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Sequestradas, bandeiras se transformaram em símbolos da extrema-direita

Jamil Chade

07/09/2019 04h00

 

A bandeira verde e amarela nos coloca uma pergunta incômoda e se transforma, hoje, num objeto que nos desafia: afinal, o que é ser brasileiro diante das ameaças à democracia?

 

GENEBRA – Há poucas semanas, numa quermesse em Genebra, meu filho caçula de cinco anos de idade pediu para ir a uma das barracas dedicadas a pintar o rosto das crianças. Entre as opções estavam pinturas de piratas, borboletas e animais. Deixei o garoto por lá para fazer sua escolha, enquanto fui acudir o irmão mais velho, em outro lado da festa.

Ao retornar algum tempo depois, levei um susto. Ele havia pedido que a pessoa encarregada pintasse seu rosto com as cores de um de seus três países: o do Brasil. Orgulhoso, veio me mostrar que havia escolhido o "país do papai", ainda que eu suspeito que a opção tivesse uma relação muito mais esportiva que paterna.

Mas, por alguns segundos, senti um profundo mal-estar. Não conseguia desfazer de minha visão a imagem de movimentos de ultra-direita que, no Brasil, tinham sequestrado aquelas cores para legitimar o ódio ao próximo. Tive de me conter para não transparecer minha frustração e, claro, abraça-lo pela escolha.

A realidade é que a intolerância de um grupo sequestrou um símbolo nacional. Uma ideologia que se apropriou de uma bandeira como se fosse apenas sua e, se escondendo nas trincheiras do nacionalismo vazio, passou a usa-la para reivindicar valores pouco republicanos.

A realidade é que, longe de ser apenas um fenômeno brasileiro, o sequestro dos símbolos nacionais pela extrema-direita é um mecanismo amplamente usado em diversos países e faz parte de uma estratégia muito bem elaborada: a de confundir o estado e a nação com o partido. A de colocar diante da sociedade uma falsa escolha: ou você é brasileiro e está do meu lado ou você não é um patriota digno de ser chamado de brasileiro.

Na Suíça, são os membros da direita populista que abusam da imagem da bandeira do país para se apresentar como os verdadeiros defensores da confederação alpina. Num recente cartaz espalhado pelo país, um dos partidos apresenta a Suíça como uma maçã vermelha, corroída por "vermes" estrangeiros, socialistas e da UE.

Na Fifa, uma lista de símbolos nacionais deturpados com elementos fascistas foram distribuídos pelos estádios para ajudar os controladores em cada uma das portas a identificar a entrada de grupos extremistas nos estádios.

Na Hungria, Viktor Orban faz questão de que os atos públicos em seu apoio sejam transformados em um mar de vermelho, verde e branco, as cores nacionais.

Na Espanha, os ultra-nacionalistas do Vox passaram a reivindicar as cores nacionais como suas. O mesmo ocorreu na Alemanha, Finlândia, Itália e tantos outros países com partidos que assumiram as bandeiras nacionais como parte de suas campanhas.

Na Inglaterra, a cruz de São Jorge se misturou aos grupos que lideraram a campanha pelo Brexit, gerando um profundo constrangimento entre o restante da população que sempre considerou aquele símbolo como seu também. Na França, foi Joana D'Arc quem passou a ser usada como garota propaganda da extrema-direita.

Em atentados nos EUA, Nova Zelândia e Europa por terroristas de extrema-direita contra minorias, o mesmo padrão se repete. Investigadores passaram a descobrir, de forma repetida, o uso de símbolos nacionais e datas históricas inscritas nas armas do crime e a reivindicação de um passado "puro" que jamais ocorreu.

Em diversos países, a constatação é de que, ao mesmo tempo que são usadas politicamente por grupos radicais, essas bandeiras desaparecem do restante da população, constrangidas em empunhar símbolos associados com o extremismo.

 

7 de Setembro

Bolsonaro, ao pedir neste 7 de setembro que os brasileiros vistam as cores nacionais, aprofunda justamente a estratégia de sequestrar os símbolos, inclusive para garantir sua sobrevivência política. Ao fazer o apelo, toma para si um símbolo que não lhe pertence de forma exclusiva. Uma bandeira que, de motivo de esperança e diversidade, passou a ser empunhada por arautos do ódio. Como se os demais que não o apoiam não fossem "brasileiros o suficiente".

A data de 7 de setembro de 2019 e sua bandeira confrontam a sociedade com uma série de perguntas: o que está naquelas cores que conta nossa história? E o que não está narrado ali que, para que possamos superar séculos de injustiça, precisaria ser ressaltado?

Justamente por vir carregada de mitos, essa bandeira traz consigo a função de ser um local de debate. Neste sábado, ela uma vez mais cumprirá essa função quando uma parcela da população a rejeitará, em protesto a Bolsonaro.

Aqueles que sairão às ruas de negro vivem a contradição de mostrar seu compromisso com o país justamente ao não sair vestido com a bandeira nacional, confiscada.

No fundo, a bandeira nos coloca uma pergunta incômoda e se transforma, hoje, num objeto que nos desafia: afinal, o que é ser brasileiro diante das ameaças que persistem em afetar a democracia?

O debate sobre o monopólio da bandeira também conduz a outro: o da soberania. Uma palavra que, por falta de planos, voltou ao repertório de forma abusiva como um escudo conveniente a políticos incapazes de falar em soluções.

A história já mostrou que um país é soberano quando lidera. Não quando se fecha. Isso não se chama soberania. Chama-se isolamento.

E quando a bandeira ganha contornos de escudo numa cruzada ideológica, aquela aquarela de cores vivas se transforma em sinônimo de racismo, exclusão e intolerância.

Entre as inúmeras tarefas que teremos pela frente, uma delas será a de recuperar esses símbolos nacionais, voltando a dar-lhes seu sentido de diversidade e respeito.

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Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)


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