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Jamil Chade

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“Queremos diálogo”, diz líder independentista catalão

Jamil Chade

09/07/2019 04h00

6.abr.2018 – O ex-líder catalão Carles Puigdemont deixa prisão em Neumuenster, na Alemanha (Fabian Bimmer/Reuters)

 

GENEBRA – Carles Puigdemont chacoalhou a Europa há cerca de 20 meses, organizando sem a autorização do estado espanhol uma votação na Catalunha para determinar sua independência, uma reivindicação histórica. O voto ganhou as manchetes de todo o mundo diante de incidentes de violência por parte da polícia espanhola e abriu um profundo mal-estar na sociedade catalã, dividida.

Puigdemont teve de se refugiar na Bélgica, enquanto alguns de seus aliados estão na Suíça e outros tantos presos. Em entrevista exclusiva ao blog em Genebra onde participava de um seminário, o líder catalão deixa claro que não abriu mão de seu projeto e defende um diálogo com o estado espanhol.

Na semana passada, ele esperava assumir sua cadeira no Parlamento Europeu. Mas teve sua posse negada. Nas eleições, partidos que defendem a independência da Catalunha ganharam quatro dos 54 lugares no Legislativos em Estrasburgo. O partido de Puigdemont ficou com 1,7 milhão de votos e terminou na primeira colocação na Catalunha, com 28,5% dos votos.

Mas a Junta Eleitoral espanhola não incluiu seu nome na lista dos eleitos, ao enviar os resultados para a UE. O motivo: a acusação contra o líder separatista de ter organizado de forma ilegal o referendo em 2017, promovendo a independência da Catalunha.

A Justiça Europeia, assim, decidiu que Puigdemont não pode tomar posse como eurodeputado. Vivendo na Bélgica desde que deixaram a Espanha para não serem presos, há um ano e oito meses, ele ainda espera reverter a decisão.

"Está em jogo, além da credibilidade da democracia europeia, os votos de mais de 2 milhões de europeus que votaram por minha candidatura ou de outros líderes. Eles podem ficar sem essa representação. se pudemos nos apresentar para a eleição e de tivemos votos, não existem motivos jurídicos para nos deter", disse. "A UE precisa respeitar a vontade de 2 milhões de pessoas", insistiu.

Meses depois de sua decisão de organizar uma votação na Catalunha sobre a independência e que abriu uma crise sem precedentes na história da Espanha democrática, Puigdemont alerta: a questão da Catalunha não será decisiva pela via judicial.

"20 meses depois de prisões e exílios, é impressionante que não se tenha entendido que isso é um problema político", disse. "Um processo que necessita menos código penal e muito de parlamento, reconhecimento, processos políticos e dialogo", afirmou.

Ele, porém, indica que se houver um dialogo, não se pode colocar pré-condições. "Não se pode ir à mesa com uma linha de impedimento. Não se pode ir renunciando de casa. Temos que ir com nosso projeto.

"Temos um projeto claro. O que não sabe é qual é o projeto espanhol, a não ser a repressão", atacou. "Seria interessante saber qual é a posição deles. Será que existem pontos em comum? Será que podemos ter acordos no futuro?", questionou.

O diálogo, segundo ele, não envolveria abrir mão de imediato de seu projeto de independência. "Não podemos renunciar nada de casa. Temos que ir com suas posições. Não é justo que, para que haja um diálogo, uma das partes renuncie desde o começo ao seu projeto", afirmou.

"Mas sabemos que, numa negociação, existe um jogo. É obvio. Dialogo é isso. Confiança, reconhecimento. Esse seria o grande passo que ainda não se deu na Espanha. E no momento não aceitou o diálogo", lamentou.

Nacionalismo

O líder independentista ainda rejeita a tese de que o nacionalismo catalão faria parte de uma onda de divisões na sociedade que poderiam ameaçar a UE.

Ele não deixa dúvidas: "existem nacionalistas muito perigosos". "Duas guerras mundiais foram feitas por nacionalismo de estado", lembrou. Mas o projeto catalão não poderia ser classificado dessa forma.

"No temos nem uma raiz étnica, nem queremos excluir, nem temos pretensões territoriais. Não temos a sensação de termos de atacar ou defender. Nossa reivindicação está vacinada da questão étnica. Quem é catalão? Quem quiser ser", disse.

"Não é algo nem de sangue e nem de solo. É da vontade. Quem quer ser catalão, que seja. Não pedimos árvore genealógica, nem propriedade na Catalunha", insistiu.

Para ele, seu movimento não debilita a UE. "Pelo contrário. A UE é a diversidade", disse. "O que debilita a UE é a tentar unificar o que é muito diverso. É tentar negar as realidades nacionais, que são muito diversas. Se não se reconhece a diversidade, a UE não pode funcionar", completou.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)