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Prisão de mais de mil pessoas escancara a farsa da Copa do Mundo

Jamil Chade

28/07/2019 13h22

Policiais prendem manifestantes em Moscou. 27 de Julho de 2019. REUTERS/Tatyana Makeyeva

 

A rua Nikolskaya, no centro de Moscou, foi por um mês o epicentro da Copa do Mundo de 2018. Torcedores de diferentes países celebrando suas vitórias ou chorando suas derrotas. Mas, acima de tudo, conhecendo uma Rússia generosa, alegre e, aparentemente, livre.

Quantas vezes não vimos policiais sorridentes, desmontando a imagem supostamente distorcida dos estrangeiros sobre a democracia de Putin. Sorrisos premeditados?

Um ano depois, o que a mesma rua revela é que aquela liberdade era apenas aparente. Um show para o restante do mundo e uma farsa chancelada pela Fifa e seus parceiros econômicos.

Um ano depois daquela euforia, vimos neste fim de semana a detenção de mais de mil opositores em Moscou e a ocupação daquela mítica rua por policiais muito menos sorridentes.

 

Torcedores brasileiros na rua turistica Nikolskaya St no centro de Moscou (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, ESPORTES).

 

Por telefone de Moscou, a ativista de direitos humanos, Alyona Popova, me conta o que a repressão dos últimos dias representou.

"Isso mostra que a sociedade na Rússia exige respeito, por seus direitos e seus méritos", disse. "Mas o estado insiste em um cenário de restrições. O protesto foi estabelecido por diferentes grupos por muitos lugares da Rússia", explicou.

"Os jovens não perdoarão o governo, nem desistirão e aceitarão o desrespeito por seus direitos, nem aceitarão a violência", afirmou.

Em 30 dias de Copa, tive a oportunidade de viajar pela Rússia, a rincões que nem mesmo o chefe do Kremlin costuma visitar com regularidade. Após cada viagem, cada entrevista com ativistas de direitos humanos ou cidadãos, eu me perguntava: a Fifa não sabe que está deixando o maior evento do planeta ser manipulado para fins políticos em um regime que dificilmente poderia cumprir os critérios de uma democracia?

Existem duas opções: ou os cartolas, as emissoras que pagaram pelos direitos e os patrocinadores são de uma enorme ingenuidade e não se dão conta de como são utilizadas ou eles se tornaram simplesmente cúmplices de graves abusos de direitos humanos.

Em três anos, o mundo do futebol irá para o Catar, país onde um número importante de liberdades básicas é apenas uma miragem.

Em conversas com diversos diretores da Federação e pessoas ligadas à operação do torneio, não existem dúvidas de que o Catar será impecável. Mas a qual custo?

De forma consecutiva, o maior evento do mundo será organizado por dois regimes que não toleram questionamentos. Dois eventos em países que reprimem sua oposição e não permitem sequer que, em silêncio, alguém faça uma reivindicação política ou social nas ruas.

O governo de Doha criou grupos de trabalho para fazer avançar alguns dos direitos dos trabalhadores dos estádios e mudar certas leis, depois da pressão da comunidade internacional.

Medidas, porém, insuficiente diante do plano do governo local de utilizar o evento que desembarca no Oriente Médio para fortalecer seu poder autocrático e inquestionável, algo muito parecido ao que foi realizado na Rússia.

Em 2018, uma vez mais o mundo evidenciou o poder do futebol e da Copa do Mundo, capaz de interromper a rotina de bilhões de pessoas pelo planeta.

Ao sediar e pagar bilhões por um evento como este, um país se transforma imediatamente no centro das atenções mundiais. Isto não é necessariamente ruim. Mas cabe aos organizadores, patrocinadores, torcedores e à imprensa exigir não apenas que as arquibancadas não tenham pontos cegos.

A cegueira tampouco pode existir quando o assunto é a liberdade humana.

Quando a França levantou a taça há um ano, o papel picado de cores douradas cobriu um gramado molhado que foi testemunha de parte da história do futebol em Moscou. Mas para que a cortina de fumaça seja dissipada, cabe a todos os atores do futebol – inclusive quem o financia – questionar e cobrar por mudanças.

Caso contrário, o maior evento do planeta corre o risco de ser um mero instrumento de manipulação de regimes na contramão da história. Um ano depois, a repressão escancara a necessidade de que saibamos onde estamos indo. E quem estamos chancelando com nossa inocente torcida por nossos craques.

 

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

Jamil Chade