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Jamil Chade

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Comitê internacional recomendará ação no caso de ameaças contra Wyllys

Jamil Chade

16/10/2019 15h12

 

Depois de ouvir deputados brasileiros e a versão de Jean Wyllys, organismo optou por tomar medidas. Mas decisão ainda precisa ser aprovada pela cúpula da União Parlamentar Internacional, que se reúne nesta quinta-feira.

 
GENEBRA – O Comitê de Direitos Humanos da União Parlamentar Internacional (UPI) recomendará que medidas sejam tomadas no caso do ex-deputado Jean Wyllys. Agora, a posição do Comitê – formado por dez parlamentares de todo o mundo – será avaliada pelo órgão máximo da entidade internacional e, nesta quinta-feira, uma decisão final será anunciada.

A UPI, num primeiro momento, avalia queixas de violações de direitos humanos contra parlamentares de todo o mundo e seleciona os casos mais importantes para que sejam tratados pelo seu órgão máximo, o Conselho da UPI. Oficialmente, os casos são tratados em total sigilo e apenas são anunciados se houver uma decisão final.

No momento do exame dos casos, o Comitê de Direitos Humanos de Parlamentares da UPI pediu que a delegação brasileira que estava na reunião, em Belgrado, desse seu parecer. Mas o grupo liderado pelos deputados Átila Lins (PP), Mariana Carvalho (PSDB), Gilberto Nascimento (PSC), Cleber Verde (PRB), Joaquim Passarinho (PSD), Evandro Roman (PSD) e Jefferson Campos (PSB) indicou "desconhecer" a existência de ameaças contra Jean Wyllys.

A atitude dos deputados foi duramente criticada pelo PSOL, que enviou novas documentações para a Sérvia. Antes, os integrantes da UPI assistiram a um vídeo em que o ex- deputado do PSOL "apresentava sua situação de exilado e as razões que o levaram a ela".

A documentação também inclui a decisão da Organização dos Estados Americanos (OEA) de ter emitido medida cautelar contra o governo do Brasil exigindo providências para manutenção de sua integridade física de Wyllys.

A UPI recebeu cópias de duas notícias-crime protocoladas na Polícia Federal, de um pedido de segurança especial para o então deputado, além de um dos milhares de e-mail com ameaças recebidos por Wyllys.

Diante das informações, o grupo internacional optou por aceitar o caso e avaliar sua situação, num gesto interpretado dentro da UPI como uma recusa em aceitar a posição da delegação oficial do Brasil.

Fontes na Sérvia confirmaram que uma recomendação concreta foi feita, num sinal claro de que acataram a denúncia apresentada pelo ex-deputado. A decisão, porém, só passa a valer se o Conselho do organismo internacional der seu sinal verde final.

Ainda assim, a avaliação inicial é de que as ameaças contra o ex-deputado eram "muito sérias" e que são "ameaças diretas contra a vida e integridade" de Wyllys.

Ao blog, Wyllys indicou que a delegação brasileira "se esqueceu de que vivemos em um mundo globalizado pelas novas tecnologias, e que, graças a isso, também mentirosos e cínico como eles podem ser desmascarados".

Eleito deputado federal em 2010, 2014 e 2018, Wyllys abandonou o Congresso e foi morar no exterior, denunciando "graves ameaças de morte" sofridas.

No vídeo que foi exibido na Sérvia, Wyllys também explica que as medidas de proteção solicitada por ele e pela OEA foram ignoradas pelas autoridades brasileiras. "Acho importante que vocês, parlamentares, se deem conta do que está ocorrendo no Brasil", disse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)