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Jamil Chade

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Nacionalismo e China ameaçam ordem econômica que completa 75 anos

Jamil Chade

22/07/2019 04h00

 

 

Em 1944, em Bretton Woods, mundo se uniu para criar um novo sistema econômico. 75 anos depois, essa estrutura é alvo de ataques e hesitação e FMI, Banco Mundial e OMC aceleram suas reformas.

 

GENEBRA – A Segunda Guerra Mundial não tinha sequer terminado. De fato, o desembarque na Normandia cumpria apenas três semanas quando, num canto perdido do estado de New Hampshire, nos EUA, delegados de 44 países e mais de 700 pessoas se reuniriam para começar a desenhar o novo mundo que surgiria com a eventual derrota de Adolf Hitler.

No dia 22 de julho de 1944, há exatos 75 anos, o que sairia daquela reunião em Bretton Woods seria a nova estrutura da economia mundial com a predominância americana, abrindo caminho e colocando as bases para o que, anos depois, seria conhecido como globalização.

Hoje, o sistema está sob forte questionamento, enquanto o nacionalismo e o protecionismo atacam as bases das estruturas criada naquele momento. Tentando sobreviver e sob forte pressão do fortalecimento da China, as instituições que foram originadas em 1944 mergulham em reformas e uma mudança de perfil.

Mas, mesmo em alguns governos, a sensação é de que o sistema já chegou a seu limite e terá de ser reinventado, obrigando FMI, Banco Mundial e a OMC a se repensar.

Bretton Woods criaria um novo sistema financeiro global com o objetivo de evitar que a Grande Depressão do final dos anos 20 e início dos 30 voltasse a ocorrer. Para muitos naquela reunião, havia sido o tombo inédito da economia mundial que abrira caminho para populistas, nacionalismo e, claro, para a guerra.

Coube a um economista do Tesouro americano pensar em uma estrutura internacional que pudesse dar estabilidade, criar regras e, ao mesmo tempo, manter a supremacia dos EUA e seus aliados. Às ideias americanas foram somadas propostas do lendário economista britânico John Maynard Keynes.

O período entre a Primeira Guerra Mundial e o Colapso das Bolsas de 1929 viu uma proliferação de discursos protecionistas e, quando a recessão chegou, não demorou para que as barreiras comerciais e as desvalorizações de moedas se proliferassem.

Tampouco demorou para que, diante de uma guerra comercial cada vez mais intensas, governos passassem a lidar com os demais como inimigos.

Durante três semanas, economistas de todo o mundo se debruçaram sobre um plano que, depois do desembarque dos Aliados na França, representaria uma segunda etapa de uma estratégia para salvar o mundo.

O americano Harry Dexter White chegou à constatação de que a economia global, se quisesse sobreviver, teria de ser regida por duas instituições: um fundo para administração o sistema de câmbio e um banco para reconstruir o mundo de sua pior guerra. Nada mais nada menos que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. O tripé de Bretton Woods seria completado com novas regras do comércio, o GATT e que, décadas depois, se transformaria na OMC.

White ainda manobrou para que a conferência estabelecesse o dólar como referência, ainda que o padrão ouro fosse consolidado. Mas, ainda que fosse apontado como o provável primeiro diretor-geral do FMI, o economista americano teve sua candidatura retirada diante das suspeitas do governo de seu país de que ele fosse um informante dos soviéticos. Comunista ou não, a realidade é que White foi fundamental para construir a nova base da economia mundial.

Ao concluir os trabalhos, o então secretário do Tesouro dos EUA, Henry Morgenthau, ressaltaria que foi justamente graças à cooperação internacional que o mudo se fortaleceu e abriria caminho à prosperidade.

Segundo ele, os delegados dos 44 países "não viram incompatibilidade entre a devoção a seus próprios países e uma ação conjunta". "De fato, descobrimos que a única forma genuína de proteger nossos interesses nacionais seria a cooperação internacional", declarou. Para analistas, o sistema funcionou: o comércio se multiplicou 40 vezes entre 1950 e 2017 com a abertura de mercados do receituário de Bretton Woods e a pobreza que atingia 75% da população mundial em 1950 foi reduzida sete vezes.

Mas junto com esse sistema veio uma profunda desregulação dos mercados, o que agravou a disparidade social em muitos países e, acima de tudo, transformou o mercado em um poder paralelo, incapaz de ser controlado pelos estados.

 

Delegados se reúnem em 1944 em Bretton Woods. Foto: aquivo Bretton Woods

 

Ameaças

75 anos depois, os discursos de alguns dos principais líderes políticos causam calafrios a historiadores e mesmo economistas, que destacam a "coincidência" das palavras e termos usados nos anos 30 e agora.

"Devemos proteger nossas fronteiras dos estragos que outros países", disse em 2017 o presidente Donald Trump, no que seria o início de uma guerra comercial. "A proteção conduzirá a uma maior prosperidade e força", completou.

O que era apenas uma estratégia nos bastidores aos poucos passou a ser vocal. Na OMC, o governo americano não disfarça que quer uma reforma completa, processo que já teve seu início. Em dezembro, se nada for feito, os tribunais da entidade deixarão de funcionar, num colapso para a existência de regras.

