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Jamil Chade

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Após farpas, Brasil e França negociam acordo sigiloso por votos na ONU

Jamil Chade

16/10/2019 04h00

Os presidentes Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro em encontro do G20 em junho (Jacques Witt/AFP)

 

Em eleição marcada para quinta-feira, em Nova York, Paris e Brasília negociam um entendimento confidencial para um apoio mútuo nas votações para órgãos internacionais. 

 

GENEBRA – Se em público o governo de Jair Bolsonaro e de Emmanuel Macron trocam farpas desde o início do ano, a realidade diplomática dos dois países os levou a promover uma negociação para trocar apoios em eleições na ONU.

Paris sugeriu dar seu voto ao Brasil para eleição nas Nações Unidas e, em troca, o Planalto daria seu apoio a uma candidatura francesa, também para um organismo internacional.

Nesta quinta-feira, em Nova York, a Assembleia Geral das Nações Unidas elege os novos membros do Conselho de Direitos Humanos. Para a América Latina, existem duas vagas e concorrem a elas três candidatos.

O Brasil é um deles e, nos últimos meses, fez uma intensa campanha nos bastidores por apoio. Sofrendo de uma forte desconfiança internacional, o governo de Jair Bolsonaro precisa de 97 dos 194 votos para ser eleito. Além disso, precisa garantir que tenha mais votos que a Costa Rica e a Venezuela, ambas em busca também de uma vaga.

Dentro do governo, a eleição é considerada como um teste da popularidade de Bolsonaro. Membros do Itamaraty, porém, garantem que já tem os votos necessários, com cartas de confirmação de mais de noventa países. Mas o Brasil ainda estaria longe de obter os 184 votos que chegou a ter nos últimos anos.

Leia mais:

Nessa busca por apoios, nem mesmo as farpas trocadas entre Macron e Bolsonaro – em relação à Amazônia e suas esposas – foram um problema para certas alas no Itamaraty.

O blog apurou que diplomatas de Paris entraram em contato com a chancelaria propondo uma barganha: a França daria o seu voto ao Brasil e, em troca, o Itamaraty daria o seu voto para que o país europeu fosse eleito para o Comitê contra a Tortura, também na ONU.

 

Ataques, ofensas e provocações

A votação, nesta semana, é secreta e a praxe diplomática é de que países não revelem seus votos. Mas o blog apurou que a iniciativa dos franceses surpreendeu até mesmo diplomatas brasileiros e que o Brasil estava disposto a fazer sua parte. Para outros, tal atitude prova que na diplomacia não existem amigos ou inimigos. Apenas interesses.

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores da França não se pronunciou sobre a troca de votos. O Itamaraty tampouco deu respostas ao ser questionado sobre a proposta dos franceses.

Ao longo dos últimos meses, a relação entre os dois países atingiu um dos pontos mais baixos em anos. Bolsonaro esnobou a visita do chanceler de Macron e, no momento que iria o receber, foi cortar o cabelo e fazer uma live no Facebook.

Semanas depois, foi Macron quem irritou o governo brasileiro ao colocar os incêndios na Amazônia na agenda do G7, além de dizer que Bolsonaro havia mentido sobre seus compromissos ambientais.

Bolsonaro respondeu ofendendo a primeira-dama francesa, o que levou Paris a dizer claramente que torcia para que o Brasil logo tivesse um novo presidente.

França, socialismo, Amazônia: as polêmicas de Bolsonaro na ONU

UOL Notícias

Direitos humanos em 2º plano

Nos últimos dias, entidades de direitos humanos têm se unido para fazer uma campanha contra a eleição do Brasil na ONU. O argumento de mais de 150 organizações é de que, sob Bolsonaro, o Brasil não teria legitimidade para falar de temas de direitos humanos.

Mas a proposta de troca de votos com a França e as práticas do governo nos bastidores revelam que a eleição não leva em consideração assuntos de direitos humanos, mas sim política e acordos.

A prática não é nova e todos os governos brasileiros, no passado, também recorreram a acordos para conseguir os votos suficientes.

Na avaliação de especialistas, está no momento de a ONU estabelecer critérios técnicos para uma candidatura ao Conselho de Direitos Humanos. Os mais céticos a essa ideia alertam que, se aplicado um critério de direitos humanos, poucos seriam os países com a legitimidade de fazer parte do órgão máximo da ONU nesse setor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)