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Jamil Chade

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Crise retira 1 milhão de alunos de escolas na Venezuela

Jamil Chade

2015-04-20T19:10:48

15/04/2019 10h48

 Foto: Reuters 

GENEBRA – Na Venezuela, as escolas já não são destinos para onde as crianças vão aprender. Os alunos são enviados ao local por seus pais com um objetivo: comer. Mas quando não há alimentos, muitas se dão conta que as classes ficam vazias.

Dados coletados pela ONU revelam que, em 2019, a crise retirou das escolas mais de 1 milhão de crianças.

De acordo com os dados oficiais, 6,4 milhões de crianças estão inscritas nas escolas da rede do estado, com 30 mil escolas. Em alguns locais, porém, classes que deveriam ter 40 crianças contam com menos de dez alunos. Mesmo assim, alguns deles apenas aparecem na hora do almoço. Para comer.

Diante do desabastecimento e da crise econômica, muitas das escolas passaram a dividir o alimento que iria para um aluno para garantir que aquela mesma porção possa "render mais".

Um levantamento também mostrou que, em muitas das escolas, a água é tão rara como a eletricidade, o que dificulta a limpeza dos banheiros. A taxa de ausência também chega a 50% dos dias letivos em muitas regiões.

Se falta água, o debate sobre o material é ainda mais crítico. Famílias venezuelanas contactadas pelo blog contaram que, para driblar a falta de papel e lapis, professores passaram a sugerir que os alunos apenas escrevessem o que fosse realmente necessário.

Outro problema tem sido o êxodo de professores. Os dados são diversos. Mas todos apontam para uma falta de profissionais nas escolas. Algumas entidades, como a Associação Nacional de Instituição do Ensino Privado, estimam que um terço dos professores deixou o país ou passou a buscar outros trabalhos.

Já a Associação de Professores da Venezuela estima que essa taxa é de 20%.

Seja qual for o número real, muitos dos bairros tem visto os pais dos próprios alunos assumindo o papel dos professores para garantir que seus filhos – e o restante da classe – continuem a estudar.

O governo venezuelano insiste que, apesar dos problemas, não existe uma crise humanitária. Já os problemas enfrentados pelos venezuelanos seriam, segundo Caracas, resultado das sanções impostas pelos americanos.

Para a oposição venezuelana, a culpa é do governo de Nicolas Maduro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)