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Jamil Chade

Jamil Chade

Cotada para o Oscar, cineasta brasileira ganha prêmio sobre democracia

Jamil Chade

07/10/2019 03h24

Petra Costa, diretora do filme.

 

GENEBRA –  A cineasta brasileira Petra Costa – autora de "Democracia em Vertigem" (Netflix) – receberá mais uma homenagem na noite desta segunda-feira, desta vez em Buenos Aires. Sua obra ainda tem sido citada como um dos destaques ano em diferentes jornais americanos, num momento de forte debate no Brasil sobre a censura em projetos artísticos e sobre o futuro da Ancine.

Nesta segunda-feira, Petra estará no Prêmio Democracia, organizado pelo Centro Cultural Caras y Caretas, de Buenos Aires. A presidente do Jurado é Estela de Carlotto – figura central no debate sobre a memória histórica no Cone Sul e presidente da entidades Abuelas de Plaza de Mayo.

A cineasta brasileira foi a escolhida como a "Personalidade Destacada da América Latina", título que já foi concedido a Silvio Rodríguez, Michelle Bachelet, Lucía Topolansky, Álvaro García Linera e Carmen Lira.

A premiação ocorre em meio a uma série de menções no mercado americano sobre o documentário da Netflix. No final de setembro, a publicação americana Indiewire já havia colocado a produção de Petra Costa como um dos cinco favoritos para a indicação ao Oscar na categoria de documentários. Para os jornalistas americanos, o filme é um "alerta" sobre "a emergência da extrema-direita".

O documentário aparece ao lado de obras como "Apollo 11", "American Factory", "The Kingmaker" e "One Child Nation".

No jornal New York Times, o documentário sobre o colapso político brasileiro também foi citado na lista dos dez melhores do ano (até agora) – The Best of 2019 (so far). Para o jornal, o filme de Petra é uma "crônica da traição cívica e do abuso de poder". A lista do NYT também traz Martin Scorsese e outros produtores de peso.

Petra Costa tem feito uma ampla turnê pelos EUA para apresentar seu filme. Mas não tem deixado de alertar sobre a censura no Brasil. Nas redes sociais, ela alertou sobre a revelação de que estatais estariam cancelando programas culturais. "Seis produções canceladas", escreveu a brasileira. "Os temas? Temática LGBT e críticas ao período militar. O nome disso é censura. E o alvo é a nossa liberdade de expressão e a nossa democracia", alertou.

Na semana passada, em São Francisco, ela o apresentou ao lado de Julie Huntsinger e Tom Luddy. Ainda em outubro, ela realiza debates em Nova Iorque e Washington DC ao lado de Caetano Veloso.

No Brasil, o documentário abriu um forte debate entre grupos de diferentes alas políticas. O documentário não deixa de fazer críticas ao PT, atacando suas alianças e trazendo uma espécie de mea-culpa por parte de Gilberto Carvalho. Mas foi visto por parte daqueles no poder como uma produção que "não convém" à imagem do Brasil.

Na semana passada, foi o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, quem usou uma entrevista para ataca-lo ao explicar sua função como eventual embaixador do Brasil nos EUA.

"Faço uma pergunta a vocês: quem é que defende Jair Bolsonaro fora do Brasil? Quando a gente olha para fora, quem está falando do Brasil? É o Wagner Moura, o Jean Wyllys, está falando que foi golpe… O gringo está olhando o (documentário) Democracia em vertigem e tira aquilo como verdade para ele", explicou Eduardo Bolsonaro em entrevista ao programa Pânico, da Rádio Jovem Pan.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)