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Jamil Chade

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Sob suspeita, procurador suíço que lidera Lava Jato tem reeleição adiada

Jamil Chade

2010-06-20T19:13:17

10/06/2019 13h17

Procurador-geral da Suíça, Michael Lauber, é acusado por advogado de reu na Lava Jato. Foto: Jamil Chade. Maio de 2019

 

GENEBRA – A eleição do novo procurador-geral da Suíça é adiada para o segundo semestre do ano diante de denúncias de que o chefe do MP, Michael Lauber, teria violado procedimentos e mantido reuniões secretas. Lauber concorre a um novo mandato e a votação do Parlamento estava marcada para este mês.

Mas a revelação sobre encontros secretos de Lauber com partes sob investigação levaram as autoridades de controle do MP suíço a abrir um inquérito disciplinar contra o Procurador Federal. A votação e sua eventual reeleição, portanto, foram agendadas para setembro.

Michael Lauber é suspeito de ter mantido reuniões informais e não declaradas com o presidente da Fifa, Gianni Infantino. O problema: Lauber também investiga a Fifa desde 2015 e seus cartolas pelo escândalo de corrupção que levou à prisão mais de uma dezena de dirigentes e operadores do futebol.

O que o inquérito quer saber, agora, é se Lauber violou seus deveres de função ao manter reuniões não declaradas com o presidente da entidade que ele mesmo investigava.

O encontro com Infantino, outro suíço, não seria um ato ilegal. Mas Lauber não os documentou e nem os informou aos demais procuradores.

Lava Jato

A Procuradoria-Geral também é acusada por advogados de ter mantido reuniões secretas com procuradores brasileiros envolvidos na Operação Lava Jato. Não há garantias de que o procurador-geral estivesse nesses encontros.

Foi Lauber quem autorizou dezenas de processos de cooperação com o Brasil, permitindo a condenação de vários suspeitos, entre eles Eduardo Cunha.

Foi sua cooperação que também garantiu o congelamento de US$ 1,1 bilhão em contas secretas na Suíça, supostamente de esquemas de corrupção no Brasil.

Agora, quem conduz o processo sobre Lauber é Hanspeter Uster, que declarou que "possíveis violações de deveres oficiais por parte do Ministério Público Federal no âmbito do complexo processual da Fifa deveriam ser esclarecidas no âmbito do direito disciplinar".

O inquérito deve ser realizado por um "perito externo", que ainda será escolhido. O especialista deve esclarecer, por exemplo, a que serviram as reuniões de Lauber com Infantino e se houve alguma manipulação.

Lauber se recusa a deixar o cargo e insiste que não fez nada de ilegal. Ele tampouco abre mão de mais um mandato e se mantém na corrida pelo cargo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)