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Jamil Chade

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Em derrota, Brasil não evita aprovação de resolução "pró-Venezuela" na ONU

Jamil Chade

26/09/2019 10h37

 

GENEBRA – O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas aprovou uma resolução proposta pelo Irã e apoiada por Nicolas Maduro, estabelecendo que Caracas coopere com a ONU. O Brasil fazia campanha contra o texto e pediu, em público, que os membros da entidade internacional votassem contra a resolução. O Itamaraty considera que apenas uma investigação internacional pode pressionar o governo bolivariano a assumir suas responsabilidades diante dos crimes já descritos pelos informes da ONU.

A resolução foi aprovada por 18 votos a favor, 23 abstenções e apenas seis contra. Além do Brasil, só rejeitaram a proposta governos como o da Ucrânia, Austrália, Peru, Argentina e Chile, todos aliados de Washington.

O documento apenas pede que se estabeleça uma cooperação entre a alta comissária de Direitos Humanos, Michelle Bachelet, e Caracas nos próximos 30 dias. Mas não há qualquer estabelecimento de investigações para levar os responsáveis pelos crimes à Justiça.

Uma segunda resolução, liderada pelo Brasil, será submetida ao voto na ONU nesta sexta-feira. Nesse caso, a criação de uma investigação internacional será proposta e tem chances de ser aprovada. Mas a esperança do Grupo de Lima era de que o texto desta quinta-feira fosse derrubado.

Ao pedir a palavra, na ONU, a embaixadora do Brasil, Maria Nazareth Farani Azevedo, deixou claro nesta quinta-feira que era contra a proposta apresentada por Teerã.

"A cooperação é fundamental e prioridade para o Brasil. Oferecemos muitas vezes antes de trazer o tema para este órgão", disse, lembrando que hoje o País oferece alimentos, remédios e moradia aos venezuelanos que escapam da crise.

Para a diplomata brasileira, a resolução aprovada estava sendo apoiada pelos responsáveis por violações, que se negam a reconhecer situação de crise e nem assumem a responsabilidade por crimes.

A embaixadora qualificou o gesto de Caracas de cooperar com a ONU como sendo um de "promessas vazias para desviar a atenção". "É muito pouco, muito tarde", disse a diplomata, sobre o que propunha o texto. Para a diplomata, o projeto era "um escárnio" e uma "ofensa".

Mas os governos da China, México, Uruguai, Tunísia, Catar, Angola e África do Sul votaram a favor. Pesou ainda o fato de a UE ter optado por se abster.

"Não é apontando para um país com o dedo que vamos proteger as vítimas", disse a delegação do Uruguai. Montevidéu pediu "diálogo" para que um acordo político possa ser obtido.

Os sul-africanos também insistiram que a resolução permite espaço para que a mediação proposta pelos noruegueses possa avançar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)