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Dissidência no Itamaraty ganha força e diplomatas se mobilizam

Jamil Chade

02/04/2019 15h34

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, com o secretário de Estado americano Mike Pompeo, em Washington (ERIC BARADAT/AFP)

GENEBRA – Ao entrar em seu quarto mês sob a gestão de Jair Bolsonaro, o serviço diplomático brasileiro vive uma situação sem paralelo desde o retorno do país à democracia. Dentro do Itamaraty, um movimento de dissidentes ganha força nos bastidores e diplomatas espalhados em diferentes partes do mundo se mobilizam.

Desde que assumiu a chancelaria, Ernesto Araujo tomou decisões que deixou seus pares desnorteados. Agora, os primeiros diplomatas já ousam, ainda que de forma anônima, a levantar a voz contra o chefe.

Antes mesmo de assumir, Araújo surpreendeu ao ao anunciar que o Brasil se distanciaria do Pacto de Migração. Mas não foi apenas a direção de sua orientação que chamou a atenção. Seu anúncio foi feito no mesmo dia em que a cúpula do Itamaraty estava no Marrocos para assinar o Pacto.

Foi dele a iniciativa para desconvidar governos estrangeiros para a posse de Bolsonaro, violando inclusive a prática que estabelece que todos os governos com representação diplomática no país devem ser convidados.

As confusões continuaram na administração da instituição. Embaixadores exonerados, cargos trocados e grandes quadros técnicos enviados para consulados em cidades distantes e irrelevantes.

Desde janeiro, relatos apontam como a pressão se tornou insustentável dentro da chancelaria. Em alguns casos, ela se transformou em perseguição.

Em postos no exterior, embaixadores tem se surpreendido com o descalabro das orientações que recebem. Quando recebem.

De forma confidencial, diplomatas abandonaram a tradicional arte do silêncio. Alguns ironizavam: "cada vez que chega um telegrama é um 7 x 1 que vivemos". Outros pedem apenas mais um copo de aguardente, enquanto grupos se reúnem de forma quase clandestina pelo whatsapp para tentar entender quem é que, de fato, está elaborando a política externa nacional.

Com uma base frágil dentro do Itamaraty, Araújo passou a ser acompanhado de perto pelos generais, temerosos de ideias levantadas pelo diplomata. Entre algumas deles está o uso da força na Venezuela, proibida inclusive pela Constituição. A lista dos temas espinhosos ainda inclui dar uma base para os americanos, uma adesão à OTAN e, claro, a mudança da embaixada para Jerusalém.

Internamente, o chanceler virou motivo de piadas, fortalecidas por suas constatações de que o nazismo é de esquerda e que o aquecimento global é um mito. Gargalhadas ainda mais fortes vieram quando Araújo foi visto dando um chilique por não ter entrado no Salão Oval com Jair Bolsonaro.

Essas gargalhadas foram acompanhadas por uma incompreensão diante da constatação de que, na relação do novo Brasil com EUA, o velho princípio da reciprocidade na diplomacia foi abolido.

Explosões de apoio a Bolsonaro também foram registradas, como o discurso da embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo. Mas tão forte quanto as imagens da diplomata abandonando uma reunião foi a reação interna de "vergonha" expressada por muitos diante do ato da experiente embaixadora. Não faltaram lágrimas de alguns deles, inconformados com a nova era.

Mas o tom no Itamaraty mudou quando o chanceler declarou abertamente que não considerava 1964 como um golpe.

A frustração já latente de uma parte da corporação foi transformada em revolta e, em seguida, traduzida em uma carta apócrifa, alertando para os riscos que tal postura teria para a imagem do Brasil no mundo.

Ali, as palavras de cerca de 40 diplomatas não fazem referência apenas a uma disparidade na interpretação da história do Brasil. O recado é claro: a existência de um mal-estar e da indisposição de um grupo dentro da instituição, que não está mais disposto a representar uma postura anti-democrática.

Nos últimos dias, esse grupo ganhou força, com sinalizações de apoio até mesmo por parte de diplomatas mais conservadores que, antes das eleições, não apoiaram candidatos de esquerda.

Num posto asiático, um deles resumiu ao blog o sentimento que começa a ganhar força: "Não estamos dispostos a deixar a ética e o bom senso na chapelaria do prédio".

Para outros pela Europa, Araújo é a "antítese da moderação" que marca o Itamaraty ao longo de décadas. Também tem preocupado o tom agressivo das notas de imprensa, que não deixam espaço para o diálogo, a essência do serviço diplomático.

Em Brasília, não são poucos os embaixadores que ainda demonstram preocupação com o fato de o Itamaraty estar sendo ridicularizado a cada mensagem nas redes sociais.

Depois de já ter passado por uma erosão de sua influência sob o governo de Dilma Rousseff e de viver uma espécie de isolamento por conta do caráter provisório do governo de Michel Temer, o sentimento dos mais experientes é de que a atual gestão pode "enterrar de vez" a credibilidade da instituição.

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UOL Notícias

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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