianças, esses sites incorporam música, atividades, jogos e personagens de desenhos animados”, diz. “Alguns sites de ódio apresentam-se como sites educacionais e são preenchidos com informações falsas e interpretações intencionalmente distorcidas de trabalhos acadêmicos confiáveis”, indica.

“Além disso, os grupos de ódio frequentemente empregam memes como um meio de levar as crianças a compartilhar crenças racistas.”

A investigação também revela que líderes de grupos de ódio concentram seus esforços em atingir adolescentes universitários. Ali estariam “os futuros líderes dos movimentos”. “Nos Estados Unidos, houve cerca de 300 incidentes documentados de circulação de panfletos racistas em mais de 200 campi”, aponta o relatório.

“Após a mais recente eleição presidencial (nos EUA), os líderes nacionalistas brancos aumentaram seu recrutamento de estudantes universitários.”

Games

Mas o recrutamento também é sofisticado. “Grupos de ódio se infiltraram cada vez mais no mundo de games como uma nova forma de atingir membros potenciais, incluindo crianças de até 13 anos”, afirma. “Jogos de vídeo e fóruns relacionados a jogos, salas de bate-papo e sites de streaming ao vivo (YouTube, por exemplo) estão entre os espaços mais populares de recrutamento e radicalização neonazista”, relata.

Um ex-simpatizante neonazista descreveu o processo usado. A estratégia começa com calúnias sobre diferentes raças ou religiões, uma espécie de estratégia para “testar as águas”. Ele relatou que “uma vez que eles sentem que têm seus ganchos sobre os jovens, aumentam a velocidade da operação e então começam a enviar propaganda, links para outros sites ou começam a falar sobre tropas antissemitas racistas”.

Num primeiro momento, ao se comunicar e se espalhar por outros espaços online, esses grupos evitam se apresentar como supremacistas brancos e apenas citam partidos que legalmente atuam no cenário eleitoral ou políticos populistas. Com isso, esperam ampliar a base social dos movimentos.

Segundo o informe, enquanto estão jogando, a doutrina é passada. “Espaços de games são mais populares para o recrutamento neonazista do que plataformas como o Facebook, possivelmente devido aos mecanismos de rastreamento deste último”, explica a relatora da ONU.

A investigação não despreza, porém, o fato de que plataformas como o Facebook e o Twitter estejam sendo amplamente utilizadas. Mas, neste caso, o discurso é acima de tudo para aumentar o potencial de comunicação para recrutadores.

Outra maneira de seduzir os jovens é usando a música. Na avaliação do informe, ela teve “um papel importante nas estratégias de recrutamento”. Com seu início nos anos 1980, a white-power music teria criado um terreno fértil para que esses extremistas passem a uma etapa mais direta de convencimento.

Em julho de 2018, por exemplo, foi organizado na Alemanha o festival Rock Gegen Überfremdung (Rock contra a dominação estrangeira). Pelo menos 6.000 pessoas estiveram presente. Mas o fenômeno vai muito além de um festival. Por ano, cerca de 150 shows são organizados na Alemanha, envolvendo diretamente 15 mil pessoas na produção ou distribuição de material de publicidade.

Motivação

Estudos mostram que os motivos dos jovens para se juntarem inicialmente a grupos de ódio não são principalmente ideológicos ou políticos. “Esses motivos estavam mais ligados a razões sociais e emocionais e à busca de afiliação, proteção, reconhecimento e aventura”, indica o informe.

“Alguns estudos mostram que a frustração de certas necessidades psicológicas motiva muitas vezes os jovens a encontrar conforto através da adesão a grupos racistas extremistas”, aponta. “A necessidade de pertencer é uma das necessidades psicológicas mais básicas dos seres humanos, e a procura de pertencimento, comunidade e significado pode levar os jovens a se juntarem a grupos extremistas violentos”, diz a ONU.

“Esses grupos podem também proporcionar aos jovens um sentimento de segurança, incluindo a proteção contra a intimidação ou atormentação por outros”, constata.

“À medida que os jovens se esforçam para encontrar sentido na vida e provar seu valor para si mesmos e para os outros, alguns estarão mais propensos a se envolver em comportamentos extremos e de alto investimento a serviço de valores idealistas. Entre esses valores estão a preservação, a promoção e a defesa do próprio grupo e os ideais de justiça e verdade”, explica. “A conduta extremista oferece a certos indivíduos uma restauração da autossignificação ameaçada”, declara.

Muitos ex-integrantes de grupos extremistas contam que, ainda crianças, foram alvos de condições adversas: “abuso físico na infância, abuso sexual, negligência emocional e física, encarceramento parental, abandono parental, testemunhos de violência grave e ruptura familiar”.

“Vários estudos psicológicos têm provado que eventos deste tipo podem contribuir para uma maior probabilidade de radicalização neonazista e extremista”, destaca a ONU.

No caso de um ex-membro neonazista, ele explicou sua “descida ao movimento neonazista americano” fez parte de uma busca por identidade e proteção diante de uma infância de abandono.

Avanço

Na avaliação da ONU, governos têm fracassado em lidar com o avanço desse fenômeno. “A ideologia neonazista está se tornando mais difundida na Europa e na América do Norte.”

