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Jamil Chade

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Os amistosos do Brasil suspeitos de terem enriquecido os cartolas

Jamil Chade

24/02/2019 14h00

Começa nesta segunda-feira (25) o julgamento de Sandro Rosell, acusado na Espanha por ter promovido lavagem de dinheiro para beneficiar Ricardo Teixeira. De acordo com investigação, a cada amistoso, uma conta secreta em Andorra recebia um depósito de milhares de euros

Robinho divide bola com Damien Duff, da Irlanda, em amistoso em 2008 (Russell Cheyne/Reuters)

GENEBRA – No dia 6 de fevereiro de 2008, eu estava em Dublin para acompanhar o primeiro amistoso da seleção brasileira naquele ano. Seria o início da fase final para que o então técnico Dunga preparasse um grupo para os Jogos Olímpicos de Pequim e a sonhada medalha de ouro.

Mas, se o objetivo do Brasil era usar o jogo contra a Irlanda para começar a montar um time olímpico, aquela foi uma oportunidade perdida. Dunga contou com poucos jogadores em idade olímpica e montou um time conservador e sem os jovens. Na véspera, lembro-me que o técnico explicou que, com apenas 40 minutos de treino para preparar a seleção, optou por jogar com aqueles que estivessem mais entrosados.

Do outro lado, a Irlanda vivia uma crise e foi ao jogo sem nem mesmo contar com um treinador. Um técnico interino cumpriu a função de escalar um time. O jogo morno só foi salvo por um gol no segundo tempo. Robinho, que ainda brilhava, fora seu autor.

Mas os lances do "rei do drible" não eram as únicas ações daquela partida. Documentos oficiais obtidos pelo blog revelam que aquele amistoso foi um dos que entrou na lista de partidas que renderiam um desvio de dinheiro para contas de Sandro Rosell, o ex-presidente do Barcelona e que, a partir de amanhã, será julgado por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a seleção brasileira.

Em 2013, eu revelei como um acordo secreto entre Rosell, CBF e a empresa que mantinha os direitos sobre os jogos do Brasil – a ISE – rendeu ao cartola 8,4 milhões de euros. Oficialmente, o pagamento feito pela ISE aos cartolas era por conta da ajuda que o catalão prestou por fechar contratos para a CBF para a organização dos jogos.

Mas o Ministério Público da Espanha não tem a mesma opinião e o acusa de ter promovido um desvio de recursos e lavagem de dinheiro, em cada um desses amistosos. Ainda há a acusação de que o dinheiro, em parte, acabaria com o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em contas secretas. O brasileiro, segundo a investigação, chegou a ter um cartão de crédito "platinum" que dava acesso a esse dinheiro.

O jogo contra a Irlanda, portanto, rendeu ao esquema dos cartolas 490 mil euros numa conta em Andorra, no Andbank. Ou seja, R$ 2 milhões. Mas ele seria apenas o primeiro de uma longa série de amistosos naquele ano, todos muito rentáveis aos dirigentes. Mas com um propósito esportivo questionável.

As investigações dos fiscais espanhóis são reveladoras. No dia 26 de março de 2008, o Brasil enfrentaria a Suécia. Enquanto os jogadores suavam a camisa, os cartolas levavam mais 242 mil euros. Em junho, mais dois amistosos também entraram na lista de pagamentos. No dia 1º daquele mês, Brasil enfrentaria o modesto Canadá e, no dia 7, a fraca seleção da Venezuela. No total, os dois jogos renderiam 484 mil euros para a conta secreta.

Em julho, já na Ásia para a Olimpíada de Pequim, mais dois jogos também trariam benefícios econômicos: um inexplicável Brasil x Singapura e um frustrante Brasil x Vietnã. A seleção venceu ambos. Mas a conta secreta dos cartolas foi ampliada com mais 484 mil euros.

Em 2009, mais quatro jogos também geraram pagamentos para Andorra, por parte da empresa que os organizava. Antes, em 2007, oito partidas também renderam milhões de reais aos cartolas.

De acordo com os espanhóis, os depósitos para cada uma dessas partidas foram confirmados pela ISE, numa planilha que, desde 2018, faz parte do processo contra Rosell.

As transferências ocorriam para a conta numerada AD14 0001 0000 4068 1110, aberta no dia 17 de novembro de 2006.

No dia 30 de maio de 2007, mais 1 milhão de euros entraria na conta secreta dos cartolas. Desta vez, o motivo do depósito dos sauditas teria sido a intermediação de Rosell para que a ISE adquirisse os direitos a partidas que, anteriormente, tinham sido de propriedade da Ambev. A empresa brasileira do setor de bebidas, porém, não é alvo de nenhum tipo de acusação.

Na declaração, o MP acusa Rosell de "ocultar dinheiro ilicitamente obtidos por Ricardo Teixeira com a ocasião da assinatura de certos contratos em que este intervinha ao representar a CBF, da qual foi presidente".

Depois de receber na conta em Andorra, uma série de transferências a contas em outros locais permitia que o dinheiro chegasse a Teixeira.

Outro lado

No documento que entrega à corte espanhola para se defender, Rosell e seus advogados admitem o recebimento do dinheiro. Mas negam que se trate de desvios de dinheiro dos amistosos e muito menos lavagem de dinheiro. Para eles, os procuradores "se equivoca gravemente" e os valores eram comissões recebidas de forma lícita por questão de uma intermediação dos contratos.

De acordo com a defesa, Rosell "trabalhou durante seis meses estudando a rentabilidade do investimento e participando das negociações prévias do contrato, ocupando-se posteriormente de supervisar sua execução correta".

A defesa ainda vai citar uma carta enviada pela CBF, em 2018, em que a entidade diz que não se sentiu prejudicada pelos contratos assinados por Rosell. "Depois de investigações internas, o contrato que esta confederação assinou com a ISE, com a intermediação de Sandro Rosell, supôs condições mais favoráveis aos interesses da CBF e conta que a intermediação tenham produzido um prejuízo à CBF, posto que o valor pago pelas partidas amistosas da seleção aumentou sensivelmente".

Ao longo dos anos, Teixeira tem insistido que é inocente.

LISTA DE AMISTOSOS SOB SUSPEITA

6 DE FEVEREIRO DE 2007 – PORTUGAL X BRASIL

24 DE MARÇO DE 2007 – BRASIL X CHILE

27 DE MARÇO DE 2007 – BRASIL X GANA

1º DE JUNHO DE 2007 – INGLATERRA X BRASIL

5 DE JUNHO DE 2007 – TURQUIA X BRASIL

5 DE AGOSTO DE 2007 – BRASIL X ARGÉLIA

13 DE SETEMBRO DE 2007 – BRASIL X MÉXICO

6 DE FEVEREIRO DE 2008 – IRLANDA X BRASIL

26 DE MARÇO DE 2008 – SUÉCIA X BRASIL

1 DE JUNHO DE 2008 – CANADÁ X BRASIL

7 DE JUNHO DE 2008 – BRASIL X VENEZUELA

27 DE JULHO DE 2008 – SINGAPURA X BRASIL

1º DE AGOSTO DE 2008 – BRASIL X VIETNÃ

10 DE FEVEREIRO DE 2009 – BRASIL X ITÁLIA

12 DE AGOSTO DE 2009 – ESTÔNIA X BRASIL

14 DE NOVEMBRO DE 2009 – INGLATERRA X BRASIL

17 DE NOVEMBRO DE 2009 – OMÃ X BRASIL

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)