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Jamil Chade

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Bolsonaro quer “uma garotada que comece a não se interessar por política”

Jamil Chade

09/04/2019 20h11

GENEBRA – Menos política. Mais ciência. Foi basicamente essa a mensagem que o presidente Jair Bolsonaro passou quando deu posse nesta terça-feira a seu segundo ministro da Educação em menos de cem dias. "Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro", disse.

Sem dúvida. Uma escola sem ciência não é uma escola. Uma nação sem ciência não é inovadora e estará fadada a continuar exportando commodities, enquanto ve seus pares vendendo inteligência artificial.

Como sociedade, registramos a cada ano um número menor de patentes internacionais que uma multinacional chinesa.

Mas insinuar que alunos devem ser afastado do interesse pela política como forma de garantir o sucesso em ciência é ignorar um outro papel central da escola: a de formar cidadãos em uma democracia.

Não precisamos de uma escola que apenas faça uma geração decorar o nome de presidentes. Mas de uma escola que os incentive a ser os próximos presidentes.

Sabe quando fazemos política na escola? Na aula de literatura, cada vez que aprendemos a ouvir o colega declamando um poema. Fazemos política em cada classe de história, quando passamos a entender o contexto. Aprendemos cidadania e fazemos política em cada aula de geografia, quando descobrimos a fragilidade de nossa existência.

Aproximar uma criança à política não é trazer uma cartilha de um partido, nem cantar o lema da campanha eleitoral do presidente – como era justamente a proposta do MEC 1. Cidadania se aprende cada vez que a classe ganha a responsabilidade de tomar uma decisão, por menor que seja.

Colocar esses garotos a votar por questões simples – como o lixo da sala, quem limpa ou a disposição das cadeiras – é ensinar os primeiros passos do estado de direito e democracia.

Fazer o melhor aluno da sala se sentar ao lado daquele que tem dificuldades e realizar trabalhos em comum é dar uma aula de que todos precisamos ser reconhecidos em nossa dignidade. Uma nação será medida por sua capacidade de cuidar dos mais vulneráveis. Não se chegou à lua.

Sob a justificativa de tirar a política da escola, o risco que se corre é de que o aprendizado da cidadania seja substituído por uma visão moralista que é tão míope quanto fraudulenta.

Já no MEC 1, a ideia fracassada de obrigar a todos a cantar o hino nacional foi um aperitivo do que pode ainda estar por vir.

Vamos ser absolutamente claros: o hino não é o problema. Mas é a instrumentalização dos símbolos nacionais para fins de poder que me parece ser uma fraude política.

Quase ao mesmo tempo em que Brasília considerava a volta às aulas na companhia de Joaquim Osório Duque-Estrada e Francisco Manuel da Silva, do outro lado do mundo algo muito similar também ocorria. Um projeto de lei apresentado em janeiro estipulava que todos os alunos de Hong Kong seriam obrigados cantar o hino nacional chinês nas escolas da ex-colônia. Um eventual insulto levaria adolescentes a uma pena de prisão.

Junto com o hino, as escolas seriam orientadas a dar aulas de "etiqueta sobre como cantar e tocar" a canção nacional. Detalhadas, as regras chegavam a sugerir aulas de história sobre a origem do hino e até um comportamento adequado dos alunos ao escutar a música.

A "Marcha dos Voluntários" – que incrível nome irônico – conta com algumas pérolas em seus versos, entre elas a que conclama o povo a construir uma nova Grande Muralha da China com "nosso sangue e carne".

Na mesma linha da obrigatoriedade de hino, o pacote patriótico também exige que professores "corrijam com fatos os alunos que tenham pensamentos equivocados ou extremos". Fatos, claro, ditados por Pequim.

No ano passado, uma estrela das redes sociais na China foi detida por cinco dias, justamente por "insultar" o hino nacional. Yang Kaili, de apenas 20 anos, conta com 45 milhões de seguidores e passou a ser uma das primeiras celebridades a sofrer com a lei de 2017 que criminaliza atos contra o hino nacional.

Numa declaração oficial, a polícia chinesa explicou que "todos os cidadãos devem proteger a integridade do hino".

Ativistas rapidamente alertaram que a ofensiva nacionalista de Xi Jinping não se limitava ao hino. Em discursos, ele apelou aos chineses para que sejam patriotas online e offline.

Não, o Brasil não é um país comunista. Mas um ponto em comum entre Pequim e Brasília é a adoção da arma do patriotismo como falsa solução a dilemas reais da sociedade.

No caso de Hong Kong, a insistência por parte da população em manter seu espaço pela liberdade de expressão e direitos civis até hoje deixa Pequim em alerta.

O caso brasileiro, não consigo imaginar como obrigar a cantar o hino – ou usar qualquer outro símbolo nacional – produziria uma geração patriótica se ela continua vendo suas mães desempregadas e seus pais em eternas filas de espera para um transplante.

Cantar o hino não gera um sentimento de orgulho se o programa escolar "esquece" de certas passagens incômodas ao grupo no poder e se o material escolar é inexistente por verba desviada.

Obrigar os alunos a se perfilarem tampouco os unirá se os líderes pregam o ódio.

Cantar o hino numa escola só fará sentido na construção de uma nação quando a criança tiver aprendido que seus direitos como cidadão passaram a ser uma prioridade política. Quando, mesmo de forma inconsciente, ela confiar no estado. Quando ele receber as habilidade para influenciar o destino de sua sociedade.

Caso contrário, qualquer um dos símbolos ostensivamente empunhados e um hino obrigado não passarão de uma cacofonia que ecoará sem sentido…pelo espaço.

Quando Neil Armstrong, por um rádio rouco, disse que aquele gesto que ele faria ao desembarcar na lua seria "um pequeno passo para o homem, mas um enorme salto para a humanidade", ele não estava fazendo ciência. Era política pura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)