De acordo com o relatório, houve um aumento de 30% no número de grupos que pregam o ódio nos EUA desde 2014. Hoje, eles seriam mais de mil grupos. “Houve também um aumento de 182% na propaganda supremacista branca nos EUA nos últimos cinco anos”, disse Achiume, observando que o típico neonazista ou seguidor de grupos de ódio é geralmente jovem, branco e homem.

De acordo com a investigação, as atividades neonazistas ocorrem por conta da persistência de ideologias supremacias dentro de administrações públicas, inclusive nos altos escalões de países europeus e nos EUA.

“A prevenção do extremismo neonazista continua a ser complexa e desafiadora porque, ao contrário de outras formas de extremismo, as ideologias neonazistas e outras ideologias supremacistas brancas são política e publicamente toleradas em muitas regiões”, alertou.

A relatora indicou ainda que recebeu relatos alarmantes de crimes xenófobos e antissemitas perpetrados na Europa por grupos. Ela também ouviu relatos de incidentes que glorificaram regimes nazistas e fascistas em Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Lituânia, Suíça e Ucrânia, incluindo manifestações, bem como a construção de monumentos e a renomeação de ruas que glorificaram antigos líderes nazis ou fascistas.

O informe também revela como, na Europa, ataques e manifestações violentas de caráter neonazistas e extremistas têm aumentado desde 2011. Em 2017, o número de pessoas presas por crimes de extrema-direita foi quase o dobro do de 2016.

“Na Europa, as mensagens neonazistas e ideológicas conexas fazem muitas vezes parte do discurso dominante, e isto está relacionado com a ascendência política nacional e local de partidos que abraçam visões de extrema-direita, o que pode incluir ideologia racista enraizada em teorias de supremacia branca e etnonacionalismo”, alerta a relatora.

“O endosso político de visões de extrema-direita ajuda no endosso mais amplo de tais visões, mesmo quando o discurso extremista islâmico permanece amplamente rejeitado na região”, explica.

O relatora observa que a informação e os dados disponíveis sobre a implicação dos jovens no extremismo violento se concentram principalmente no extremismo islâmico. “Muito pouca informação está disponível sobre os programas contraextremistas centrados no extremismo de extrema-direita ou neonazista”, lamenta.

Nos Estados Unidos, os extremistas de direita perpetraram 71% das mortes relacionadas ao extremismo entre 2008 e 2017.

“Apesar do aumento do extremismo neonazista e do extremismo supremacista branco, apenas alguns países europeus e da América do Norte abordaram a radicalização e o recrutamento por grupos de ódio nas estratégias nacionais de combate ao terrorismo, que estão largamente centradas no extremismo islamista”, completa.

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Uma sociedade que queima livros terá sua liberdade sufocada pela fumaça http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/uma-sociedade-que-queima-livros-tera-sua-liberdade-sufocada-pela-fumaca/ http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/uma-sociedade-que-queima-livros-tera-sua-liberdade-sufocada-pela-fumaca/#respond Wed, 17 Jul 2019 09:27:14 +0000 http://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/?p=1716

 

GENEBRA – John Milton, em seu livro Areopagitica, de 1644, foi duro: “Aquele que mata um homem, mata uma criatura, a imagem de Deus. Mas aquele que destrói um bom livro, mata a razão”.

Silenciar escritores e queimar livros não são práticas novas. Assim fez o imperador chinês Qin Shi Huang, dois séculos antes de Cristo. Joseph Goebbels, em 1933, condenou às chamas autores como Heinrich Mann e Erich Kästner. “Não à decadência e corrupção moral”, bradou, antes de uma cerimônia de queima de obras.

Na Índia, em 2010, ou na Hungria em 2013, grupos de extrema-direita e partidos populistas também promoveram queimas de livros. Cada um por seus motivos. Cada qual escolhendo seus inimigos.

O fogo que arde pode, para alguns poucos, parecer lógico na defesa de seus supostos valores. Mas um sociedade que queima livros, terá sua liberdade sufocada pela própria fumaça daquelas fogueiras.

Hoje, os alvos foram Sergio Abranches e Miriam Leitão, que tiveram suas participações canceladas na Feira do Livro de Jaraguá do Sul. O veto era pelo “viés ideológico” dos convidados, conforme a petição dos próprios moradores do local.

O prefeito da cidade tentou explicar a reação. “Em Jaraguá do Sul, não cai bem a esquerda ou a extrema esquerda perante a nossa população, que é um povo tão trabalhador”, disse, lembrando que “é a favor da democracia”.

Alguns dias antes, Glenn Greenwald foi alvo de um protesto em Paraty em outra feira literária, eventos que parecem estar ganhando o inusitado papel de trincheiras.

Rapidamente, nos tribunais das redes sociais, não foram poucos os aplausos à iniciativa de vetar e ameaçar escritores e jornalistas em eventos destinados a empurrar as fronteiras da liberdade de pensamento.

Bradbury tinha razão ao colocar num de seus personagens frases esclarecedoras. “Um livro é uma arma carregada na casa vizinha”, escreveu. “Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?”.

Na sociedade que ele descrevia, a crítica e a liberdade de pensamento tinham se transformado em crimes. Sorte nossa que não era no Brasil de 2019…

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