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Jamil Chade

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Combate à fome não pode ter ideologia, afirma pai do Fome Zero

Jamil Chade

12/05/2019 04h00

José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO e um dos criadores do Fome Zero (JAMIL CHADE)

GENEBRA – Considerado como um dos pais do programa Fome Zero, José Graziano da Silva faz um alerta: o combate à fome não tem ideologia e não pode ser afetado por uma mudança de governo.

"Quando você está no governo, você deixa de ser de esquerda ou direita. É preciso ser prático e mostrar resultado", disse. "E, para mostrar resultado, você não pergunta se a pessoa é fascista ou comunista. Ela passa fome? Tem que chegar comida a ela", afirmou.

Graziano da Silva recebeu o blog para uma longa conversa sobre o fim à frente da direção da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Ele foi eleito em junho de 2011 e, em meados deste ano, conclui seu segundo mandato.

Sua análise é que o combate à fome não é apenas uma decisão de governo. "É uma sociedade que decide acabar com a fome. Não um governo", disse.

Ele cita um exemplo dos EUA. "Lá, eles decidiram acabar com a fome no século 19 e fizeram um grande programa de ajuda que sobrevive até hoje, na forma do Food Stamps", disse. "Entra governo e sai governo, democrata ou republicano, e ninguém pergunta se esse programa vai acabar. O Brasil criou alguns programas desse tipo, como a alimentação escolar. Isso não pode acabar, especialmente sob a alegação de que esse tipo de programa difunde ideologias. São coisas que precisam ser preservadas em qualquer contexto", disse.

Ele evita fazer uma análise das políticas adotadas pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL). Mas antecipou que, no caso do Brasil, a recessão e o aumento do desemprego geraram uma alta no número de pessoas que enfrentam insegurança alimentar. Os números, porém, serão revelados no meio do ano.

Na conversa, o brasileiro fez um balanço de sua gestão, alertou para o avanço da obesidade, apontou para os riscos de ataques contra o multilateralismo e examinou a crise na Venezuela. Eis os principais trechos da entrevista:

UOL – Há uma tendência muito forte, principalmente nos países ricos, de valorização dos produtos agrícolas regionais. Como o sr. avalia isso?

José Graziano da Silva – Eu tenho insistido nesse tema. O Brasil fez uma aposta muito perigosa ao se concentrar na exportação das commodities agropecuárias.

Em termos de saúde ou de comércio?

Em termos de futuro de país. Um exemplo é o suco de laranja concentrado. Nos anos 80/90 foi muito bem. Mas, em questão de anos, a produção de laranja praticamente desapareceu em algumas regiões de São Paulo e a cana de açúcar voltou. Dois elementos pesaram. Primeiramente, a mudança da demanda. O consumidor está preferindo o suco de laranja fresco, não o suco em caixinha, ultraprocessado, com alto teor de açúcar. Em segundo lugar, tivemos o impacto de uma bactéria que veio da China e que dizimou parte dos laranjais paulistas.

Mas essa aposta foi resultado de uma visão de mundo de que o Brasil abasteceria o planeta com suas commodities…

Olha, aparecem as oportunidades. O Brasil sempre as aproveitou muito bem, pois tem uma agricultura com uma capacidade de resposta muito rápida. Nós passamos por todos os ciclos –borracha, açúcar, cana e café– e essa aposta se generalizou quando a demanda de produtos como a soja e o milho por parte da China se intensificou a partir dos anos 90. Desde então, passamos por um verdadeiro processo de desindustrialização.

Deixamos de apostar na transformação do valor agregado de produtos, que era o percurso brasileiro de substituição de importação no pós-Guerra e talvez um dos modelos mais bem-sucedidos da América Latina. As commodities agrícolas puxaram esse processo de desindustrialização com a volta das exportações de produtos in natura. Na época, era um excelente negócio. Mas isso tende a mudar rapidamente. E o caso da laranja que contei é um exemplo disso. Todos foram ao suco e perdemos os mercados da laranja de mesa, que é o "filé mignon", hoje ocupado por Israel e Espanha na Europa. Isso tudo tem um aspecto particular na questão dos produtos locais e uma relação com a obesidade.

