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Relatora da ONU diz que Bolsonaro é culpado por invasão de garimpeiros

Jamil Chade

29/07/2019 10h17

Na ONU, lideranças indígenas protestam contra governo Bolsonaro.

 

GENEBRA – O presidente Jair Bolsonaro tem responsabilidade, ainda que indiretamente, pela invasão de terras indígenas no Amapá. O alerta é da relatora da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz. Numa entrevista exclusiva ao UOL por telefone de Manila, a especialista atacou de forma dura as políticas do atual governo.

No fim de semana, a Funai confirmou que invasores tomaram a terra indígena Waiãpi, no Amapá. Ao chegar ao local, os invasores teriam executado o líder Emyra Waiãpi. Os relatos da violência ganharam alguns dos principais jornais do mundo.

As invasões, porém, ocorrem depois que Bolsonaro afirmou que espera legalizar a mineração e garimpo em terras indígenas.

Para a relatora da ONU, o motivo da tensão no Amapá tem relação com a postura e declarações de Bolsonaro. "Um dos elementos é o fato de que o presidente tem feito anúncios de que terras indígenas podem ser usadas para atividades produtivas. Essa é uma das razões que explica a situação, além dos interesses econômicos sobre essas terras", disse.

Para ela, Bolsonaro tem responsabilidade na crise. "Ele é o chefe-de-estado e, ao fazer tais pronunciamentos nessa linha, então claro que esses grupos vão tentar controlar essas terras, invadir esses territórios", apontou.

Sua avaliação é de que o governo agora precisa agir. "As autoridades precisam enviar pessoas à região e impedir que os invasores tomem as terras", defendeu. "Trata-se de um ato ilegal e, portanto, é de responsabilidade do governo proteger o território", afirmou.

Ela também pede que a morte do líder seja alvo de um inquérito. "Deve haver uma investigação e os autores devem ser levados à Justiça", defendeu.

Victoria Tauli-Corpuz ainda pede que a comunidade internacional pressione o governo brasileiro e até mesmo que utilize acordos comerciais – como o tratado entre Mercosul-UE – para exigir uma resposta das autoridades nacionais diante da crise ambiental e da questão indígena.

"Espero que países pela Europa que fecharam esses acordos comerciais relembrem ao Brasil sobre suas responsabilidades e compromissos de direitos humanos e respeito aos direitos de indígenas, assim como proteger a Amazônia", afirmou.

"A proteção da Amazônia não é apenas um assunto do Brasil. Mas para todo o mundo. A comunidade internacional tem um papel a desempenhar nisso", insistiu. Há duas semanas, em conversa com jornalistas estrangeiros, o presidente se irritou diante de uma pergunta sobre a proteção da floresta e retrucou: "a Amazônia é nossa, não de vocês".

A relatora já fez viagens ao Brasil no passado e fez também duras críticas sobre a situação sob o governo de Dilma Rousseff. Mas, agora, ela alerta que a dimensão é "outra". "O que vemos agora é algo abrangente, com invasões. A extensão do que ocorre é outra", disse, apontando para a ação de garimpeiros, mineradoras e agricultores.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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