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Embaixadora do Brasil na ONU promove bate-boca com Jean Wyllys

UOL Noticias

15/03/2019 10h57

Ex-deputado havia denunciado ligação do governo com crime organizado e citou morte de Marielle Franco. Diplomata, que não ouviu o discurso do ex-deputado, o atacou e qualificou de "vergonha". A embaixadora deixou a sala sem ouvir sua resposta. 

 

GENEBRA – A ONU foi hoje palco de um bate boca promovido pela embaixadora do Brasil, Maria Nazareth Farani Azevedo, que ainda se recusou a ficar para ouvir uma resposta do ex-deputado Jean Wyllys (veja vídeo abaixo).

O ativista que abandonou o Brasil foi convidado a falar em um debate sobre o populismo no mundo. Em sua fala, porém, ele alertou para a suposta relação entre o crime organizado e o governo brasileiro, fazendo referências até mesmo ao assassinato de Marielle Franco.

"Os novos autoritarismos são os velhos autoritarismos agora articulados com as características próprias da contemporaneidade", disse Wyllys, em seu discurso. "Novos autoritarismos, como o do Brasil, continuam elegendo inimigos internos da nação por meio da difamação e constituindo grupos para culpá-los pelos problemas econômicos", afirmou.

Embaixadora brasileira e Jean Wyllys batem boca na ONU

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"A diferença é que agora estão articulados com as novas tecnologias da informação. Articulam com organizações criminosas que se infiltram no estado, e tem um fundo religioso e moralista muito mais acentuado", alertou o ex-deputado.

"Sou a prova da eficiência desses novos métodos utilizados pelos novos autoritarismos", insistiu. "Não pude assumir meu terceiro mandato do qual fui democraticamente eleito por conta de ameaças de morte que vinha recebendo desde 2011 e, em especial, durante a campanha [de 2018]", explicou.

Ao explicar a vitória de Bolsonaro, ele apontou como a campanha havia sido baseada na disseminação de fake news e no discurso de ódio.

Maria Nazareth Farani Azevedo, a embaixadora do Brasil na ONU, não estava na sala no momento do discurso e, em toda a semana, não apareceu em nenhum dos eventos organizados por ONGs para tratar da situação no Brasil. Mas, nesta sexta-feira, ela entrou no local, depois de o evento já ter sido iniciado.

Ela chegou a pedir para intervir no meio das falas dos demais membros do painel organizado para debater o populismo no mundo. Mas a moderadora, num primeiro momento, a ignorou. Com o tempo do debate se esgotando, ela mandou recado de que queria falar, o que levou a moderadora do debate a abrir espaço para a embaixadora. Ao tomar a palavra, a diplomata passou ao ataque contra Jean Wyllys.

Ataque – "Bolsonaro não abandonou o Brasil, mesmo depois de ter levado uma tentativa real de tirar sua vida", disse. Segundo ela, Bolsonaro estaria "trabalhando duro". "Mas essa é a era de fake news e cabe a nós, pessoas sérias, esclarecer", afirmou.

"Não é um criminoso e seu governo não é uma organização criminosa", insistiu a embaixadora, que ainda esclareceu que Bolsonaro "não é racista, fascista ou autoritário".

"Ele não cuspiu na cara da democracia", disse a embaixadora, numa referência aos incidentes no dia do impeachment de Dilma Rousseff e sem mencionar que Bolsonaro teria elogiado um torturador. "Ele escolheu os votos, a eleição e o diálogo", declarou.

Ao dizer como o governo prometia defender os direitos humanos, a sala composta por ONGs e ativistas não segurou o riso. Segundo ela, outra fake news é dizer que homossexuais estão sendo perseguidos e afirmou que existe uma preocupação do governo com essas pessoas. "Eles não estão sendo discriminados", garantiu.

"É uma democracia forte", disse a embaixadora, que já foi a representante do governo Lula e Dilma na ONU. "Pessoas que abandonaram seus eleitores para percorrer o mundo para disseminar fake news não têm credencial para falar sobre democracia". Para ela, é uma "vergonha" que o palco da ONU tenha sido usado.

