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Neonazistas recorrem a games e memes para recrutar crianças

Jamil Chade

18/07/2019 04h00

 

Gudrun Burwitz fotografada com seu pai, Heinrich Himmler, em 1938; ele era um dos homens de confiança de Hitler (AP)

 

GENEBRA – O envolvimento de jovens em movimentos nazistas faz parte da própria história da ideologia. Mas, no século 21, entidades clandestinas têm usado justamente as novas tecnologias e até games para seduzir crianças, algumas a partir de 13 anos.

Isso é o que revela uma nova investigação conduzida por relatores da ONU (Organização das Nações Unidas) e que aponta para o fato de que o apoio a movimentos neonazistas no mundo está cada vez mais jovem e violento, principalmente na Europa e na América do Norte.

O documento, preparado pela relatora Tendayi Achiume, indica como esses jovens são vistos pelos grupos extremistas como "impressionáveis, sozinhos, marginalizados e buscando um sentido de identidade". Muitos, segundo a investigação, não têm a capacidade de distinguir entre verdade e informação falsa, o que os torna ainda mais vulneráveis.

Nos anos 1930, eram programas de rádio, acampamentos e escolas que garantiram a atração desses menores à Juventude Nazista. Dezenas de ligas foram criadas pela Alemanha com a finalidade de formar bases para a sobrevivência do modelo. A partir de 1936, meninos e meninas passaram a ser incluídos em grupos nazistas de forma compulsória.

"Hoje, grupos de ódio usam estratégias similares em seu modelo de recrutamento", alerta o documento da ONU. Mas, agora, contam com a tecnologia.

Um exemplo é o website neonazista Daily Stormer. Seu editor afirmou que o site foi "projetado principalmente para atingir crianças", com o objetivo de radicalização. "Para atrair crianças, esses sites incorporam música, atividades, jogos e personagens de desenhos animados", diz. "Alguns sites de ódio apresentam-se como sites educacionais e são preenchidos com informações falsas e interpretações intencionalmente distorcidas de trabalhos acadêmicos confiáveis", indica.

"Além disso, os grupos de ódio frequentemente empregam memes como um meio de levar as crianças a compartilhar crenças racistas."

A investigação também revela que líderes de grupos de ódio concentram seus esforços em atingir adolescentes universitários. Ali estariam "os futuros líderes dos movimentos". "Nos Estados Unidos, houve cerca de 300 incidentes documentados de circulação de panfletos racistas em mais de 200 campi", aponta o relatório.

"Após a mais recente eleição presidencial (nos EUA), os líderes nacionalistas brancos aumentaram seu recrutamento de estudantes universitários."

Games

Mas o recrutamento também é sofisticado. "Grupos de ódio se infiltraram cada vez mais no mundo de games como uma nova forma de atingir membros potenciais, incluindo crianças de até 13 anos", afirma. "Jogos de vídeo e fóruns relacionados a jogos, salas de bate-papo e sites de streaming ao vivo (YouTube, por exemplo) estão entre os espaços mais populares de recrutamento e radicalização neonazista", relata.

Um ex-simpatizante neonazista descreveu o processo usado. A estratégia começa com calúnias sobre diferentes raças ou religiões, uma espécie de estratégia para "testar as águas". Ele relatou que "uma vez que eles sentem que têm seus ganchos sobre os jovens, aumentam a velocidade da operação e então começam a enviar propaganda, links para outros sites ou começam a falar sobre tropas antissemitas racistas".

Num primeiro momento, ao se comunicar e se espalhar por outros espaços online, esses grupos evitam se apresentar como supremacistas brancos e apenas citam partidos que legalmente atuam no cenário eleitoral ou políticos populistas. Com isso, esperam ampliar a base social dos movimentos.

Segundo o informe, enquanto estão jogando, a doutrina é passada. "Espaços de games são mais populares para o recrutamento neonazista do que plataformas como o Facebook, possivelmente devido aos mecanismos de rastreamento deste último", explica a relatora da ONU.

A investigação não despreza, porém, o fato de que plataformas como o Facebook e o Twitter estejam sendo amplamente utilizadas. Mas, neste caso, o discurso é acima de tudo para aumentar o potencial de comunicação para recrutadores.

Outra maneira de seduzir os jovens é usando a música. Na avaliação do informe, ela teve "um papel importante nas estratégias de recrutamento". Com seu início nos anos 1980, a white-power music teria criado um terreno fértil para que esses extremistas passem a uma etapa mais direta de convencimento.

Em julho de 2018, por exemplo, foi organizado na Alemanha o festival Rock Gegen Überfremdung (Rock contra a dominação estrangeira). Pelo menos 6.000 pessoas estiveram presente. Mas o fenômeno vai muito além de um festival. Por ano, cerca de 150 shows são organizados na Alemanha, envolvendo diretamente 15 mil pessoas na produção ou distribuição de material de publicidade.

