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Quando a imprensa está sob ataque, é a liberdade que está em jogo

Jamil Chade

10/03/2019 22h35

GENEBRA – Um ato do capitão Jair Bolsonaro abre espaço para pensar que, talvez, exista de fato uma ofensiva para calar vozes da imprensa que questionem seu governo ou que simplesmente façam o trabalho de apuração.

Inaceitável é o que ocorreu neste domingo com a manipulação da qual foi vítima a repórter do Estado de S. Paulo, Constanza Resende, jornalista que tem revelado alguns dos fatos mais importantes no que se refere às suspeitas de depósitos nas contas de funcionários e familiares do clã Bolsonaro.

Se por si só a manipulação de um site pró-Bolsonaro com uma falsa entrevista com a jornalista poderia já ser considerado como grave, o caso ganhou uma outra proporção quando a suposta notícia foi difundida nas redes sociais pelo próprio capitão e, depois, por seu filho Eduardo Bolsonaro.

Há poucas semanas, a pastora Damares Alves, que ocupa o cargo de ministra de Direitos Humanos, disse na ONU que o programa de proteção a defensores de direitos humanos incluiria também comunicadores. Será que os jornalistas ameaçados como resultado de atos do governo do capitão Bolsonaro também serão protegidos?

Insuportável e intolerável para uma democracia ver seu presidente difundir tal mentira, dando salvo conduto para que seus apoiadores proliferem assédios online e colocando em risco a segurança pessoal de uma profissional. Quando um chefe-de-estado faz uso de uma manipulação escancarada, o que está em risco não é apenas a imprensa. Mas a cidadania.

Quando a imprensa está sob ameaça, é a democracia que está em questão. Será apenas com a livre circulação de informação que uma sociedade se mantém livre. E disso não abriremos mão.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

Jamil Chade