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Por mais dinheiro, Fifa está prestes a transformar o futebol

Jamil Chade

12/03/2019 10h14

Nesta semana, novo Mundial de Clubes pode ser anunciado, enquanto Fifa está em fase final para negocia ampliação de Copa do Catar e criação de uma Liga das Nações de dimensão global

 

GENEBRA – Dirigentes da Fifa se reúnem a partir desta quarta-feira em Miami, para o que pode ser uma das maiores reformas já feitas no futebol internacional em décadas. Os cartolas poderão aprovar a criação de um novo Mundial de Clubes, além de dar um primeiro sinal verde para a elaboração de uma Liga das Nações e mesmo a ampliação da Copa de 2022 para incluir 48 seleções. Em todas as decisões, um aspecto fundamental tem norteado as decisões: dinheiro.

O encontro do Conselho da Fifa, porém, promete ser intenso, já que confederações de diferentes partes do mundo ainda tentam influenciar a direção da entidade máxima do futebol para que seus interesses sejam acomodados. De acordo com fontes internas da entidade, um dos projetos mais avançados é o da criação de um novo Mundial de Clubes. O evento ocorrerá a partir de 2021, substituindo a falida Copa das Confederações e também colocando um fim ao torneio de clubes que ocorre a cada ano, sem grande interesse mundial.

Pelo projeto sobre a mesa, o torneio ocorreria uma vez a cada quatro anos, reunindo 24 clubes de todas os continentes. Os europeus, porém, terão doze lugares. Mas é a Conmebol que insiste que as vagas que foram oferecidas à região não condizem com a dimensão e o papel da América do Sul no futebol.

A estrutura original prevê apenas quatro times sul-americanos no torneio, além de um quinto que poderia entrar por uma questão de ranking. Mas a Conmebol quer a garantia de cinco vagas, além de manter a brecha de colocar uma equipe por conta de sua posição na classificação.

Uma reunião na quarta-feira, em Miami, também tentará definir o posicionamento final da Conmebol. Outro assunto sobre a mesa é a criação de uma Liga das Nações, torneio que já existe na Europa e que, agora, poderia ser ampliado ao restante dos continentes. Ele seria disputado ao longo do ano e substituindo aos amistosos. Nesse caso, o obstáculo vem do formato defendido pelos europeus.

A Uefa quer que cada continente realize seu torneio regional e que, ao final, uma mini-competição seja realizada entre os vencedores. Uma vez mais é a Conmebol que se opõe. O motivo: dinheiro. Os sul-americanos aceitam o evento. Mas não querem passar meses jogando apenas entre si, e com uma renda potencialmente baixa.

A esperança é de que a estrutura final permita confrontos entre sul-americanos e europeus desde as primeiras rodadas. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, pressiona pela criação dos dois novos torneios por um motivo claro: sobre sua mesa está a oferta de um pacote de US$ 25 bilhões de um fundo de investidores que querem entrar com força no futebol.

Catar – Outro debate promete ser o projeto de expansão da Copa de 2022 no Catar de 32 para 48 seleções, uma ideia defendida por Infantino. Num estudo realizado pela entidade, concluiu-se que o novo formato do Mundial permitir aumentar em US$ 400 milhões a renda da Copa. Mais de US$ 154 milhões viriam de novos contratos de patrocínio, contra US$ 121 milhões em direitos de transmissão e US$ 90 milhões em ingressos. Na prática, o projeto permitiria a Fifa a realizar um torneio que se aproximaria de uma receita de US$ 7 bilhões, algo inédito na história do futebol. Também inédita, porém, seria a baixa qualidade de muitas das seleções que se classificariam.

A questão é onde disputar tal evento bilionário. Pelo estudo realizado pela Fifa, a Copa teria de contar com doze estádios. No minúsculo território do Catar, os oito estádios planejados já representam um desafio. Portanto, os quatro outros locais teriam de ser erguidos fora do Catar. Pelo estudo, as possibilidades encontradas seriam: Bahrein, Omã, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait.

Desses, porém, três deles vivem hoje uma relação de tensão com o Catar, incluindo boicote econômico e suspensão de suas relações diplomáticas. Se o projeto for aprovado nesta semana, Infantino terá de negociar com o emir do Catar uma solução política para levar jogos a países vizinhos e para que, claro, o mundo do esporte fique ainda mais rico.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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