9.out.2017 – José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, durante entrevista coletiva em Roma (Itália), cidade-sede da entidade (DIVULGAÇÃO/FAO)

De que forma?

Na medida em que comer deixou de ser uma necessidade básica para grande parte da população mundial. Hoje, não se come apenas para matar a fome. Hoje, se come também por prazer, com essa abordagem "gourmet", em que se aprecia cozinhar entre amigos, por exemplo. Isso tem levado também a uma maior demanda de busca da origem desses produtos. A tendência é você buscar aquilo que está perto de casa, os produtos de proximidade. Ir a feiras livres e encontrar os produtores, saber da origem do produto. Isso é uma atividade cada vez mais comum no mundo desenvolvido, a alimentação como um misto de cultura, de prazer e de necessidade.

Mas esse não é o modelo da agricultura brasileira em seu papel no mundo?

De fato, grande parte da população mundial ainda baseia sua alimentação nas commodities. Isso não consegue ser mudado radicalmente. Frutas e verduras, em comparação às farinhas e grãos, têm preços mais elevados. Então, uma grande parte da população mundial de renda mais baixa não tem acesso a essa dieta mais saudável com base em produtos frescos. Isso dá um fôlego aos exportadores de commodities. Mas cada vez mais teremos mais competição e preços mais baixos. Em 2019, todos os preços estão em queda generalizada e tudo indica que vão continuar assim para o próximo ano.

Outro aspecto é que, quando cai a renda, você não aumenta mais o consumo de commodities. E, quando sobe a renda, você diminui o consumo dessas commodities básicas, tipo grãos. Então, pelos dois lados a situação se complica. Ou pela redução do consumo de produtos ultraprocessados ou pela queda da renda.

A obesidade já é um problema maior que a fome?

Na nossa região (América Latina), o número de obesos já é maior que o das pessoas com fome. Em média, é 22% da população latino-americana nessa condição contra um índice de insegurança alimentar de 7%. Em parte, isso ocorre por conta da queda do número de pessoas famintas. Chegamos a números muito baixos ali: são cerca de 30 milhões. Mas, em parte, vemos um aumento assustador da obesidade. Também vemos isso nos EUA, pela adoção de um novo padrão de alimentar, baseado em produtos ultraprocessados, com alto grau de açúcar e sal. O curioso é que as mais populares redes mundiais de fast-food têm feito um enorme esforço para se afastar e se desvincular dessa imagem.

Até que ponto o modelo comercial contribui para esse fenômeno?

O Caribe é um exemplo disso. Existem fatores culturais também, mas há o fator da importação de alimentos. Tem uma relação direta com a substituição da alimentação deles por produtos importados, frequentemente ultraprocessados. Isso está mais que comprovado, com evidências.

A abertura dos mercados, sem regulação, trouxe a obesidade.

O México é outro caso. Pela importação de produtos americanos, vemos uma mudança na obesidade relacionada à mudança no padrão de alimentar e à substituição de produtos básicos. Uma coisa é comer o milho na forma de tortilha. Outra coisa é comer todos esses "corn flakes" e produtos açucarados, principalmente entre crianças. Sem uma norma que regule o comércio de produtos não saudáveis, é muito difícil controlar a epidemia da obesidade, que está fora de controle. Nas ilhas do Pacífico, cerca de 60% da população já está obesa.

E existem exemplos de como frear tais fenômenos?

No Chile, esses produtos passaram a ter suas vendas proibidas nas cantinas escolares. Só isso já fez uma grande diferença em poucos anos. Um outro bom exemplo chileno é a rotulagem de produtos, especialmente o modelo frontal, que especifica de maneira muito clara se aquele alimento tem teor excessivo de sal, açúcar e óleos. Adotado há alguns anos no país, essa rotulagem já é responsável por reduzir a obesidade, particularmente entre as crianças.