Motivação

Estudos mostram que os motivos dos jovens para se juntarem inicialmente a grupos de ódio não são principalmente ideológicos ou políticos. "Esses motivos estavam mais ligados a razões sociais e emocionais e à busca de afiliação, proteção, reconhecimento e aventura", indica o informe.

"Alguns estudos mostram que a frustração de certas necessidades psicológicas motiva muitas vezes os jovens a encontrar conforto através da adesão a grupos racistas extremistas", aponta. "A necessidade de pertencer é uma das necessidades psicológicas mais básicas dos seres humanos, e a procura de pertencimento, comunidade e significado pode levar os jovens a se juntarem a grupos extremistas violentos", diz a ONU.

"Esses grupos podem também proporcionar aos jovens um sentimento de segurança, incluindo a proteção contra a intimidação ou atormentação por outros", constata.

"À medida que os jovens se esforçam para encontrar sentido na vida e provar seu valor para si mesmos e para os outros, alguns estarão mais propensos a se envolver em comportamentos extremos e de alto investimento a serviço de valores idealistas. Entre esses valores estão a preservação, a promoção e a defesa do próprio grupo e os ideais de justiça e verdade", explica. "A conduta extremista oferece a certos indivíduos uma restauração da autossignificação ameaçada", declara.

Muitos ex-integrantes de grupos extremistas contam que, ainda crianças, foram alvos de condições adversas: "abuso físico na infância, abuso sexual, negligência emocional e física, encarceramento parental, abandono parental, testemunhos de violência grave e ruptura familiar".

"Vários estudos psicológicos têm provado que eventos deste tipo podem contribuir para uma maior probabilidade de radicalização neonazista e extremista", destaca a ONU.

No caso de um ex-membro neonazista, ele explicou sua "descida ao movimento neonazista americano" fez parte de uma busca por identidade e proteção diante de uma infância de abandono.

Avanço

Na avaliação da ONU, governos têm fracassado em lidar com o avanço desse fenômeno. "A ideologia neonazista está se tornando mais difundida na Europa e na América do Norte."

De acordo com o relatório, houve um aumento de 30% no número de grupos que pregam o ódio nos EUA desde 2014. Hoje, eles seriam mais de mil grupos. "Houve também um aumento de 182% na propaganda supremacista branca nos EUA nos últimos cinco anos", disse Achiume, observando que o típico neonazista ou seguidor de grupos de ódio é geralmente jovem, branco e homem.

De acordo com a investigação, as atividades neonazistas ocorrem por conta da persistência de ideologias supremacias dentro de administrações públicas, inclusive nos altos escalões de países europeus e nos EUA.

"A prevenção do extremismo neonazista continua a ser complexa e desafiadora porque, ao contrário de outras formas de extremismo, as ideologias neonazistas e outras ideologias supremacistas brancas são política e publicamente toleradas em muitas regiões", alertou.

A relatora indicou ainda que recebeu relatos alarmantes de crimes xenófobos e antissemitas perpetrados na Europa por grupos. Ela também ouviu relatos de incidentes que glorificaram regimes nazistas e fascistas em Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Lituânia, Suíça e Ucrânia, incluindo manifestações, bem como a construção de monumentos e a renomeação de ruas que glorificaram antigos líderes nazis ou fascistas.

O informe também revela como, na Europa, ataques e manifestações violentas de caráter neonazistas e extremistas têm aumentado desde 2011. Em 2017, o número de pessoas presas por crimes de extrema-direita foi quase o dobro do de 2016.

"Na Europa, as mensagens neonazistas e ideológicas conexas fazem muitas vezes parte do discurso dominante, e isto está relacionado com a ascendência política nacional e local de partidos que abraçam visões de extrema-direita, o que pode incluir ideologia racista enraizada em teorias de supremacia branca e etnonacionalismo", alerta a relatora.

"O endosso político de visões de extrema-direita ajuda no endosso mais amplo de tais visões, mesmo quando o discurso extremista islâmico permanece amplamente rejeitado na região", explica.

O relatora observa que a informação e os dados disponíveis sobre a implicação dos jovens no extremismo violento se concentram principalmente no extremismo islâmico. "Muito pouca informação está disponível sobre os programas contraextremistas centrados no extremismo de extrema-direita ou neonazista", lamenta.

Nos Estados Unidos, os extremistas de direita perpetraram 71% das mortes relacionadas ao extremismo entre 2008 e 2017.

"Apesar do aumento do extremismo neonazista e do extremismo supremacista branco, apenas alguns países europeus e da América do Norte abordaram a radicalização e o recrutamento por grupos de ódio nas estratégias nacionais de combate ao terrorismo, que estão largamente centradas no extremismo islamista", completa.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

Jamil Chade