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Jamil Chade

Jamil Chade

“Um país não é apenas o que ele faz. Mas o que ele tolera”

Jamil Chade

02/09/2019 06h07

GENEBRA – Passaria por Genebra no começo do século 20 o jornalista e escritor alemão Kurt Tucholsky. Ciente do que estava se desenhando na Europa e das ameaças que certos grupos enfrentavam, ele deixou claro: "um país não é apenas o que ele faz. Mas o que ele tolera".

Os ataques contra um restaurante em São Paulo, na madrugada de domingo, são sintomas de um dos males mais perigosos que enfrenta hoje a sociedade brasileira: a intolerância.

Sociedades democráticas são construídas sobre a base da tolerância política. Numa democracia, ninguém está obrigado a concordar com o outro. Mas a respeitar sim. E até mesmo em protegê-lo e garantir sua sobrevivência.

Chegou o momento das lideranças políticas e judiciais do país – independente de seus partidos – emitir um sinal forte, contundente e irrestrito contra a intolerância. Caso contrário, é a democracia brasileira que estará ameaçada. Simplesmente dizer que um político ou partido não tem responsabilidade ou influência sobre os eleitores e uma sociedade não basta.

Ocupar um cargo político também significa assumir responsabilidades. E, entre elas, a da preservação da democracia. Dentro do Legislativo, em "lives" e em cada ato no Diário Oficial. Mas também ao condenar atos de intolerância política e racial, assim como criar programas escolares para ensinar a tolerância, garantindo que a próxima geração entenda o que está em jogo.

Nossa democracia jamais foi uma realidade natural. Foi conquistada e continua imperfeita, racista, discriminatória, desigual e injusta.

A democracia não é apenas as imagens de longas filas que se formam num certo domingo em locais de votação, a cada tantos anos. A democracia é a capacidade de uma sociedade de respeitar e aceitar a diferença. A democracia é a capacidade de a diferença existir.

Numa democracia, a oposição não pode ser chamada de inimiga, mas sim ser considerada como uma adversária na luta natural pelo poder, dentro de regras. Eleitores que não pensam de uma certa forma não devem ser "aniquilados". Mas respeitados e, eventualmente, convencidos por propostas políticas.

Certamente algum leitor dirá: "e a facada?". Obviamente ela é condenável e não pode ser tolerada num sistema democrático. Não pode ser usada nem como escudo e nem como motivo de teorias da conspiração. A condenação precisa ser incondicional. Assim como ela não pode ser aceita, a estratégia das milícias digitais (e reais) de intimidar eleitores e partidos políticos precisa ser denunciada.

Camus, ao final da Segunda Guerra Mundial, já havia alertado que a derrota do nazismo não significava o fim dos problemas. A morte – física, intelectual ou política – de um adversário fora banalizada na Alemanha Nazista e pela Europa. Seu temor, portanto, era de que esse comportamento tivesse um impacto por décadas.

A ameaça que enfrentamos hoje é a do dogma, da banalização da violência, do silêncio cúmplice e da covardia. Uma sociedade não é o que ela produz, quantos títulos mundiais ela conquistou, o quanto ela exporta, o tamanho de sua floresta ou quantas maravilhas ela possui em seus locais turísticos.

Uma sociedade não é seu grau de devoção ao patriotismo oco. Uma sociedade é o espelho do que ela tolera. E, nesse espelho, nossa imagem ganha contornos insuportáveis.

 

Errata: ao contrário do que foi escrito na versão original do blog, o ataque ocorreu na madrugada do domingo, e não da segunda-feira. A correção no texto foi realizada no dia 5 de setembro. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)