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Jamil Chade

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Protecionismo e enfraquecimento da OMC custariam R$ 25 bi para Brasil

Jamil Chade

2001-04-20T19:04:44

01/04/2019 04h44

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, com o secretário de Estado americano Mike Pompeo em Washington (ERIC BARADAT/AFP)

 

GENEBRA – A proliferação de medidas protecionistas pelo mundo e o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) levariam a uma perda anual de mais de R$ 25 bilhões para a as exportações brasileiras. O alerta faz parte de um estudo realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), alarmada pela crise que afeta hoje o multilateralismo.

A estimativa, obtida com exclusividade pelo blog, é de que o custo das exportações brasileiras aumentaria 120% num cenário de fracasso da OMC.

Nos últimos dois anos, a entidade com sede em Genebra passou a ser alvo de uma campanha do governo de Donald Trump. A Casa Branca esvaziou os tribunais da OMC e exige reformas profundas para que a organização volte a ter um papel na definição do comércio internacional.

Roberto Azevedo, diplomata brasileiro que dirige a OMC, vem tentando navegar por um cenário dos mais dramáticos. Se de um lado ele precisa preservar o sistema multilateral, ele também é forçado a fazer concessões para evitar uma retirada total dos EUA de sua entidade.

Sem os parâmetros da OMC, porém, o setor privado brasileiro teme perdas importantes.

Entre 1995, ano de criação da OMC, e 2017, as tarifas médias de importação aplicadas pelos países do G-20 caíram de 11% para 5%. Mas, de acordo com o novo levantamento, se os impostos de importação voltarem ao patamar pré-OMC a partir do enfraquecimento da instituição, os exportadores brasileiros passariam a pagar US$ 6,3 bilhões a mais em impostos nas vendas para os países do G-20.

"O enfraquecimento da OMC tem um resultado desastroso para o Brasil. Vamos regredir décadas no comércio internacional. Apenas as exportações para a América do Sul, com quem o Brasil possui acordos de livre comércio, não seriam oneradas", alerta o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.

Pela projeção, o Brasil teria de aumentar seus pagamentos de impostos em US$ 2,4 bilhões ao exportar para a China. No caso da Índia, o aumento seria de US$ 1,1 bilhão. O cenário ainda prevê custos de mais de US$ 1 bilhão para a União Europeia e US$ 540 milhões para os Estados Unidos.

Protecionismo – De acordo com a CNI, a realidade é que as tarifas já começaram a subir. "A guerra comercial entre Estados Unidos e China elevou imposto de importação em até 25% para mais de 3 mil produtos, a União Europeia impôs tarifas de 25% para importações de pelo menos 26 produtos siderurgicos", indicou.

A Turquia, em retaliação a política americana de proteção do seu aço e de seu alumínio, elevou a tarifa de bens estratégicos, como carros, que passou a pagar 120%, bebidas alcoolicas (140%) e tabaco (60%).

A CNI estima que "o aumento do protecionismo e do unilateralismo sobre políticas comerciais, a queda do crescimento do comércio mundial e o aumento da concentração na participação das exportações põem a OMC numa crise sem precedentes".

"Para o setor privado, é essencial que a OMC se fortaleça, porque é o órgão máximo para garantir a estabilidade e a previsibilidade de regras necessárias para as empresas que atuam no comércio, investem, geram emprego e renda", indicou.

"O setor privado vem acompanhando a deterioração do sistema multilateral de comércio, com práticas arriscadas de "empobrecer o vizinho", com queda no fluxos de comércio mundial, menores taxas de crescimento econômico e menos desenvolvimento econômico", alerta a CNI.

"O indicador de comércio da OMC aponta para um crescimento mais lento no primeiro trimestre de 2019. Os indicadores de ordem de exportação, frete aéreo internacional, produção e venda de veículos, componentes eletrônicos e matérias-primas agrícolas estão abaixo da tendência histórica", completa.

Como forma de lidar com a crise, a CNI e a Câmara de Comércio Internacional (ICC) decidiram se rir a organizações empresarias dos Estados Unidos, México, União Europeia e países do Mercosul para lidar com a nova realidade.

Nesta terça-feira, em São Paulo, os especialistas se reúnem para avaliar e sugerir caminhos para a reforma da OMC. Entre os especialistas convidados está Richard Baldwin, professor de economia internacional no Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento em Genebra. Jeffrey Schott, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional para políticas comerciais e sanções econômicas, também estará presente, assim como o chefe de gabinete da OMC, Tim Yeend, e o diretor de política global da Câmara de Comércio Internacional, Nikolaus Schultze.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)