Ao longo dos últimos meses, tarifas sobre mais de US$ 400 bilhões foram aplicadas e tanto o FMI como a OMC alertam que a economia global pode sofrer.

Mas a ameaça não vem apenas de Washington. Para o governo da França, por exemplo, o surgimento de novas potências, como a China, colocam o sistema sob um forte teste.

"A ordem de Bretton Woods como a conhecemos chegou a seu limite", disse Bruno Le Maire, ministro de Finanças da França numa coletiva para marcar os 75 anos do acordo.  "A alternativa que temos é clara: ou reinventamos Bretton Woods ou ela corre o risco de perder relevância e eventualmente desaparecer", disse.

Em sua avaliação, se  Bretton Woods definiu o século 20, o século 21 pode ser definido pela Nova Rota da Seda, um projeto chinês para conectar a China, Ásia e Europa, em um plano de bilhões de dólares para refazer um país inteiro.

"Se não formos capazes de reinventar Bretton Woods, a Nova Rota da Seda vai ser a nova ordem e os padrões chineses podem se tornar nos novos padrões internacionais", disse.

No Banco Mundial e no FMI, a urgência por uma reinvenção também é palpável. As instituições foram acusadas por anos de aplicar receitas a economias em desenvolvimento que, apesar de sanar contas do estado e pagar seus credores, exigiam da população sacrifícios que não existiam nos países ricos.

A partir de 2008, foi a vez de países europeus terem também pedir socorro ao FMI e, em troca, aplicar seu receituário. O resultado: desemprego e uma crise social, aprofundando a imagem desgastada das instituições de Bretton Woods. O que se veria nos anos seguintes seria um descontentamento crescente de diferentes populações do mundo diante da sensação de que estariam sendo deixadas para trás e da percepção de que as instituições que salvaram os bancos, em 2008, pouco fizeram por elas.

Não demorou para que líderes populistas surgissem quase de forma simultânea no mundo. Quase todos tinham a mesma promessa: a de romper com a elite no poder que estaba ignorando as populações.

O receituário, porém, caminha sobre trilhos muito parecidos ao dos anos 30: a falta de cooperação internacional, a proliferação de barreiras comerciais, a ameaças de desvalorizações da moeda e um profundo sentimento de desfiança entre os líderes.
Oportunidade Perdida

Essa, porém, não é a primeira vez que o sistema é alvo de ataques. A crise mundial de 2008 colocou a estrutura de Bretton Woods à beira de colapso.

Naquele momento, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, desembarcou em Camp David com a missao de costurar com o presidente George W. Bush o que ja se chamaria de Bretton Woods 2: reformar o sistema internacional, garantir maiores controles sobre a economia global e, assim, evitar novas crises.

Os paises emergentes deixaram claro que não haveria como estabelecer um novo sistema sem sua presença.

Cenario de tantas negociações de paz, Camp David seria o princípio de uma agenda ambiciosa: reformar o FMI, o Banco Mundial e todas as regras internacionais que administram o mercado financeiro.

Mas se a economia mundial foi salva graças à cooperação internacional a partir de 2008 e se bancos foram resgatados, a realidade é que a reforma do sistema não ocorreu da forma que muitos esperavam.

Em diversos documentos que circularam naquele momento, ficava claro que tanto europeus como americanos estavam preocupados com a posição que governos emergentes tomariam diante da crise. A estratégia foi a de buscar uma forma de convencer os emergentes a apoiar as propostas que surgiam nos países ricos, cedendo em alguns pontos justamente para não criar um racha na comunidade internacional.

Um dos telegramas norte-americanos emitidos depois da primeira reunião de cúpula do G-20, no dia 19 de novembro de 2008, a diplomacia americana relata como os europeus saíram aliviados diante do fato de os governos emergentes terem "comprado" o receituário proposto durante o evento.

Dias depois, o governo da França insistia aos americanos que a estratégia para lidar com a crise teria de envolver um plano para envolver os emergentes e não gerar "uma divisão norte-sul" no mundo.

O temor tinha fundamentos. Pelos documentos, fica evidente a preocupação dos americanos diante da insistência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em apontar os países ricos como culpados pela crise.

A constatação da diplomacia americana foi de que Brasília também usava a crise para obter uma maior voz no cenário internacional. "O Brasil está cada vez mais tentando ter um papel de liderança", indicou. "O Brasil dificilmente vai apoiar maiores poderes ao FMI sem reformas e um maior papel do Brasil dentro do FMI", alertou o telegrama de 31 de outubro.

Já no dia 7 de novembro daquele mesmo ano, uma avaliação feita pelos americanos chegava a constatação de que "qualquer ideia de fortalecer o papel de instituições como o FMI estaria ligada a um reforma para dar ao governo do Brasil mais voz e voto". "O Brasil não apoiaria um modelo de órgão internacional com autoridade de dizer o que o Brasil deve fazer, mas sem uma voz suficiente do Brasil para influenciar suas decisões", indicou.

Dez anos depois, as reformas não foram completadas e, diante de um discurso populista e nacionalista, essas instituições vivem um de seus momentos mais críticos desde 1944.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)