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Jamil Chade

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Com fundo internacional, G7 costura uma coalizão para preservar Amazônia

Jamil Chade

26/08/2019 04h00

Corredor de fumaça na Amazônia no dia 16 de agosto (Reprodução/Nasa)

 

Reino Unido anunciou que irá dobrar contribuição para fundo climático, enquanto ministra francesa pediu criação de um mecanismo mundial para financiar ações. Mas tom de confronto de Macron foi amenizado diante de posições diferentes por parte dos demais governos. Os resultados serão anunciados nesta segunda-feira.
GENEBRA – Uma coalizão internacional para garantir o reflorestamento da Amazônia, acompanhada por um fundo destinado a bancar essas ações. Essa é uma das opções que está em estudo para que seja anunciada pela cúpula do G7.

O encontro entre os sete líderes das economias ricas termina nesta segunda-feira, em Biarritz, e um anúncio será feito sobre o formato que ganhará a ajuda internacional. O presidente da França, Emmanuel Macron, já indicou no domingo que um compromisso havia sido encontrado entre os governos do G7 para ajudar a região sul-americana.

Na manhã desta segunda-feira, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou que irá dobrar a contribuição de seu país a um fundo climático, para um total de 1,4 bilhã0 de libras esterlinas.

De acordo com diplomatas que acompanharam as reuniões, as medidas em debate poderiam incluir uma ajuda financeira milionária, objetivos claros e metas concretos de áreas a serem reflorestadas e preservadas. Os países da região estão sendo consultados, garantiram os europeus.

Mas, segundo negociadores, o formato final do mecanismo estaria sendo mais difícil de ser atingido que o presidente Emmanuel Macron esperava. Não por acaso, depois de sugerir que "medidas concretas" seriam tomadas, Paris modificou a forma de tratar do assunto. Garantiu que a soberania brasileira seria respeitada e que a ajuda poderia vir na forma de um "mecanismo de mobilização internacional", uma formulação abrangente o suficiente e ambígua o suficiente para que todos possam estar dentro.

Ainda assim, Macron deixou claro que houve um acordo sobre a necessidade de uma ajuda à Amazônia.

A ação poderia ocorrer em dois tempos. Num primeiro momento, uma ajuda técnica e financeira poderia ser anunciada para combater o fogo e em estreita colaboração com os países sul-americanos.

Seria num segundo momento que viria a espécie de coalizão internacional. Numa coluna publicada no domingo na imprensa francesa, uma das ministras de Macron, Annick Girardin, indicou a vontade de se criar um fundo internacional que substituiria o Fundo Amazônia. No fim de semana, entidades privadas também já se anteciparam, anunciando doações para preservar a floresta.

Uma primeira reunião dessa nova coalizão poderia ocorrer em setembro, em Nova Iorque, às margens da Assembleia Geral da ONU.

A criação de coalizões, apoiadas por ongs e pelo setor privado, não é inédito no G7. Em 2002, essa foi a fórmula encontrada pelo grupo para lançar uma iniciativa pela educação. Em 2009, em meio ao aumento da fome no mundo, esse também foi o modelo encontrado para lidar com a crise.

Tom Reduzido

Seja qual for o formato final que a proposta ganhará, o domingo viu Macron reduzir o tom de confrontação com Jair Bolsonaro. Não era por acaso. O francês ficou sem o apoio da Alemanha, da Espanha e viu Donald Trump reforçar suas relações comerciais com o Brasil. O Chile, país convidado por Paris ao encontro, também saiu ao resgate de Bolsonaro durante o encontro.

No fim de semana, a chanceler Angela Merkel deixou claro que não queria abrir uma frente de crise com o Brasil.

Sua preocupação em não isolar o País ficou evidente em poucos segundos que um cinegrafista captou uma conversa de Merkel com Macron, ao lado de outros líderes. A alemã, apesar de ter sido a responsável por cortar recursos para o Fundo Amazônia, deixou claro ao francês que os lideres internacionais precisavam telefonar a Bolsonaro para deixar claro que não se tratava de uma ação "contra" o brasileiro.

A diplomacia americana também agiu para impedir que o G7 fosse concluído com Bolsonaro como uma espécie de vilão internacional.

Mas aceitou que uma formulação final viesse num tom de cooperação e ajuda para que o Brasil possa enfrentar os incêndios.

O temor em Brasília, porém, é de que o apoio americano venha com um custo elevado. Em troca dessa ajuda, Washington poderia pressionar Bolsonaro a adotar uma linha mais dura contra o Irã. Quem não gostará disso serão os exportadores brasileiros do setor agrícola.

Se Bolsonaro qualificou a ação de Macron de "neocolonial", o presidente da Colômbia, Ivan Duque, aplaudiu a iniciativa de tratar o assunto no G7. O colombiano pediu "meio e apoio científico" para preservar a floresta.

Mas ele também pedia que compromissos fossem assumidos pelo G7 para proteger a biodiversidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)