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Jamil Chade

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Leilão arrecada R$ 100 milhões com carros de ditadura que bancou carnaval

Jamil Chade

29/09/2019 11h50

Ferrari da família Obiang é vendida em leilão na Suíça. Foto: Jamil Chade

GENEBRA – A voz do leiloeiro em nada parecia a de um padre. Ainda assim, foi numa velha abadia com vistas sobre o Mont Blanc que ocorreu o leilão de 25 carros de luxo da coleção de Teodorin Obiang, filho do ditador da Guiné Equatorial, Teodor Obiang.

O ex-proprietário é o mesmo que bancou uma escola de samba no Brasil. Há um ano, o Brasil ainda apreendeu uma bagagem milionária de sua comitiva ao desembarcar em Viracopos. O grupo transportava R$ 55 mil, US$ 1,5 milhão, em espécie, e 20 relógios de luxo avaliados em US$ 15 milhões.

Num total, a venda neste domingo na Suíça rendeu US$ 26 milhões (R$ 108 milhões), um contraste radical com a realidade de um país onde dois terços da população vivem com menos de US$ 1 por dia. 90% da população não tem acesso à internet e a expectativa de vida é de apenas 53 anos, o equivalente à Europa dois séculos atrás.

Em 2016, a Justiça da Suíça confiscou a coleção, que incluía um Bugatti Veyron, quatro Ferraris, incluindo uma Enzo e outra modelo 599GTB, um Porsche 918 Spyder, uma Lamborghini Veneno, outro Maybach, um Koenigesegg, um Aston Martin e até uma McLaren P1.

Naquele ano, o filho do ditador e que era também o vice-presidente do país africano, tentou embarcar os carros de luxo da Suíça, depois que o Ministério Público de Genebra iniciara um processo contra ele por suspeita de corrupção. Temendo o confisco, seu objetivo era o de embarcar sua fortuna em um avião de carga alugado às pressas. Mas a polícia foi mais rápida.

Os advogados de Obiang entraram com um recurso argumentando que a coleção é de "propriedade do Estado", por isso não poderia ser confiscada e nem apontada como tendo sido alvo de um desvio de dinheiro. Os carros seriam usados, segundo eles, como "veículos oficiais" do governo e foram comprados "por ordem do Ministro do Interior".

Um ano depois, a Justiça rejeitou o argumento."Parece ser pouco provável que veículos esportivos possam ser usados como carros oficiais", apontaram os juízes suíços, destacando ainda que eles estavam registrados em nome do suspeito, não do Estado. "A aquisição dos veículos seria um ato de lavagem de dinheiro", apontou.

Nos documentos do processo, obtidos pelo UOL, Obiang não apenas insistia que os carros são do Estado como alegava que foram levados para Genebra para passar por "reparos".

As autoridades suíças consideraram que os carros confiscados teriam sido adquiridos com fundos desviados e serviriam a fins pessoais. Para completar, os juízes estimam que o salário oficial do vice-presidente seria "insuficiente" para adquirir tais carros de luxo.

 

Velha abadia é escolhida para ser o local do leilão de carros de luxo. Foto: Jamil Chade

Abadia

A opção dos suíços, diante do confisco, foi o de colocar os veículos à venda. A promessa é de que o dinheiro será usado para programas sociais organizados por ongs, justamente no país africano lesado.

Num local originalmente destinado a outras idolatrias, o que se viu neste domingo foi o desembarque de milionários de várias partes do mundo em busca de obter os carros dos ditadores africanos. Carros de luxo, roupas extravagantes e champanhe marcaram o evento longe da realidade da Guiné.

Uma Lamborghini acabou sendo vendida por US$ 7,2 milhões. O veículo era apenas um dos três daquele modelo no mundo. Mas o comprador, cuja identidade não foi revelada, terá de buscar uma forma de retirar as iniciais TO desenhadas no carro, numa referência à Teodor Obiang.

Um Koenigesegg ainda saiu por US$ 4 milhões, contra US$ 1,3 milhão por um Aston Martin."Esses não são carros. São obras de arte", dizia o leiloeiro, enquanto descrevia os aspectos tecnológicos dos carros.

 

Lamborghini de Us$ 7,2 milhões tem a marca de Teodor Obiang, Foto: Jamil Chade

 

Processos

Há cinco anos, Obiang já havia sido alvo de um confisco de outros 18 carros que mantinha na França, onde responde a um processo por "corrupção e desvio de dinheiro público" que, segundo procuradores, teria chegaria a 115 milhões de euros. Nos EUA, a Justiça também lacrou sua mansão em Malibu. Na garagem: mais 28 carros.

Com apenas 720 mil pessoas, o minúsculo país enriqueceu graças ao descobrimento de petróleo. Mas esse dinheiro jamais chegou à população. O governo destina 0,6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para a educação e 20% das crianças estão em um estado de desnutrição profundo.

Em 2015, a escola de samba Beija-Flor homenageou a Guiné Equatorial em seu samba-enredo. Meios de comunicação como a BBC, The Wall Street Journal e outros europeus indicaram como a escola de samba teria sido financiada pelo ditador Teodoro Obiang, algo negado pela direção da Beija-Flor e pelo embaixador da Guiné no Brasil.

Teodor Obiang, o pai do vice-presidente, chegou ao poder em 1979, em um sangrento golpe de Estado no qual tirou da presidência o próprio tio. Hoje, ele é o presidente africano com mais anos no poder, superando até mesmo Robert Mugabe, do Zimbábue, e sem previsão de deixar o cargo.

Na abadia sobre uma montanha na Suíça, os preços dos carros eram revelados em seis moedas diferentes em telões que competiam com os vitrais do local.

Eles, porém, só não revelavam o quanto de sangue aquela coleção custou a uma das populações mais pobres do mundo. A abadia tampouco serviu para destinar um minuto de silêncio em homenagem às vítimas. Resta rezar para que o destino do dinheiro arrecadado não movimento apenas o mercado de carros de luxo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)