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Jamil Chade

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Fragmentada, UE vê avanço de aliados de Bolsonaro e surpresa de ecologistas

Jamil Chade

26/05/2019 20h35

 

GENEBRA – A eleição europeia neste domingo encerrou décadas de dominação de partidos de centro e fragmenta o poder no Parlamento Europeu.

Se de um lado alguns dos principais aliados e simpatizantes do governo de Jair Bolsonaro saíram fortalecidos nas urnas, os europeus deixaram claro que a resistência está viva e que será intensa contra a extrema-direita populista.

A eleição foi a primeira desde 1979 a ver um aumento no número de eleitores, um sinal interpretado como uma presença importante dos jovens nas urnas. Para analistas, o fim de semana representou um momento crítico na história do bloco.

 

Populistas

Na Itália, Matteo Salvini comemorou uma ampla vitória de seu partido populista. Ele deve somar entre 27% e 31% dos votos, bem acima dos 6% obtidos em 2014. Salvini é um dos raros líderes europeus a elogiar abertamente Bolsonaro.

Na Hungria, outro simpatizante do governo brasileiro também saiu vitorioso. Viktor Orbán ficou com 13 dos 21 assentos no Parlamento destinados aos representantes húngaros.

Na França, a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, comemorou a vitória nas urnas, com 23% dos votos. Na Alemanha, os populistas ficaram em quinto lugar e, mesmo com um amplo escândalo de corrupção na Áustria, o partido de extrema-direita terminou na terceira colocação.

Juntos, partidos nacionalistas e populistas poderiam somar mais de 110 assentos no parlamento de 751 lugares. No Reino Unido, o grupo pró-Brexit também saiu vitorioso.

O que une muitos deles: ataques contra imigrantes, defesa da soberania, dúvidas sobre as mudanças climáticas e o fortalecimento de bandeiras patrióticas. Com diferentes graus de variação, todos criticam o poder de Bruxelas, insistindo que a Europa precisa voltar a ser um continente de nações soberanas.

Há menos de um mês, o chanceler Ernesto Araújo fez uma turnê justamente por alguns desses países europeus, no que poderia ser um roteiro provável para uma primeira viagem de Bolsonaro para o Velho Continente. Eduardo Bolsonaro, uma espécie de chanceler extra-oficial, também viajou aos países onde a extrema-direita venceu.

O resultado nas urnas neste fim de semana ocorre diante de um colapso dos partidos tradicionais de centro-direita e de centro-esquerda. Ainda que tenham terminado em primeiro e segundo lugar, respectivamente, cada um deles perdeu entre 39 e 40 assentos.

O CDU, partido de Angela Merkel, foi a imagem dessa tendência. A grupo continuou como líder na votação. Mas com o pior resultado de sua história.

 

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban (GETTY IMAGES)

 

Resistência

Mas se a extrema-direita populista comemora em alguns países, a grande novidade das urnas foi o fortalecimento inesperado dos partidos Verde, em praticamente toda a UE. No Parlamento, o bloco deve passar a ter 67 assentos, o maior salto já registrado pelo grupo e 17 a mais que em 2014.

Ska Keller, uma das líderes dos ambientalistas e que é uma das candidatas ao cargo de presidente da Comissão Europeia, interpretou o resultado das urnas como um claro sinal de que existe um mandato hoje por uma Europa mais social e mais democrática. Ela ainda condicionou qualquer aliança a um grupo político à sua reivindicação ambiental.

Fragmentado e sem uma maioria clara, os ambientalistas devem ser tornar decisivos para a formação de uma coalizão.

Na Alemanha, o partido Die Grunen terminou em segundo lugar, com o dobro de votos do que havia obtido em 2014. O partido Verde também ficou em segundo lugar na Finlândia, enquanto na França atingiram o terceiro lugar. Na Irlanda, o partido triplicou seu resultado e resultados expressivos ainda foram vistos na Bélgica, Austria, Suécia e Dinamarca.

Já Portugal conseguiu, pela primeira vez, eleger um deputado do partido ecologista.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)