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Jamil Chade

Jamil Chade

Quando "pessoas de bem" dão as mãos a ditadores sanguinários

Jamil Chade

12/07/2019 05h40

Sede da ONU, em Genebra. Foto: Jamil Chade

 

Aliado aos piores regimes do mundo em direitos humanos, parceiro de governos que questionam as mudanças climáticas, membro de movimentos racistas, incapaz de desenhar a fronteira entre religião e estado laico, o governo do Brasil não é apenas ridicularizado. Hoje, é também alvo de enorme preocupação internacional.

 

 

GENEBRA – Ao chegar ao prédio da ONU pela manhã, fui surpreendido por um comentário de um velho amigo que estava trabalhando na segurança da sede e que controla quem tem direito de entrar ao local: "só abro para o filho do presidente do Brasil".

Num tom de brincadeira, o segurança apenas anteciparia o que outros diplomatas estrangeiros logo me diriam com um tom de sarcasmo. "Que bom que ele fala inglês. Será que ele tuíta também em inglês?", disse uma delas, rindo.

Amplamente ridicularizado na imprensa internacional nesta manhã – que chegou a dizer que já temos a nossa Ivanka (Le Monde) – e de se transformar em notícia pelos motivos errados, o governo brasileiro teve a habilidade ímpar nas últimas semanas não apenas de esvaziar de credibilidade sua imagem pelo mundo. Mas de colocar o país como alvo de uma preocupação internacional.

Parte dessa tendência ocorre por conta de decisões pouco republicanas por parte de Bolsonaro, como a de nomear seu filho para a embaixada nos EUA. Na ONU, apenas ditadores como Saddam Hussein ou Gaddafi nomearam seus parentes para cargos semelhantes. E, em muitas ocasiões, o objetivo era o de aproveitar que a sede da ONU estava na Suíça para também fazer uma ponte com os bancos locais.

Mas não foi apenas uma reação superficial de surpresa diante de um nepotismo claro. O que causou preocupação internacional foi o fato de o escolhido para ser embaixador ser o representante na região latino-americana de Steve Bannon em seu Movement, um caminho ultraconservador, racista e, acima de tudo, anti-globalista.

Uma representante de um governo acostumado a lidar com a Casa Branca fez uma ressalva: "Washington não respeita lacaios".

Novos Amigos

A procura de ongs ultraconservadoras por se aliar ao Brasil também se transformou em motivo de surpresa nos corredores da ONU. Num recente episódio, um representante de uma ong que denuncia o "lobby gay" no mundo foi visto conversando com a delegação brasileira. Rapidamente, diplomatas latino-americanos pegaram seus celulares para fazer fotos daquele momento inusitado e, claro, compartilhar a imagem. Uma piada? Sim. Mas logo acompanhado por uma enorme preocupação sobre o que tal aproximação poderia querer dizer.

Dias depois, o Brasil decidiu participar de um evento patrocinado pela ong ultraconservadora ADF International.

Para além das alianças e simbolismos, a realidade é que são os fundamentos da nova política externa que chacoalharam com a forma que o resto do mundo passou a enxergar o Brasil. De uma situação de chacota, o governo brasileiro agora passou a ser, de fato, motivo de apreensão. O temor é de que, ao tomar posturas simpáticas a governos autoritários, o Itamaraty esteja simplesmente ajudando a desmontar o consenso que existe no Ocidente sobre o valor dos direitos humanos e de liberdades.

Por seu peso, há quem tema que o Brasil consiga arrastar consigo outros votos, outros países, a uma direção de questionamento até mesmo de conceitos que pareciam sólidos no direitos internacional.

Quando um país pequeno ignora documentos internacionais que servem de marco para os direitos humanos como a Declaração de Pequim dos Direitos das Mulheres de 1995, ninguém se preocupa. Mas quando o Brasil da sinais de que está em uma cruzada para minar o sistema de leis e conceitos, um impacto sísmico é sentido.

Nos últimos dias, sob a justificativa de defender os valores da família, o governo Bolsonaro na prática abandonou o grupo de países ocidentais para se aliar a propostas estapafúrdias dos sauditas, paquistaneses, afegãos e outros islâmicos ao tentar limitar direitos das mulheres na ONU.

Países que diariamente violam os direitos de "pessoas de bem". Países que matam quem pensa diferente. Países que querem, entre outras coisas, a destruição de Israel, uma referência aos grupos evangélicos no Brasil.

Curiosamente, a sempre vocal embaixadora na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, ficou muda. Não explicou em nenhum momento as decisões do Itamaraty sobre a família diante dos demais países.

Vergonha, falta de instrução da capital ou decisão deliberada de não prestar contas?

Será que as pessoas de bem não mereceriam saber o motivo da guinada por parte do governo? Afinal, o chanceler insiste que a nossa nova política externa tem como base a vontade popular.

Na quinta-feira, um embaixador latino-americano de grande influência na região desabafou: "precisamos do Brasil do lado certo da história. Que piada é essa de defender a visão saudita dos direitos humanos?!?"

Entre os diplomatas estrangeiros, a tese é de que os votos brasileiros por resoluções ultraconservadoras sejam cuidadosamente calculados para que o país tenha o apoio de ditaduras e mesmo da Rússia para temas de seu interesse ou candidaturas para cargos internacionais.

Mas, se esse for o caso, a pergunta que deve ser feita é simples: onde estão os princípios desse governo de "pessoas de bem"? Vendem suas filhas em troca de apoio político?
Orloff

As decisões foram além. Numa resolução proposta pelos europeus e que pedia que as 27 mil mortes nas Filipinas de Duterte fossem investigadas, o Brasil se absteve e não apoiou a ideia de um inquérito internacional.

Rapidamente, a postura foi interpretada como um temor do governo Bolsonaro de que seja, em alguns meses, o próximo a ser alvo de uma investigação internacional por sua "guerra contra a violência". "É o efeito Orloff", ironizou um observador na ONU.

Em suas promessas de campanha para um cargo de mais três anos no Conselho de Direitos Humanos da ONU, o governo Bolsonaro abandonou todas as referências aos direitos dos grupos LGBT, assim como omitiu a homofobia ou qualquer combate à tortura.

Entre os diplomatas brasileiros pelo mundo, o sentimento de muitos é de enorme constrangimento. Vários deles estão satisfeitos por estarem tão distantes do poder que sequer são lembrados. Outros, começaram a contar os dias até as próximas eleições, enquanto alguns buscam remoções, se apresentam para empregos fora da diplomacia e até pedem um período de afastamento.

Dezenas deles em grandes capitais pelo mundo emergente e rico ainda tentam, de forma republicana, influenciar os rumos da política externa, fazendo sugestões corajosas. Outros, simplesmente prendem a respiração, esperando aguentar mais três anos e meio.

Mas a cada golpe, sabem que a distância para que recuperem a credibilidade fica ainda maior. Pior: temem pelas instruções que receberão no dia seguinte.

Aliado aos piores regimes do mundo em direitos humanos, parceiro de governos que questionam as mudanças climáticas, incapaz de desenhar a fronteira entre religião e estado laico, o Brasil não é apenas ridicularizado. Hoje, é também alvo de enorme preocupação internacional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)