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Jamil Chade

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Governo Bolsonaro resiste à maior participação de indígenas na ONU

Jamil Chade

15/07/2019 20h58


GENEBRA – Numa manobra diplomática, o governo de Jair Bolsonaro tenta resistir à possibilidade de que o Conselho de Direitos Humanos da ONU abra espaço para que os povos indígenas possam se expressar de forma institucional durante as reuniões. A atitude do Itamaraty deixou lideranças indígenas brasileiras irritadas.

O debate ocorreu nesta segunda-feira, em Genebra, durante um encontro do Mecanismo de Peritos da ONU sobre o Direito dos Povos Indígenas.

Pressionado pela comunidade internacional diante dos protestos de grupos indígenas por conta de ameaças que estariam sofrendo, o governo brasileiro optou por não apoiar a ideia de um maior espaço a lideranças tradicionais.

Nos últimos anos, a ONU vem recebendo apelos por parte de grupos indígenas para que, quando um assunto em debate envolva seus direitos, que lideranças desses povos possam também ser ouvidos de forma institucional. Hoje, indígenas apenas podem falar durante os poucos minutos que são reservados para declarações de ongs.

Governos como o da UE apoiaram a ideia de uma maior participação. A Suécia, em nome dos países nórdicos, indicou que as vozes dos indígenas "não são suficientemente ouvidas". Finlândia, Peru, México, Canadá, Bolívia, Austrália e Nova Zelândia também apoiaram a ideia.

Mas, ao tomar a palavra, o Brasil optou por um tom diferente e lembrou que, em Nova Iorque, a Assembleia Geral da ONU não conseguiu chegar a um consenso sobre como abrir espaço para os grupos indígenas nos debates do Conselho de Direitos Humanos.

"Apesar das intensas negociações, não foi possível chegar a um acordo sobre assuntos substantivos", declarou a delegação brasileira. O Itamaraty indicou que não seria contra o debate sobre o assunto em Genebra. Mas também alertou que não gostaria de ver uma "proliferação das negociações em diferentes fóruns".

"Acreditamos que decisões tomadas em Nova Iorque devam ser aplicadas para todo o sistema da ONU", argumentou o Itamaraty, numa forma diplomática de dizer que não aceitariam o debate em Genebra.

Outro argumento usado pelo Brasil foi o de que a abertura de espaços para a participação de indígenas na ONU deveria também ser considerado sob a ótica da "eficiência" dos trabalhos do Conselho.

Rayanne Baré, líder indígena que está em Genebra para as negociações, foi um das que protestou contra o posicionamento do governo brasileiro. "Isso significa que o Brasil quer a participação dos povos indígenas dentro desse espaço", disse. "Isso é muito preocupante", declarou.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)