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Jamil Chade

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Tensão na fronteira obriga chefe da ONU a cancelar visita a Pacaraima

Jamil Chade

19/08/2019 08h30

Militares venezuelanos impendem a circulação de pessoas e veículos na fronteira com Pacaraima, RR (Ricardo Moraes/Reuters)

GENEBRA – Num sinal claro da tensão que a fronteira entre o Brasil e a Venezuela vive, o alto comissário das Nações Unidas para Refugiados, Filippo Grandi, foi obrigado a cancelar uma visita que faria à Pacaraima para avaliar a situação dos refugiados venezuelanos neste fim de semana.

A cidade viveu dias de tensão, com o comércio fechado. Um protesto foi organizado em que os manifestantes entoaram gritos de "Fora Venezuelanos, Fora ONU!".

Grandi, número 1 da ONU para Refugiados, foi aconselhado pelas autoridades brasileiras a não ir até a região e limitou sua visita a Boa Vista e Brasilia. Num comunicado inicial, a agência previa Pacaraima no roteiro. Coube ao prefeito da cidade de fronteira ir até Boa Vista para uma reunião com o representante da ONU.

No domingo, de Brasilia, Grandi fez um apelo para que a comunidade internacional ajude a financiar a operação para atender aos venezuelanos que deixam o país. Seu temor é de que, sem recursos, cidades brasileiras se transformem em locais de extrema tensão, com serviços sobrecarregados, reações xenófobas e uma hostilidade cada vez maior contra os venezuelanos.

No final de 2018, a ONU fez um apelo por US$ 738 milhões para sair ao socorro dos imigrantes e refugiados venezuelanos. Sete meses depois, a entidade recebeu apenas 24% do valor.

Por dia, 500 pessoas ainda entram no Brasil, vindos da Venezuela. No total, são 180 mil venezuelanos hoje no País.

"O impacto sobre as comunidades anfitriãs em estados como Roraima e Amazonas tem sido esmagador", alertou Grandi. "Disseram-me que, em algumas comunidades fronteiriças, 40% dos pacientes e 80% das mulheres que dão à luz em hospitais são da Venezuela. Houve um impacto semelhante na educação, no emprego, na habitação e nos serviços sociais", disse.

"É vital que os esforços das autoridades nos níveis federal, estadual e municipal, bem como da sociedade civil, grupos da Igreja e brasileiros comuns, sejam adequadamente apoiados pela comunidade internacional. A população local tem estado na vanguarda da resposta às necessidades dos refugiados e migrantes venezuelanos. Eles não devem ser deixados sozinhos", apelou.

Sua recomendação é ainda a de que sejam acelerados os programas de transferências de refugiados da região Norte do Brasil para o restante do país.

Até agora, mais de 15 mil venezuelanos foram realocados do estado de Roraima para mais de 50 cidades onde há mais oportunidades de integração, aliviando assim a pressão sobre as comunidades fronteiriças.

"Estou muito impressionado com ambas as operações como exemplos de uma resposta eficiente, coordenada, humana e inovadora para atender às necessidades humanitárias e promover soluções para os venezuelanos", disse Grandi.

"No entanto, muitos desafios permanecem devido ao número crescente de chegadas. Em minhas visitas, foram levantadas questões importantes sobre a situação da população indígena venezuelana, as condições precárias de muitos venezuelanos que vivem fora dos abrigos oficiais e o impacto sobre a infraestrutura e os serviços locais. Os governos federal e local, com o apoio da sociedade civil e do sistema da ONU, precisam agir urgentemente para atender às necessidades de saúde, educação, subsistência e outras necessidades críticas".

Hoje, mais de 4,3 milhões de venezuelanos já deixaram o país. Mas o Brasil não é o principal destino. A Colômbia já recebeu 1,2 milhão de venezuelanos, seguido pelo Peru, Chile e Equador.

No atual ritmo, mais de 5 milhões de venezuelanos estarão vivendo fora de seu país até o final do ano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)