2.fev.2013 – Há dez anos, o governo federal lançava em Guaribas, no sul do Piauí, o Programa Fome Zero, com o objetivo de erradicar a miséria (AGÊNCIA BRASIL)

E no Brasil?

O Brasil é um dos países onde a obesidade mais cresce e ainda estamos discutindo que modelo de rotulagem adotar. O índice de população obesa passou de 6,6% em 1980 para 22% em 2016. O crescimento dessa obesidade tem uma relação com a urbanização e tem relação com a mudança de nosso hábito alimentar. Nós também estamos trocando nosso arroz com feijão por mais farinhas, massas, produtos ultraprocessados e frituras. Na USP (Universidade de São Paulo), existem estudos que mostram que a obesidade está relacionada com o aumento do consumo desses ultraprocessados. A classificação consagrada pelo professor brasileiro Carlos Monteiro, que é reconhecida mundialmente, divide os alimentos entre frescos, levemente processados, processados e ultraprocessados.

E se sabe, hoje, que a obesidade está intimamente ligada ao aumento considerável do consumo dos ultraprocessados. São produtos de baixo valor e alto conteúdo energético. Isso tudo ainda é ampliado pela tradição brasileira de comer –e beber– muito açúcar.

Nos setores que saíram da extrema pobreza hoje no Brasil, a obesidade já é maior que o risco da fome?

Sem dúvida. Nós ainda temos fome em todo o mundo, associada aos conflitos e impactos de mudanças climáticas. Mas, em países como o Brasil e na América Latina em geral, a fome está associada à insuficiência de renda para poder comprar uma cesta básica.

A fome hoje que persiste no Brasil se concentra nas zonas de pobreza extrema, mas a obesidade está por todo lado… Fome e obesidade são duas faces opostas da mesma moeda: a falta de acesso a alimentos saudáveis menos processados.

Essa fome aumentou no Brasil?

Ainda não temos as evidências claras disso. Em julho próximo, quando lançaremos pela primeira vez em Nova York o relatório das Nações Unidas sobre segurança alimentar e nutricional, vamos conhecer os números de 2018. Até agora, o que se pode antecipar é um aumento da insegurança alimentar em geral devido à crise econômica, com aumento do desemprego.

Na América do Sul, existem indícios de um aumento da fome?

Nossas evidências continuam a apontar que a região que mais sofre um impacto econômico é a América Latina, diferentemente de outras regiões do mundo, em que os conflitos são fatores mais diretamente ligados ao aumento da fome. A América Latina era a região que mais tinha avançado, e hoje infelizmente vemos um retrocesso. O sistema de cobertura por meio de políticas de proteção social era mais abrangente e mais consolidado. E isso está se diluindo. À medida que esses alicerces são comprometidos, a fome volta, a fome aumenta. Como tem acontecido, de maneira mais emblemática, na Venezuela.

A Venezuela chegou a receber da FAO um prêmio por ter atingido metas de redução da fome.

Sim, isso foi em 2014. Foi tudo perdido. A Venezuela foi um dos 72 países reconhecidos pela FAO por ter atingido a Meta de Desenvolvimento do Milênio por reduzir pela metade a fome antes de 2015. Nesse período, o país chegou a ter um índice de fome que variava em apenas 4% a 6% da população. Hoje, estamos falando para um índice acima de 15%. Isso significa que a fome triplicou em um curto período de três ou quatro anos.

Há uma explicação?

O problema no setor alimentar tem uma relação com o colapso econômico do país. Isso começa com a queda dos preços de petróleo, continua com um problema muito complicado de má gestão econômica interna. E, agora, agravado pelo bloqueio [dos EUA]. O bloqueio vem colocar uma pá de cal no assunto. Num país que depende de importações, bloquear a compra de alimentos nada mais é do que usar a fome como arma de guerra. E é isso que está ocorrendo na Venezuela hoje. A FAO é a única agência da ONU que tem os números consolidados, que serão divulgados também em julho. Mas nosso prognóstico inicial é que houve uma piora. Há uma queda do PIB [Produto Interno Bruto] de 15% neste último ano, que se reflete diretamente no aumento da pobreza.

