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Um a cada três estudantes nos países ricos opta por humanas

Jamil Chade

26/04/2019 14h19

Estudos apontam que programas de humanas são "importantes para a inovação na economia", mas sugerem fortalecimento de aconselhamento para alunos antes de deixarem o colegial para que haja um equilíbrio entre as habilidades buscadas pelo mercado e os alunos que são formados.
GENEBRA – O setor de humanas é o mais procurado entre os universitários dos países da OCDE, grupo das economias ricas e do qual o Brasil quer fazer parte. Levantamentos obtidos pelo UOL apontam que um a cada três estudantes escolhe programas em ciências humanas, negócios ou direito.

Outros estudos, também publicados pela OCDE, constatam que carreiras de humanas são "importantes para a inovação na economia". Mas a entidade sugere o fortalecimento de programas de apoio aos alunos e famílias antes de saírem das escolas. O objetivo é de orienta-los sobre quais são os setores da economia mais necessitados de habilidades específicas.

Num levantamento do setor universitário em 2014, a entidade com sede em Paris apontou que não existe mais "uma relação direta entre o assunto estudado (na universidade) e o futuro emprego, já que estudantes tem hoje uma variedade de caminhos para adquirir novas habilidades e múltiplos caminhos para se especializar em diferentes domínios".

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse hoje que o MEC (Ministério da Educação) estuda "descentralizar o investimento em faculdades de filosofia e sociologia". De acordo com ele, o objetivo é "focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina".

"Em média, um terço dos novos estudantes universitários nos países da OCDE entram em programas de ciências sociais (humanas), mais do que o dobro da proporção de novos estudantes em engenharia, produção e construção (15%)", disse.

Salvo nos casos da Finlândia e Coreia, todos os demais países do grupo registram humanas como "o campo mais popular de estudos".

Nos últimos anos, porém, a entidade tem alertado para o hiato entre o desemprego elevado em diversos países e, ao mesmo tempo, a falta de mão de obra qualificada para certos setores.

A crise econômica que assolou a Europa a partir de 2008 fez com que esse debate ganhasse força, com governos e instituições buscando caminhos para lidar com um desequilíbrio real: nunca a sociedade europeia estava tão educada. Mas, ainda assim, o desemprego explodiu.

No setor de artes, por exemplo, foi constatado que sete de cada dez formandos não atuavam em sua área. Mas também foi revelado que 60% daqueles que estavam em exatas tampouco conseguiam emprego no seu setor de especialidade. Um dos setores mais equilibrados seria o de humanas, negócios, direito e saúde.

Desde então, a entidade iniciou um mapeamento e concluiu, em 2018, que a maior falta de especialistas estava no setor de informática e eletrônica. Mas se surpreendeu ao descobrir que, logo em seguida, o déficit de especialistas estava em áreas de tomada de decisão, administração e comunicação, além de habilidades para influenciar na solução de problemas.

Entre as soluções propostas, não estava o desmonte de cursos de humanas. Na Suíça, com uma taxa de de desemprego de menos de 5%, 36% dos alunos nas universidades estão em programas de humanas, contra apenas 16% em engenharia.

A proposta: o fortalecimento da orientação ainda nos colegiais, assim como criar um sistema de informação robusto para que famílias possam fazer suas escolhas da carreira a seguir.

Impacto – Num outro estudo publicado pela OCDE em novembro 2017, por exemplo, pesquisadoras alertaram que, ainda que exista uma relação clara entre a inovação na indústria e cursos de exatas, o atual modelo para avaliar o impacto de cada programa universitário para a economia é "incompleto".

O estudo foi conduzido pelas pesquisadoras da OCDE Caroline Paunov e Sandra Planes-Satorra, além da pesquisadora do escritório de Patentes do Japão, Tadanori Moriguchi. Elas defendem que apenas usar número de patentes registradas ou publicações científicas como forma de avaliar o impacto desses cursos para a economia não basta.

O estudo admite que medir a contribuição de ciências humanas para a economia é uma tarefa complicada. Mas defende que são esses profissionais quem vão inovar nos processos empresariais, na organização e estratégias de marketing. Citando ainda dois estudos, a publicação aponta que são as pessoas formadas em humanas que vão garantir o centro do trabalho inovador no setor de negócios.

De acordo com o levantamento, os estudantes de humanas participam de uma "ampla gama de setores". A constatação: tais cursos são "importantes para a inovação na economia", ainda que se reconheça que tem uma vantagem menor no que se refere à inovação na indústria.

Não restam dúvidas de que estudantes de exatas tem um papel maior na inovação industrial. Mas o que o estudo descobriu é que, na Europa, tanto profissionais de humanas, como engenheiros e cientistas da computação tem um papel "crítico" para o setor de Tecnologia da Informação.

De acordo com o levantamento, 25% dos trabalhadores desse setor são formados em humanas na Europa, contra 25% de engenheiros e outros 25% de computação. "Isso ilustra a necessidade do setor por uma ampla variedade de habilidades", disse.

Criatividade, pensamento crítico e buscas por oportunidades também são pontos fortes de humanas. Para as pesquisadoras, o impacto de humanos é "indireto" na economia e, por isso, mais difícil de ser medido.

Num de seus documentos, a OCDE ainda faz um alerta, usando uma citação de Alvin Toffler. "Os analfabetos do futuro não serão aqueles que não sabem ler. Mas aqueles que não sabem aprender".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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