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Jamil Chade

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Greenpeace pressiona deputados europeus a vetar acordo com Mercosul

Jamil Chade

21/08/2019 10h10

Na Áustria, protesto pede que parlamento nacional vete acordo com Mercosul. Divulgação

 
GENEBRA – Numa carta enviada a todos os parlamentares austríacos, a entidade Greenpeace pede que os deputados vetem o acordo comercial entre a UE e os países do Mercosul. A operação dos ambientalistas reforça a onda de contestação que passou a sofrer o tratado, desde que foi concluído em junho, e diante da proliferação de críticas de Jair Bolsonaro aos governos europeus por temas climáticos.

Em diversos países europeus, grupos ambientalistas ampliaram suas operações de pressão contra o acordo, enquanto os setores mais protecionistas do setor agrícola também se aproveitaram do debate para reforçar seu pedido para que o tratado não seja ratificado.

"A entrada em vigor do acordo exige a unanimidade de todos os Estados-Membros no Conselho da UE", diz a carta do Greenpeace, obtida pelo UOL. "O "não" da Áustria impediria, portanto, o pacto comercial prejudicial ao clima", constata.

"Os parlamentares austríacos têm agora nas suas mãos a obrigação de pôr fim à conclusão do Acordo do Mercosul. O parlamento austríaco pode e deve evitar os efeitos dramáticos do Acordo do Mercosul sobre a proteção ambiental e climática, bem como o ataque à agricultura de pequena escala", exigiu o presidente do Greenpeace, Alexander Egit.

Depois de 20 anos de negociação, o acordo entre Mercosul e UE foi anunciado em 28 de junho. No entanto, para que o acordo entre em vigor, o Conselho da UE, o Parlamento Europeu e, finalmente, os Estados nacionais têm de o aprovar primeiro.

"Quem quiser proteger a floresta tropical e a biodiversidade e não quiser continuar alimentando uma impiedosa exploração de nossa natureza deve evitar o Pacto do Mercosul", escreveu. "Quem quer que assuma seriamente a responsabilidade pelos nossos agricultores tem de dizer clara e inequivocamente: rejeitamos este acordo. Não espero nada menos dos parlamentares austríacos", disse Egit.

O Greenpeace ainda atacou a Comissão Europeia por estar "obviamente disposta a aceitar a destruição da floresta tropical para o acordo e a infiltrar-se nas normas alimentares europeias".

"Inúmeros pesticidas tóxicos, proibidos na Europa, são utilizados na gestão das enormes monoculturas do Brasil", justificam. "Além disso, a utilização de pesticidas por hectare no Brasil é cerca de oito vezes maior do que na Europa", apontam.

"O Acordo Mercosul seria um bom negócio para as empresas agrícolas do Sul, que obtêm enormes lucros com as monoculturas, o cultivo de milho e soja geneticamente modificados, a exportação de rações baratas e rebanhos cada vez maiores de gado à custa da floresta tropical. Para estes produtos questionáveis, o acordo de comércio livre deveria abrir o mercado europeu e, consequentemente, o mercado austríaco", insistem.

"Em contrapartida, o mercado do Mercosul deverá ser mais aberto à indústria europeia. No entanto, uma troca de carros por produtos agrícolas com esses enormes efeitos prejudiciais ao clima é inaceitável", disse Egit.

Ao longo dos anos, o governo austríaco foi um dos que mais resistiu ao acordo com o Mercosul. Mas seus argumentos eram sempre baseados no impacto que uma abertura poderia causar para os setores ultra-protegidos de sua economia.

Enforcados

Na Áustria, o debate sobre o Mercosul de fato entrou na agenda política dos partidos. Nesta semana, a Juventude Socialista (SJ) Burgenland organizou um protesto na cidade de Eisenstadt.

Na Eisenstädter Hauptstraße, a principal rua da cidade, jovens simularam um enforcamento, com blocos de gelo derretendo aos seus pés. Nas mãos, os manifestantes levavam cartazes contra o acordo com o Mercosul.

Do lado da Comissão Europeia, os negociadores insistem que existem capítulos inteiros do acordo que exigem do Brasil um respeito aos tratados internacionais sobre o Clima e até mesmo sobre a gestão das florestas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)