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Jamil Chade

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Sanções e crise geram colapso nas exportações brasileiras para Venezuela

Jamil Chade

18/08/2019 04h00

 

GENEBRA – As exportações brasileiras para a Venezuela atingiriam seu menor nível em pelo menos 23 anos. Nos primeiros sete meses de 2019, os dados revelam que o Brasil exportou apenas US$ 182 milhões, praticamente o mesmo volume vendido ao Iemen, país em plena guerra.

O total exportado é bem abaixo dos US$ 396 milhões vendidos nos primeiros sete meses de 2018, segundo os dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior. Com a queda, a Venezuela aparece hoje apenas como o 58o principal destino de produtos nacionais.

O volume é uma fração do que o Brasil chegou a exportar em 2012, quando o fluxo superou a marca de US$ 5 bilhões. Em alguns dos meses de 2019, a exportação nacional não chegou a US$ 18 milhões.

O caos no país vizinho levou a um empobrecimento real da população, enquanto a crise fiscal vivida por governo de Nicolas Maduro também reduziu de forma dramática as compras governamentais e investimentos. Sanções comerciais também passaram a entrar em vigor, assim como temores de empresas de serem punidas pelo governo americano se mantivessem negócios com Caracas.

O resultado foi uma queda profunda nas vendas brasileiras para o mercado venezuelano em 2019, em comparação a 2018, ano que já havia registrado uma contração. No setor de carnes, produto que passou a ser um luxo em meio à depressão, a queda nas vendas brasileiras foi demais de 80%.

A venda de minérios também sofreu uma queda superior a 70% e produtos farmacêuticos viram uma contração de 87%.

No governo brasileiro, a percepção é de que o desabamento no comércio bilateral não é uma questão apenas política, num momento de atritos entre Caracas e Brasília. Na avaliação do Planalto do Planalto, a balança comercial também é resultado do colapso da economia venezuelana, que perdeu nos últimos anos mais de 20% de seu PIB.

Mas fontes em Brasília confirmam ao UOL que os ataques constantes de Jair Bolsonaro a Nicolas Maduro, e vice-versa, não têm ajudado. As missões comerciais, que chegaram a ser frequentes, desapareceram e mesmo as empresas que já tinham realizado vendas passaram a se queixar de que jamais foram pagas.

Entre os empresários, outro risco citado é o de serem alvos de um calote. Por anos, grande parte dos negócios brasileiros era com o setor estatal venezuelano e com garantias apenas parciais por parte do Brasil.

Na condição de anonimato, um executivo do setor agrícola admitiu que, em seu setor, há uma decisão de muitas empresas de simplesmente evitar qualquer relação comercial com a Venezuela.

Caracas chegou a ser um dos principais destinos das exportações nacionais. Em 2012, por exemplo, a Venezuela foi o oitavo maior parceiros do País, superando Índia e Rússia. Durante a administração de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela, os dois países assinaram diversos acordos comerciais e foi Brasília quem insistiu em colocar Caracas dentro do Mercosul, principalmente por motivos políticos.

Sem dólares para poder pagar as transações, calotes, falta de créditos nos bancos e um mercado doméstico em franca queda, os importadores venezuelanos deixaram de buscar produtos importados.

Em maio de 2017, o Banco Central do Brasil tomou a decisão de interromper a concessão de uma garantia que dava para o setor privado nacional para exportar para a Venezuela. Com a decisão, o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR) foi suspensa e o BC explicou que a medida fazia "parte da política de gerenciamento de risco do BC". O impacto foi sentido especialmente nos setores que dependem de créditos para assegurar suas vendas.

As exportações venezuelanas ao Brasil também caíram. Produtos derivados do setor de petróleo e fertilizantes foram os principais afetados. Em 2014, o volume que o Brasil comprava chegava a US$ 1,1 bilhão. Em 2017, esse valor foi de apenas US$ 391 milhões. Nos primeiros meses de 2019, o total foi de apenas US$ 59 milhões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)