3.fev.2003 – O ministro José Graziano, da Segurança Alimentar e Combate à Fome, participa do lançamento do programa Fome Zero na cidade de Guaribas (PI), a primeira a receber o benefício (FLÁVIO FLORIDO/FOLHAPRESS)

E como o sr. avalia as políticas nessa área de alimentação no Brasil hoje?

Acho cedo para julgar o que está ocorrendo no Brasil. O país está passando por uma mudança e procurando um novo caminho. Eu fico um pouco assustado com o peso ideológico que existe nessa busca por um novo caminho. Quando você está no governo, você deixa de ser de esquerda ou direita. É preciso ser prático e mostrar resultado. E, para mostrar resultado, você não pergunta se a pessoa é fascista ou comunista. Ela passa fome? Tem que chegar comida a ela. De todo jeito, prefiro ainda esperar para ver o que o governo vai mesmo fazer.

Vimos o fim do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e um afastamento da participação da sociedade civil. Como o sr. avalia?

Nossa experiência é que não se vence a fome sem uma forte participação social. É uma sociedade que decide acabar com a fome. Não um governo. O governo não decide acabar com a fome. O governo ajuda, mas não determina. O exemplo vem dos EUA. Lá, eles decidiram acabar com a fome no século 19 e fizeram um grande programa de ajuda que sobrevive até hoje, na forma do Food Stamps. Entra governo e sai governo, democrata ou republicano, e ninguém pergunta se esse programa vai acabar. O Brasil criou alguns programas desse tipo, como a alimentação escolar. Isso não pode acabar, especialmente sob a alegação de que esse tipo de programa difunde ideologias. São coisas que precisam ser preservadas em qualquer contexto.

Quais são as evidências que o sr. tem de que mudanças climáticas poderão causar fome no mundo?

O maior impacto no momento é no leste da África, passando por Etiópia, Somália, Quênia e Tanzânia. Esses países perderam safras seguidas por conta das secas prolongadas e da alteração do regime de chuvas. A Etiópia havia vencido a fome e hoje retrocedeu. Atualmente, o país depende de programas de ajuda alimentar. E isso por conta de mudanças climáticas, que vão reduzindo a fertilidade do solo. As épocas de chuvas ainda estão concentradas em menos dias. Mas, como evidência maior, o que estamos vendo é o avanço do deserto, sobretudo na África, no Sahel. O deserto está caminhando.

Qual é a resposta?

Há o esforço de reduzir a emissão de gases através da mitigação. Encontrar outros modelos produtivos para escapar dessa situação. Mas a agricultura é o único setor produtivo que sequestra carbono. Ao produzir, melhoramos o clima. Mas a questão é como produzir. Hoje, é a defesa de uma redução de fertilizantes e defensivos químicos. Temos hoje disponível toda uma tecnologia para a agricultura, que ajudaria a reduzir as emissões, até na pecuária. O boi de pasto, o boi verde, se não derrubar floresta, não é um grave problema para o clima.

Na Europa, há uma percepção de que os atuais níveis de consumo de carne não são sustentáveis. Hoje, o sr. diria que a agricultura é sustentável?

Não, não é. A agricultura precisa se adaptar aos novos tempos. A agricultura de hoje pode ser dividida em dois grandes grupos: uma de subsistência e outra que usa a tecnologia da Revolução Verde. Essa revolução nos anos 60 e 70 teve uma enorme repercussão positiva. Não fosse ela, teríamos tido uma fome arrasadora na Ásia. Essa revolução permitiu aumentar os níveis de produtividade, usando fertilizantes químicos. Mas hoje, como padrão de produção, a Revolução Verde está esgotada. Não há como continuar um aumento de rendimentos com essa forma de tecnologia. Teria de incorporar novas áreas, desmatando, o que seria um desastre climático ainda maior. O problema da agricultura é se adaptar às mudanças climáticas em curso, como o aumento da temperatura e a escassez de água. Não temos como encontrar outra forma de produzir sem usar os recursos básicos, como sol, água e solo.

