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Batendo sobre a mesa, Itamaraty impede que deputada termine discurso na ONU

Jamil Chade

17/10/2019 11h57

GENEBRA – A delegação do Brasil na ONU impediu que a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) terminasse seu discurso em uma reunião nas Nações Unidas, dedicada ao papel do setor privado e de empresas na defesa de direitos humanos. Usando a placa com o nome do Brasil que marca o assento do país na sala da ONU, diplomatas martelaram sobre a mesa para chamar a atenção da presidência da reunião e pedir que a deputada fosse interrompida.

O gesto dos diplomatas ocorreu quando ela criticou diretamente o presidente Jair Bolsonaro por ele elogiar a tortura e defender ditadores.

Nesta quinta-feira, ela usou o tempo destinado a parlamentares para alertar sobre a situação da Vale e barragens em Brumadinho e Mariana, assunto que fazia parte do debate. Mas também alertou que o governo de Jair Bolsonaro não tinha condições de ser candidato à eleição para mais um mandato no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O Brasil concorre entre Venezuela e Costa Rica por duas vagas no organismo internacional que já foi alvo de duros ataques por parte de Jair Bolsonaro.

Ao discursar, ela dedicou uma segunda parte de sua fala para listar as violações cometidas pelo país. "Gostaria também de lembrar que não houve consulta às comunidades quilombolas, impactadas pelo uso da base militar de Alcântara, que viola a Convenção 169", disse. "Há até uma denúncia feita pelos quilombolas aqui na ONU. Se falamos de povos indígenas, vários povos indígenas têm suas terras e sua própria existência ameaçadas pela ameaça da mineração por parte das transnacionais, com o conluio do governo brasileiro", alertou.

 

Em Genebra, a deputada Fernanda Melchionna se reuniu com representantes da ONU. Foto: divulgação

 

"Na verdade, sr. Presidente, o Brasil é um país muito perigoso para aqueles que defendem os direitos humanos. Somos o quarto país do mundo que mais mata defensores e o que mais mata a população LGBT. Esse perigo aumentou exponencialmente desde as eleições do ano passado", disse.

"O governo brasileiro criminaliza defensores de direitos humanos. Gostaria de recordar que a vereadora Marielle Franco era tanto LGBTB como Defensora dos Direitos Humanos. Marielle foi brutalmente assassinada em Março de 2018 e até hoje não se sabe quem ordenou a sua morte. Não há resposta do governo", denunciou.

"Diante de tudo isso, Senhor Presidente e representantes dos Estados, o governo do Brasil ainda quer ocupar um assento no Conselho de Direitos Humanos. Pergunto-me: com que moralidade? Embora o povo brasileiro o mereça, este governo não o merece. Temos um presidente que defende a tortura da ditadura e que omite casos de tortura em uma prisão do Estado do Pará e que ofende o alto comissário dos direitos humanos".

Neste momento, a delegação brasileira batia sobre a mesa, pedindo que o discurso fosse interrompido, o que foi atendido pelo presidente da reunião.

Ao explicar seu gesto, os representantes do Itamaraty indicaram que, numa reunião que trata do papel das empresas no setor de direitos humanos, o discurso estava "fora de contexto". O governo também solicitou que o tema central do debate fosse retomado e que o presidente da negociação trouxesse o debate à ordem.

"Esse é um processo intergovernamental e precisamos seguir", declarou o representante do governo.

Procurada pelo blog, a deputada afirmou que essa era "mais uma demonstração de um governo autoritário que não aceita ouvir críticas e que tenta calar todos aqueles que levantam as graves violações de direitos humanos que a população passa". "Só confirma o autoritarismo que tem sido a marca do governo Bolsonaro", completou.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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