Para ela, aquele debate "não era democracia", mas sim uma forma de "zombar" da escolha democrática de milhões de pessoas.

Ao terminar de falar, se levantou para sair da sala. Mas um dos membros estrangeiros do debate, Jamil Dakwa, alertou: "A senhora não quer ouvir a resposta dele?".

A embaixadora rebateu: "Fico. Com a condição de que eu possa responder de novo".

"Não é assim", contra-atacou o participante.

"Não? Então vou [sair]", completou a embaixadora.

Neste momento, Jean Wyllys tomou o microfone.

"Se a senhora quisesse um debate, ouviria minha resposta. Minha presença amedronta a senhora e seu governo, que não tem compromisso com a democracia", atacou, lembrando justamente do noticiário que aponta para, segundo ele, "ligações" entre a família Bolsonaro, organizações criminosas e mesmo o assassinato de Marielle Franco (PSOL).

A embaixadora tentou interromper Wyllys de novo:

"A sua presença aqui envergonha o Brasil", disse.

Mas ela foi cortada por Wyllys:

"Agora é a minha vez de falar. Respeite. Mais respeito à democracia", disse o ex-deputado.

Ela então, antes de deixar a sala, respondeu. "Não amedronta. Envergonha", disse. Enquanto Jean Wyllys pedia que ela "respeitasse a democracia", a embaixadora tomou o caminho da porta.

Bolsonaro tem alertado que vai trocar embaixadores que não derem demonstrações de que estão defendendo não apenas o Brasil, mas também a ele mesmo. Num encontro nesta semana, ele indicou que sua imagem no mundo como presidente não estava sendo veiculada de forma correta. Ele sinalizou que caberia aos embaixadores mudar essa imagem.

"Acho que ela (Maria Nazareth) ouviu o recado e tem medo de ser removida, de perder os privilégios e de ostentar a única coisa que ela tinha, que era o colar de pérolas que ela trazia", disse Wyllys, depois de terminado o evento. "Talvez por isso ela tenha pagado esse mico. Lamentável para ela", completou.

O blog solicitou uma entrevista com a embaixadora, que até agora não foi atendida.

"Ela não ouviu minha fala e veio com um discurso pronto. Isso mostra que o governo Bolsonaro teme a posição que eu ocupo hoje. Eu chamo a atenção do mundo para um governo de mentiras", disse. "Ela desrespeitou a liturgia do cargo. Sem ouvir o meu discurso, ela tentou sair da sala depois sem ouvir minha resposta", afirmou.

"Quem desrespeita a democracia é ela, que sequer queria ouvir minha resposta", disse Wyllys. Para ele, a embaixadora é "mentirosa" e "descontextualizou os atos políticos".

Acostumados a eventos sem qualquer tipo de quebra de decoro, participantes não disfarçaram o choque que tiveram diante das cenas.

"Desqualificar um defensor de direitos humanos em pronunciamentos oficiais é uma atitude de governo que não tolera críticas e se afastam do espírito democrático. A postura da representante da Missão Diplomática do Brasil foi além disso. O tom intimidador e a reação desrespeitosa de sair da sala demonstram um nível de intolerância incompatível com um foro dedicado à defesa de minorias e direitos fundamentais e causa danos à imagem internacional do país", disse Camila Asano, representante da Conectas Direitos Humanos que estava presente no evento

Assim que o evento terminou, uma coluna no Brasil de uma pessoa próxima à família de Maria Nazareth chegou a publicar que a embaixadora estava do lado de fora da sala, ouvindo o discurso de Wyllys. A versão não condiz com a realidade, já que eu mesmo estava do lado de fora instantes depois de o ex-deputado falar. Naquele momento, não havia ninguém. Alguns minutos depois, a embaixadora e seus assistentes caminharam pelos corredores, na direção da sala onde ocorria o evento.

 

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Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)


Jamil Chade


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