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Jamil Chade

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Sem se intimidar, Bachelet denuncia desmatamento na Amazônia

Jamil Chade

09/09/2019 04h29

Bachelet conversa com estudantes em universidade em Genebra. Foto: Jamil Chade

 

Em discurso na ONU, chilena volta a denunciar a situação do desmatamento no Brasil. Pressão é interpretada entre diplomatas como sinal de que Bachelet não irá recuar diante de ataques de Bolsonaro. 

 

GENEBRA – A alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, volta a denunciar a situação no Brasil e diz que incêndios na Amazônia terão "impacto catastrófico para a Humanidade".

Nesta segunda-feira, diante do Conselho de Direitos Humanos da ONU, a chilena alertou para o impacto dos incêndios na Amazônia, a situação de indígenas e as ameaças contra ambientalistas, além de pressionar governos da região para que implementem políticas sustentáveis e cooperem com a comunidade internacional.

O Brasil foi um dos 40 países citados nominalmente pela representante da ONU em seu discurso inaugural da reunião da ONU como locais de preocupação por conta da situação de direitos humanos. O governo brasileiro terá direito de resposta, na terça-feira.

Bachelet, diante de uma sala completamente lotada, escolheu o meio ambiente como o principal tema de seu discurso, alertando para o desafio inédito para a humanidade. "Estamos queimando nosso futuro, literalmente", disse. A chilena ainda deixou claro o que representa hoje o impacto das mudanças climáticas. "O mundo nunca viu uma ameaça para os direitos humanos dessa dimensão", afirmou.

A alta comissária adotou um tom de alerta contra aqueles que usam a soberania como argumento para evitar a cooperação internacional, insistindo sobre a necessidade de que se apoie a ideia do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, de convocar uma cúpula no final do mês para tratar da crise ambiental.

"Essa não é a situação onde um país ou político pode ficar de fora. As economias de todas as nações, o tecido social, político e cultural de todos os estados serão afetados" disse Bachelet.

Ela mencionou especificamente a Amazônia como um exemplo de local ameaçado, reabrindo o debate sobre o papel de governos na região.

A nova pressão ocorre num momento em que o Brasil está em campanha para obter votos em sua corrida por mais um mandato no Conselho de Direitos Humanos. O alerta foi considerado ainda como uma espécie de "ensaio geral" do que Bolsonaro enfrentará quando desembarcar em Nova Iorque, para a Assembleia Geral da ONU, em duas semanas.

Os comentários ocorrem apenas cinco dias depois que ela, ao responder a uma pergunta do UOL, criticou a violência policial no Brasil e alertou para a redução do espaço democrático no País, além de denunciar a situação da Amazônia. Como resposta, o presidente Jair Bolsonaro fez uma apologia ao regime de Augusto Pinochet e citou o pai de Bachelet, morto pela ditadura chilena. A própria Bachelet foi presa e obrigada a deixar o país por anos.

Desta vez, o foco de seus ataques foram as violações cometidas contra indígenas e a situação da Amazônia. Ao incluir o Brasil em seu discurso, ela mandou um recado de que não hesitará em fazer suas denúncias e que os ataques de Bolsonaro contra sua família não a intimidarão.

"Estou profundamente preocupada com a drástica aceleração do desmatamento da Amazônia", disse Bachelet diante de uma sala lotada. "Os incêndios que atualmente assolam a floresta tropical podem ter um impacto catastrófico na humanidade como um todo, mas os seus piores efeitos são sofridos pelas mulheres, homens e crianças que vivem nessas áreas – entre eles, muitos povos indígenas", disse.

"O total de mortes e danos causados nas últimas semanas na Bolívia, Paraguai e Brasil pode nunca ser conhecido. Apelo às autoridades dos seus países para que assegurem a implementação de políticas ambientais de longa duração e de sistemas de incentivo à gestão sustentável, evitando assim tragédias futuras", disse.

Ela ainda apontou que seu escritório também "observou vários casos em que projetos de desenvolvimento, tais como grandes hidrelétricas e plantações de biocombustíveis, foram financiados por instituições financeiras internacionais em nome da ação climática – mas têm prejudicado os direitos dos povos indígenas e comunidades locais, incluindo as mulheres".

"Exorto todas as instituições de desenvolvimento e financiamento – incluindo os mecanismos estabelecidos ao abrigo do artigo 6º do Acordo de Paris – a estabelecerem salvaguardas em matéria de direitos humanos, com a participação e o acesso à informação, à justiça e às vias de recurso no seu cerne", disse.

 

Ambientalistas

Bachelet também se diz preocupada com os ambientalistas e indicou como mudanças climáticas minam "direitos, desenvolvimento e a paz". "Temos de proteger melhor aqueles que defendem o ambiente", disse, sem citar países. Ela, porém, alerta para a situação específica da América Latina.

"Os defensores do ambiente – incluindo aqueles que defendem o direito à terra dos povos indígenas – prestam um grande serviço aos seus países e, na verdade, à humanidade. O Escritório e Relatores especiais observaram ataques a defensores dos direitos humanos ambientais em praticamente todas as regiões, especialmente na América Latina", afirmou.

"Estou desanimada com esta violência e também com os ataques verbais a jovens ativistas como Greta Thunberg e outros, que galvanizam o apoio à prevenção dos danos que a sua geração pode suportar. As exigências feitas pelos defensores e activistas ambientais são convincentes, e nós devemos respeitar, proteger e cumprir os seus direitos", disse.

Bachelet também fez questão de declarar que as mudanças climáticas, questionadas pela cúpula do governo brasileiro e de outros países, já são realidades em muitos lugares.

"Mudanças climáticas é uma realidade que afeta todas as áreas do mundo", indicou. Segundo ela, 40% de guerras civis foram afetadas nos últimos 60 anos pode degradação ambiental.

A chilena ainda lançou um apelo para que todos os governos "contribuam para evitar mudanças climáticas e para promover a resistência e direitos de pessoas lidando com danos ambientais".

 

Ditadura

Bachelet ainda mandou um recado velado a governos que ainda fazem apologias de ditadores. "Nossos países tem demonstrado que, em muitas ocasiões, podem superar desafios enormes de direitos humanos", disse. "Alguns, como o meu, virou suas costas para a ditadura e estabeleceu democracias vibrantes", insistiu, numa referência ao Chile.

"Muitos permitiram que pessoas anteriormente discriminadas e oprimidas – incluindo mulheres – fizessem suas escolhas fundamentais, em liberdade". disse, apontando para o avanço na retirada de milhões de pessoas da pobreza.

"Hoje, temos de defender conquistas que foram duras de atingir", alertou, se dizendo convencida de que o mundo pode avançar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)