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Acordo com Mercosul não é endosso de políticas de Bolsonaro, diz UE

Jamil Chade

20/06/2019 07h58

 

 

GENEBRA – Questionada por centenas de cientistas e ongs sobre sua aproximação ao governo Bolsonaro, a UE garante que um eventual acordo comercial com o Mercosul não significará que o bloco europeu simplesmente passará a endossar as políticas sociais, de direitos humanos e ambientais do atual presidente do Brasil.

"De nenhuma forma concordamos com tudo que o presidente do Brasil diz ou propõe", afirmou a comissária de Comércio da UE, Cecilia Malmstrom, em um evento em Genebra para defender a proibição do comércio de produtos que possam ser usados em atos de tortura. "Um acordo comercial não é um endosso de políticas nacionais. Se fosse, seriam poucos os países com os quais poderíamos fazer comércio", constatou.

Depois de 20 anos de negociações, um acordo entre o Mercosul e a UE está perto de ser concluído. Do lado sul-americanos, concessões importantes foram apresentadas, na esperança de que haja uma reciprocidade do lado dos europeus.

Uma das ideias é de que uma reunião ministerial seja realizada até o final do mês para tentar fechar o entendimento.

Mas, nas últimas semanas, dezenas de entidades, ongs e ativistas tem questionado a UE sobre o impacto que terá o acordo, principalmente ao dar uma espécie de legitimidade internacional ao governo de Bolsonaro.

Numa carta enviada esta semana à Comissão Europeia, mais de 340 entidades de direitos humanos e ambientais pediram a suspensão imediata da negociação.

Questionada pelo blog sobre a incompatibilidade entre as propostas de Bolsonaro no campo de direitos humanos e um acordo com o Brasil, a comissária deixou claro que o entendimento da UE é de que haverá um espaço para também se discutir assuntos sociais.

Segundo ela, o capítulo comercial da aproximação entre UE e Mercosul fará parte de um acordo-quadro mais amplo e que também tocará em aspectos políticos. Malmstrom indicou que haverá um compromisso de ambos os lados para "discutir assuntos relacionados com a sociedade civil, direitos humanos, meio ambiente".

"Estar em volta de uma mesa e pelo menos conseguir uma possibilidade para conversar sobre isso pode dar uma plataforma para possivelmente influenciar alguns desses temas", disse a comissária.

"Não tenho certeza que vai resolver, mas criará plataformas para discutir vários assuntos em que estamos em desacordo", declarou.

A comissária, apesar dos questionamentos da sociedade civil e da resistência de parte de fazendeiros europeus, ainda acredita que um acordo pode ser fechado. "Acho que pode ser feito", concluiu.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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