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"Maduro sequestrou minha filha e neto", diz investigadora do caso Odebrecht

Jamil Chade

26/07/2019 04h00

23.ago.2017 – A ex-procuradora-geral Luisa Ortega Diaz participa de encontro de procuradores do Mercosul, em Brasília (EVARISTO SÁ/AFP)

 

 

Em entrevista exclusiva ao UOL, a procuradora-geral deposta da Venezuela, Luisa Ortega Diaz, diz que há muito a ser revelado ainda no caso Odebrecht. 

 

 

GENEBRA – O governo de Nicolas Maduro teria ordenado o sequestro da filha e do neto da procuradora-geral deposta, Luisa Ortega Diaz, como forma de tentar evitar que ela seguisse com as investigações sobre a relação entre a Odebrecht e a cúpula chavista. Quem faz a revelação é a própria procuradora que, depois de entrar em choque com o governo de Maduro, foi destituída em agosto de 2017 e obrigada a fugir do país.

Foi ela quem, em outubro de 2017 e já no exílio, publicou vídeos com delações de um ex-diretor da construtora que acabariam revelando pagamentos de propinas por parte da Odebrecht para o governo Maduro.

Nos vídeos, o ex-executivo, Euzenando Azevedo, afirmava que teria repassado US$ 35 milhões à campanha eleitoral do atual presidente. A publicação gerou um protesto por parte da defesa da Odebrecht, que alertava para o fato de o vazamento da delação ter aumentado o risco para funcionários da empresa, além de romper o sigilo do depoimento.

No mesmo dia que Ortega foi deposta, em 5 de agosto de 2017, o então juiz Sérgio Moro, sugeriu aos procuradores a divulgação de informações que comprometeriam Maduro e o esquema de corrupção. O gesto de Moro foi revelado pelo site The Intercept e o jornal Folha de S. Paulo, com base em informações das conversas de celulares entre o então juiz e os procuradores. A venezuelana também é citada nas conversas. Mas não se pode tirar conclusões de que teriam sido os procuradores quem teriam vazado o vídeo.

Em entrevista exclusiva ao UOL e em sua primeira declaração desde as revelações do site, Ortega explica sua motivação para publicar o material e mantém o sigilo de sua origem. Mas afirma que, ao se considerar como a procuradora legítima da Venezuela, continua a investigar as relações da Odebrecht com a cúpula chavista e que muito ainda será revelado.

"Não se conhece tudo do esquema da Odebrecht com a Venezuela. Ainda falta muito a ser revelado", disse. "Talvez ainda mais escandaloso do que se conhece até agora", afirmou.

Ela garante que ainda vai demonstrar, com outras evidências que conseguiu estando no exterior, desdobramentos da corrupção da empresa. Segundo ela, há inclusive outros pagamentos ainda mais elevados aos de US$ 35 milhões. "Encontramos todos os contratos, os pagamentos, as contas. Vão sobrar evidências", declarou.

Ortega, que hoje vive na Colômbia, esteve em Genebra esta semana para reuniões na ONU. Além da Odebrecht, ela ainda indicou que também investiga casos de suspeita de corrupção no setor de transportes, desvios de US$ 800 milhões na Saúde, e no setor de alimentos. "A corrupção destruiu a Venezuela", disse.

Sequestros

A procuradora deposta conta que decidiu divulgar o material da delação para tornar público os crimes de Maduro e "mostrar aos venezuelanos" quem eram "seus dirigentes".

"Nesse momento que eu decido publicar, eu fiquei sabendo de alguns eventos que tinham ocorrido", explicou. Segundo ela, enquanto esteve na Venezuela investigando a Odebrecht, sofreu ameaças.

Em uma ocasião, justamente quanto esteve no Brasil em 2017 para uma reunião convocada pelo ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, seus familiares foram sequestrados em Caracas.

"Sequestraram milha filha e meu neto", contou. "Eu tive de abandonar a reunião e voltar para a Venezuela", disse. "Minha filha esteve sequestrada por dois dias e meu neto por três dias. Soltaram a mãe primeiro e deixaram a criança, de 14 anos", contou.

"Passado vários meses, me inteiro que quem ordenou o sequestro foi Maduro. Portanto, isso não é ilegal? um delito? Um dos delitos mais cruéis, com uma criança", disse.

"Você pode imaginar a dor da mãe quando a separaram e dizem que ela pode ir e o filho continua?", questionou. "Depois, entendi que eram uma série de ações para evitar que eu investigasse o caso da Odebrecht", disse.

Já no exterior, depois de ter sido afastada, ela admite que o a "única ferramenta" que tinha para que as informações fossem reveladas era a imprensa.

Mas ela também conta que seu ato visava desconstruir uma narrativa que começava a ganhar força na Venezuela, promovida por Maduro: a de que a oposição era corrupta.

"Havia uma matriz de opinião fomentada por Maduro de que a oposição era corrupta. Ele não? Então, era para mostrar, especialmente aos venezuelanos, a classe de dirigentes que tinham", explicou.

