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Jamil Chade

Jamil Chade

Representante da ONU critica Bolsonaro e governo, constrangido, se cala

Jamil Chade

06/09/2019 13h53

Bachelet conversa com estudantes em universidade em Genebra. Foto: Jamil Chade

 

Em reunião em Nova Iorque, sub-secretário-geral das Nações Unidas, Andrew Gilmour, se disse "atordoado" com os comentários do brasileiro sobre a ditadura no Chile e a morte do pai da alta Comissária da ONU, Michelle Bachelet. 

 

GENEBRA – Representantes do governo se calaram diante das cobranças recebidas pelo governo por conta dos ataques feitos pelo presidente Jair Bolsonaro contra a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet. Um dos principais membros da cúpula das Nações Unidas afirmou que as declarações do brasileiro deixaram-no "atordoado".

O silêncio da delegação brasileira ocorreu durante uma sabatina realizada na ONU, nesta sexta-feira, para que cada um dos países que buscam uma vaga no Conselho de Direitos Humanos possam explicar sua agenda, valores e prioridades. O Brasil é um dos candidatos a um novo mandato no órgão internacional, numa eleição marcada para outubro.

O constrangimento escancarou a crise diplomática aberta por Bolsonaro, num momento em que o Brasil precisa provar ao mundo seu compromisso com os direitos humanos. Ignorando Mauro Vieira, o embaixador do Brasil na ONU, um ex-chanceler de Dilma Rousseff, o governo optou por enviar ao evento um representante do Ministério de Direitos Humanos e crítico da Lei Maria da Penha.

Nesta semana, a ex-presidente chilena respondeu a uma pergunta do UOL numa coletiva de imprensa em Genebra e indicou que estava preocupada com a violência policial, com a redução do espaço democrático e com a tentativa de negar os regimes ditatoriais do passado.

Bolsonaro retrucou fazendo uma apologia a Augusto Pinochet e citando como o regime ditatorial evitou o comunismo, colocando um fim à Esquerda. Ao atacar Bachelet, o presidente brasileiro causou um choque internacional ao citar o pai da alta comissária, Alberto Bachelet, assassinado pelo regime de Pinochet.

Nesta sexta-feira, porém, o constrangimento do Brasil era evidente. Durante a sabatina, a delegação brasileira foi alvo de uma pergunta realizada pela entidade Conectas.

A ong questionou o que o Brasil faria para garantir uma relação positiva do governo com o Escritório de Direitos Humanos da ONU diante dos recentes ataques de Bolsonaro contra a alta comissária.

Antes de passar a palavra para a delegação brasileira, o moderador do encontro e sub-secretário-geral da ONU para Direitos Humanos, Andrew Gilmour, também aproveitou o momento para criticar duramente a postura de Bolsonaro.

"Eu preciso dizer que eu também fiquei atordoado com os ataques por parte do presidente Bolsonaro contra a alta comissária e ao seu pai que foi torturado e morto", disse. Apesar de curta, a frase deixou claro o profundo impacto que o comportamento do presidente teve dentro da ONU. Tradicionalmente, sub-secretários e membros da entidade evitam criticar chefes-de-estado.

A delegação brasileira, ao tomar a palavra, falou de vários outros temas que também tinham sido perguntados, como LGBT, Venezuela e papel das ongs. Mas criou um constrangimento ao ignorar a pergunta sobre Bachelet e silenciar.

O Brasil estava sendo representado pelo secretário-adjunto de Políticas Globais do Ministério de Direitos Humanos, Alexandre Magno, além de diplomatas do Itamaraty.

Gilmour não conseguiu conter uma expressão de surpresa diante da ausência de uma resposta do governo.

Na quarta-feira, numa resposta indireta, Bachelet alertou que nem sempre democracias elegem democratas ou pessoas que acreditam em direitos humanos.

Segundo Magno, se eleito, o Brasil vai defender resoluções pela proteção de jornalistas, a luta contra a corrupção e esportes.

 

Amazônia

Mas o Brasil não teve de lidar apenas com a crise gerada pelos comentários contra Bachelet. A entidade Human Rights Watch cobrou respostas sobre como o governo pretende agir para proteger ambientalistas, defensores de direitos humanos e indígenas.

A delegação brasileira, ao responder, adotou o novo mantra do governo: a de que as queimadas na Amazônia não foram maiores que em anos anteriores e que o Planalto está comprometido em lutar contra o fogo.

Citando medidas adotadas e dados de avanços em governos anteriores, a delegação brasileira ainda indicou que queda de desmatamento foi de 75%.

Sobre a situação dos povos indígenas, a Magno lembrou que é descendente de indígenas e que existem medidas reais para proteger essas comunidades.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)