O sr. está chegando ao fim de seu mandato na FAO, em julho. Que entidade o sr. encontrou quando chegou em 2012?

Eu encontrei a FAO da Revolução Verde, que fez um grande esforço de levar essa tecnologia ao mundo. Ela promoveu essa revolução. Desde os anos 1970 havia a esperança de que, aumentando a produção de alimentos, se acabaria com a fome. Não se imaginava, no entanto, que a fome não era um problema da falta de alimentos –mas, sim, de acesso. Essa ideia foi tornando clara nos anos 1990, quando começam as políticas de transferência de renda. Eles mostravam que, quando se melhora o acesso aos alimentos, se reduz os índices de fome muito mais rapidamente do que simplesmente aumentando a produção.

A FAO teve de se transformar para voltar às suas origens. Antes, dávamos muita atenção à agricultura e pouca aos alimentos. Achava-se que, promovendo a agricultura, resolveríamos todos os problemas. Não era bem assim. O nosso problema era encontrar formas de alimentação. Também passamos a olhar mais o que as pessoas comem, as dietas e a má nutrição em geral. Nosso compromisso em erradicar a fome e todas as formas de má nutrição depende muito da agricultura. Mas não apenas dela. Temos de olhar para fora da agricultura. Quando eu cheguei, a FAO estava num gueto agrícola, quando a fome estava no mundo urbano. A fome não era mais na produção. Mas na comercialização e acesso. E essa é a FAO que tento consolidar.

Houve uma resistência?

Sempre que há uma mudança há resistência. Até que os novos paradigmas sejam consolidados, você vive um embate de gerações distintas. Hoje, a FAO não tem só agrônomos. Contamos como sociólogos e até antropólogos. Essa diversidade de abordagens é componente fundamental para lidar com os desafios atuais e futuros da alimentação.

Quando o sr. assumiu, não existia um forte questionamento contra as entidades internacionais. Hoje, vemos ataques frontais. O multilateralismo está em risco?

Sim, sem dúvida. Hoje, o grande desafio que o sistema da ONU enfrenta é o descrédito no multilateralismo. E vemos isso até no pagamento dos países às organizações. Os países impuseram uma política de crescimento zero do orçamento regular. Eu passei dez anos com orçamento congelado. Não repunha nem a inflação. Tenho US$ 1 bilhão por ano. Esse valor não aumentou um centavo nesses últimos dez anos e, ao mesmo tempo, tivemos uma inflação acumulada de 30%. Em termos reais, meu orçamento regular perdeu 30%.

Ao mesmo tempo, nós temos recebido mais contribuições voluntárias: os países preferem fazer suas apostas naqueles programas que eles acham importantes. E não pagar mais para o orçamento regular leva a um desvio completo do sistema. Isso faz com que o sistema se concentre em fazer programas que interessam aos países doadores. O sistema da ONU precisa ser um sistema autônomo, acima dos países. Existem problemas globais e precisamos de soluções globais para eles. Apenas um orçamento independente pode garantir essa autonomia.

Como o sr. avalia a forma pela qual líderes mundiais têm usado as críticas contra a ONU e à globalização?

Há uma revolta daqueles que não foram integrados ao processo de globalização. Isso é parte da explicação. Mas outra parte é reconhecer que temos um mundo que caminha para ter cada vez menos formas de regulação multilaterais. Esse tema da desregulação está nos afetando em várias áreas. Estamos começando a sentir os efeitos da desregulação de que não tínhamos ideia. Ligar o livre comércio com obesidade, a internet com a difusão de notícias falsas, e tantos outros temas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)