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Jamil Chade

Jamil Chade

Um mês depois do ciclone, africanos receberam só 20% do dinheiro necessário

Jamil Chade

2014-04-20T19:04:00

14/04/2019 04h00

GENEBRA – Um mês depois de serem afetados pelo ciclone Idai, Moçambique e Zimbábue descobrem que o dinheiro para o resgate humanitário de milhões de pessoas tarda em chegar. Dados obtidos pelo blog revelam que, em um mês, o plano da ONU para financiar a ajuda humanitária sofre com uma falta importante de recursos.

Apenas no caso de Moçambique, a ONU havia calculado que precisaria de US$ 282 milhões. Um mês depois, recebeu apenas 24% desse valor. O buraco soma, portanto, US$ 213 milhões. No Zimbábue, o apelo ao financiamento chegava a US$ 54 milhões. Mas apenas US$ 5 milhões foram doados.

No total, os países estimam que 946 pessoas morreram por conta do ciclone. Mais de 2 milhões de pessoas –1,85 milhão delas em Moçambique– foram afetadas pelo ciclone Idai.

Uma conferência internacional está sendo preparada para o final de maio, com o objetivo de reunir doadores e sensibilizar a opinião pública internacional sobre a dimensão da crise.

Em Beira, o médico brasileiro Antônio Flores afirma que a crise está longe do fim. "Pouco a pouco, a vida vai retomando seu ritmo. Mas há muito ainda a ser reconstruído. Tem muita destruição", disse o gaúcho, que faz parte da missão da entidade Médicos sem Fronteira.

A organização tem focado sua atenção no combate à cólera. "Até o último dia 2, mais de mil pessoas já haviam sido atendidas pelo MSF com sintomas da doença, e o ritmo de novos casos era de cerca de 100 por dia", indicou a entidade em um comunicado. "Além de Beira, a organização atua no combate à cólera nos distritos de Nharnatanda e Dondo e se prepara para o aparecimento de novos casos em localidades como Buzi", diz.

A entidade diz que o ritmo de expansão da doença se estabilizou. "Mesmo com a aparente melhora, as medidas preventivas têm de continuar sendo aplicadas, para que o surto não saia de controle", explica.

Flores faz parte da operação humanitária no país. "Estão hoje em campo 170 profissionais de diversas partes do mundo (cerca de 30 deles brasileiros), além de 400 profissionais moçambicanos", indica o MSF.

Segundo o brasileiro, algumas escolas voltaram a funcionar, mesmo sem teto. O médico ainda conta como pessoas que estavam construindo suas casas por oito anos terão de começar do zero.

Ele já estava em Beira no momento do ciclone. Mas foi evacuado. Momentos depois, já estava no local para começar a atender a população.

Hoje, o impacto do desastre natural continua, agora em novas dimensões. Um deles é o da desnutrição. "A cidade ficou sem ser abastecida por semanas", disse Flores. A região é considerada como o principal local de produção de alimentos do país. Com o ciclone, o risco é que todo o abastecimento de comida em Moçambique seja afetado.

"Começamos a ver uma desnutrição moderada", disse. Além da queda da produção, outro impacto é o aumento do preço dos alimentos no mercado, criando uma barreira extra para parte da população mais pobre.

Outro risco, segundo ele, é o impacto do desastre na situação envolvendo o vírus HIV. "É a emergência dentro da emergência", disse. Com 16% da população infectada, a cidade de Beira viu as consultas de pacientes desabarem diante do ciclone. Muitos ainda não puderam se deslocar até os postos de saúde, temendo que suas casas fossem saqueadas. Os dados apontam, portanto, para uma queda de 80% nas consultas de pacientes de Aids.

Se não bastasse, a crise levou a um aumento de mulheres e garotas que passaram a se prostituir, em troca de alguns trocados para sobreviver diante da destruição.

"Vai levar um bom tempo para o local se recuperar", completou o médico brasileiro. Ele lamenta: os hotéis começam a ficar vazios e o número de carros pelas ruas caiu. Sinais de que a comunidade internacional e o foco da imprensa podem estar já saindo da região.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)