Topo
Jamil Chade

Jamil Chade

Famílias mais pobres precisam 9 gerações para atingir renda média no Brasil

Jamil Chade

08/10/2019 19h01

 

 

Economia nacional subiu uma posição no ranking do Fórum Económico Mundial. Mas país tem ainda pior burocracia do mundo, falta de visão de longo prazo do governo e uma das cinco piores cargas tributárias.

 
GENEBRA – Uma família da camada mais pobre no Brasil precisaria de nove gerações para conseguir atingir uma renda média, capaz de coloca-la em uma situação adequada. O alerta faz parte de um relatório o Fórum Econômico Mundial e que destaca que, neste ano, o Brasil subiu uma posição no ranking de competitividade.

O levantamento revela que, entre 2018 e 2019, a economia nacional passou da 72a posição para a 71a, um leve aumento obtido, entre outros fatores, graças a uma "simplificação significativa dos regulamentos para iniciar e encerrar uma empresa". Isso garantiu uma impulsão no dinamismo empresarial, colocando o Brasil na 67a colocação por esse critério.

A classificação mundial é liderada por Cingapura e EUA, seguindo por Hong Kong, Holanda, Suíça e Japão.

No caso do Brasil, também pesou de forma importante a inflação mais baixa e por uma maior eficiência do mercado de trabalho. Além dessas melhorias, o desempenho da competitividade do Brasil também se beneficiou de um nível relativamente alto de capacidade de inovação (40º) e do tamanho de seu mercado.

Entre 2017 e 2019, o Brasil passou da 79a posição para a 71a colocação. Mas, ainda assim, os autores do informe alertam que a economia nacional está bem aquém de suas potencialidades e que sua maior competitividade traria ganhos sociais. Na América Latina, o Brasil é hoje apenas a oitava economia mais competitiva. O país também é o membro do Brics em pior situação.

O que o Fórum aponta é que também existe uma correlação entre a falta de competitividade de uma economia e os problemas de desigualdade social e mobilidade. Se no Brasil serão necessárias nove gerações para que alguém que nasceu na camada dos 10% mais pobres da sociedade passe a ter uma renda média do país, a realidade nos países nórdicos é radicalmente diferente.

Na Dinamarca, a saída da condição de pobreza para uma de classe média exige apenas duas gerações, contra três para a Noruega ou Suécia.

No caso do Brasil, alguns sinais de melhoria foram identificados. "O crescimento econômico está crescendo lentamente (2%) após a recessão de 2015-2016", indica o informe. "Melhorar ainda mais a produtividade do Brasil é de suma importância para a agenda social do país também", destaca o Fórum que, a cada ano, organiza seu evento em Davos.

"Combater as elevadas taxas de desemprego (11,4%) e o ressurgimento das taxas de pobreza são prioridades e as melhorias no ranking deste ano – apesar de pequenas – são um primeiro passo para o estabelecimento das bases para uma maior prosperidade", indicam.

Um dos problemas identificados pelos autores se refere à falta de abertura comercial do país. Hoje, o Brasil é apenas o 125o colocado nesse critério, entre 141 economias avaliadas. O Brasil também está entre os últimos colocados em termos de tarifas aplicadas (128) e barreiras não-tarifária (135); segurança (132); e maior estabilidade governamental (130).

Além disso, os líderes empresariais brasileiros classificam a burocracia excessiva como um dos principais problemas. Por esse critério, o Brasil é o último colocado.

A falta de visão de longo prazo do governo ainda coloca o País na 129º colocação entre os 141 avaliados. A carga tributária ainda seria uma das cinco piores do mundo.

Estagnação

No ranking publicado nesta terça-feira, o Fórum alerta que, depois de uma década de estímulos e a injeção de US$ 10 trilhões na economia mundial, o cenário internacional aponta para uma nova estagnação de sua produtividade.

Na avaliação da entidade, o mundo evitou o colapso da economia internacional em 2008. Mas não aproveitou o momento para transformar o sistema e arrumar as falhas que existem.

Um dos resultados foi o aprofundamento das desigualdades sociais e o surgimento de líderes populistas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)