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Jamil Chade

Jamil Chade

Prêmio é um apelo à reconciliação e recado contra populistas

Jamil Chade

11/10/2019 06h48

Num mundo marcado pelo ódio, Abiy promoveu uma pequena revolução ao pedir perdão pela brutalidade do estado, fazer um acordo de paz com os vizinhos, soltar presos políticos, defender liberdade de expressão e permitir a volta de dissidentes. Talvez seja cedo demais para um prêmio dessa dimensão e a própria esperança que ele representa pode se desfazer. Mas Oslo queria mandar uma mensagem: o caminho é esse. 

 

GENEBRA – O prêmio Nobel da Paz de 2019 concedido ao etíope Abiy Ahmed Ali tem um recado claro: apenas o diálogo, democracia, reconciliação e cooperação internacional podem trazer a paz e a segurança. O prêmio, não por acaso, é também uma dura mensagem contra tudo o que governos populistas representam.

Se o vencedor foi um primeiro-ministro africano, o simbolismo vai muito além do continente. Com o prêmio, Oslo avisa: a paz não se faz como ameaças e nem com a falsa sensação de proteção dada pelas armas.

Abiy tomou medidas consideradas como corajosas ao estabelecer o fim de um conflito fronteiriço de décadas com a vizinha Eritreia, e que havia levado milhões de pessoas a deixar seus países. Sua estratégia colocou em xeque a forma pela qual governos vinham respondendo a crises semelhantes e conflitos armados.

Antes mesmo de estabelecer um acordo de paz, ele sinalizou sua intenção de levar seu país em um rumo democrático. Um dos locais mais autoritários da África passou a ser liderado por um homem que defendia a liberdade de expressão. Dissidentes puderam voltar, presos políticos foram soltos e ele pediu perdão pela brutalidade do estado.

"Ele passou os seus primeiros 100 dias como Primeiro-Ministro levantando o estado de emergência do país, concedendo anistia a milhares de presos políticos, colocando fim à censura dos meios de comunicação social, legalizando grupos de oposição ilegais, despedindo líderes militares e civis suspeitos de corrupção e a aumentar significativamente a influência das mulheres na vida política e comunitária da Etiópia", explicou os organizadores do prêmio.

"Também se comprometeu a reforçar a democracia através da realização de eleições livres e justas", indicou.

A tarefa não será fácil e mesmo o Nobel reconhece que o prêmio pode ser alvo de críticas por ter sido dado "cedo demais". As reformas no país não garantiram ainda um clima de estabilidade social, inclusive com uma onda de ataques entre grupos rivais. Mas Oslo insiste que o caminho escolhido é o correto e precisa ser defendido, ainda que seja o mais longo e difícil.

Fora de seu próprio país, Abiy se envolveu em outros processos de paz e reconciliação na África, entre eles a normalização das relações diplomáticas entre a Eritreia e o Djibuti, e entre o Quênia e a Somália. No Sudão, ele também vem tendo um papel de mediador entre o regime militar e a oposição.

Nas palavras do Nobel: "Abiy Ahmed procurou promover a reconciliação, a solidariedade e a justiça social".

Para chegar a isso, Abiy não prometeu vingança. Mas esperança. Ele não usou os enterros como palanque, ele não fez um sinal de vitória. Ele não usou bandeiras nacionais, não deu qualquer demonstração de que considera sua cultura como superior e evitou, como pode, a palavra "patriotismo". Não sugeriu que armas fossem distribuídas à população para que a guerra fosse superada.

Num mundo em que fronteiras são fechadas com base em religião, em que o ódio tem em líderes políticos seu principais promotores, seus gestos destoam. Mesmo sem garantias de que ele tenha sucesso e com protestos marcando a situação atual, o que o Nobel fez foi chancelar esse caminho como o único que pode dar uma resposta sustentável.

A trilha para a paz é ainda longa na Etiópia e nada está assegurado. Inclusive a esperança que ele hoje representa pode rapidamente se desfazer. Mas os organizadores do prêmio tem plena consciência de seu papel político e usam a escolha justamente neste sentido. Quando a zona do euro estava ameaçada, Oslo premiou a UE. Quando o multilateralismo foi atacado, o Nobel saiu para a ONU.

Agora, o recado é de que a paz apenas é atingida quando houver um esforço pela reconciliação. Abiy, assim, é elevado a uma espécie de resistente contra a estratégia política de governos populistas que sugerem armas, muros e ameaças.

Nesta sexta-feira, dia 11 de outubro de 2019, a reconciliação e justiça social como estratégia política se consolidam como sendo parte central da agenda internacional. O etíope tomou o caminho menos percorrido e, emprestando a frase do poeta, isso fez toda a diferença.

E Oslo mandou um recado aos populistas e seus inimigos imaginários de que a estabilidade não vem graças à segurança e armas. Mas por meio do diálogo e garantia de direitos a todos, inclusive aos inimigos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)