Origem

Ela, porém, diz que não vai entrar no debate sobre a origem dos vídeos e de que forma obteve o material.

"É inaceitável que queiram desviar a atenção da opinião pública para uma questão que não foi decisiva para condenar Nicolás Maduro como autor de graves atos de corrupção com a Odebrecht", disse.

"Há muitas provas que o comprometem a ele e ao seu ambiente nesta conspiração criminosa. Eu não vou me emprestar para alimentar qualquer controvérsia ou seguir o jogo rude que algumas pessoas montam no Brasil para manipular a opinião pública", respondeu.

"É escandaloso e ilegal não investigar um caso de corrupção que, como consequência, está levando os venezuelanos a morrer", insistiu.

Ao longo de seu mandato como procuradora-geral, Ortega confirma que houve uma estreita colaboração legal entre o Brasil e seu gabinete. "Nós solicitamos informações ao Brasil, por meio da assistência mútua em matéria penal. Estando eu na Venezuela, os procuradores foram ao Brasil. Muitas das evidências e provas foram obtidas no Brasil, de forma legal", disse. "Esse caso não está terminado e outras pessoas envolvidas, ha detalhes que eu ainda não posso dar", explica.

Ela insiste, porém, que a publicação das informações foi legal. "O único crime que se cometeu é o crime que atenta contra o patrimônio público dos venezuelanos e que levou à fome e à miséria no meu país", disse. "Não apenas o caso de corrupção da Odebrecht, mais outros na Venezuela levaram a população agora a ter de escapar da morte e ter de ir a outros países da região, por falta de remédios, alimentos e insegurança", disse.

"Tudo isso é uma distração para se evitar que se continue a investigar o fato transcendental, que é a corrupção da Odebrecht", insistiu. "A atuação do Ministério Público sempre esteve ajustada ao direito e à Justiça. Seguimos a lei da Venezuela e em respeito às leis nacionais de outros países, principalmente aqueles que tivemos acordos para colaboração. Portanto, nós não somos os violadores da lei. Os violadores da lei são outros, especialmente as autoridades venezuelanas e Nicolas Maduro", declarou.

Segundo ela, não apenas a delação do ex-diretor da Odebrecht, mas também outras provas apontaram para os crimes do governo. "Se fizermos uma abstração dessa prova, igualmente Maduro estaria condenado. São muitos os elementos probatórios", disse.

Para ela, o argumento da Odebrecht de violação de leis é uma forma de escapar a sua responsabilidade. "É uma justificativa para dizer que são vítimas. São uns verdadeiros delinquentes", completou.

 

23.ago.2017 – A ex-procuradora-geral da Venezuela Luisa Ortega com o ex-procurador-geral Rodrigo Janot durante visita ao Brasil em 2017 (EVARISTO SÁ/AFP)

 

Coordenação

Suas declarações ocorrem duas semanas depois que o site The Intercept publicou conversas entre os procuradores da Operação Lava Jato que revelam que eles tentaram se organizar para vazar o material das delações. Os diálogos revelados não sejam conclusivos sobre quem teria disponibilizado o material e nem se de fato foram os brasileiros.

A iniciativa teria sido tomada após uma sugestão do então juiz Sergio Moro, que escreveu o mesmo dia dia em que a Assembleia Constituinte venezuelana aprovou o afastamento de Ortega, em 2017. "Talvez seja o caso de tornar pública a delação dá Odebrecht sobre propinas na Venezuela. Isso está aqui ou na PGR?", sugeriu Moro a Dallagnol no dia 5 de agosto de 2017.

"Naõ dá para tornar público simplesmente porque violaria acordo, mas dá pra enviar informação espontãnea [à Venezuela] e isso torna provável que em algum lugar no caminho alguém possa tornar público", escreveu Deltan Dallagnol. Ele indicava que sabia que o ato seria criticado. "Mas vale pagar para expor e contribuir com os venezuelanos". As conversas sugerem que o objetivo era político, justamente para enfraquecer governo de Nicolás Maduro.

Nem todos estavam convencidos de que tornar público os dados seria uma boa ideia. "Vejam que uma guerra civil lá é possível e qq ação nossa pode levar a mais convulsão social e mais mortes", ponderou o procurador Paulo Galvão, naquele mesmo dia. Outro procurador, Athayde Ribeiro Costa, emendou: "Imagina se ajuizamos e o maluco manda prender todos os brasileiros no territorio venezuelano".

Coube ao procurador Deltan Dallagnol rebater. "PG, quanto ao risco, é algo que cabe aos cidadãos venezuelanos ponderarem. Eles têm o direito de se insurgir."

Quando Ortega esteve no Brasil, semanas depois, o procurador Paulo Galvão, comentou no grupo pelo Telegram: "Vcs que queriam leakar as coisas da Venezuela, tá aí o momento. A mulher está no Brasil", escreveu. Semanas depois, em outubro, os vídeos seriam publicados.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

Jamil Chade