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Jamil Chade

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Aliados de Bolsonaro vivem crises e Brasil ameaça ficar isolado

Jamil Chade

26/09/2019 04h00

Jair Bolsonaro e Donald Trump em coletiva de imprensa na Casa Branca (REUTERS)

 

GENEBRA – O presidente Jair Bolsonaro deixou claro, desde o início, que privilegiaria relações pessoais com líderes estrangeiros que tenham a mesma linha de pensamento que o governo brasileiro. Seja por adotarem os mesmos valores ultraconservadores ou por conta de políticas ultraliberais.

Mas, nas últimas semanas, alguns dos principais aliados do Planalto sofreram duras derrotas ou foram colocados em situações complicadas em seus respectivos países.

Nos EUA, a situação de Donald Trump vive momentos de tensão. A Câmara dos Deputados anunciou a abertura de um processo de impeachment por conta do comportamento do aliado de Bolsonaro em suas relações com a Ucrânia.

O pedido de impeachment deve-se à revelação de que ele bloqueou fundos de assistência à Ucrânia e teria coagido o país do Leste Europeu a investigar o ex-vice-presidente Joseph Biden e sua família.

O caso dificilmente levará à queda de Trump, já que a decisão final ficará com o Senado, onde o Partido Republicano tem maioria. Ainda assim, deve contaminar a política americana pelos próximos meses e concentrará todas as atenções de Trump.

Na América do Sul, outro aliado pode estar com os dias contados. Maurício Macri, presidente da Argentina, concorre à reeleição. Mas diferentes pesquisas de opinião colocam Alberto Fernández e sua vice, Cristina Fernández, com mais de 20 pontos de diferença em relação a Macri.

Bolsonaro tem declarado abertamente que a derrota de seu aliado na votação no dia 27 de outubro seria prejudicial para o projeto que o governo tem para a região.

Na Itália, o líder populista Matteo Salvini, também próximo do clã Bolsonaro, acabou perdendo seu cargo no governo. Apostando em sua popularidade, o ex-ministro do Interior rompeu com o governo e pensou que, com isso, obrigaria o país a passar por novas eleições.

Nas urnas, estava convencido de que venceria e se tornaria primeiro-ministro. Mas os demais partidos acabaram se unindo e, apesar de terem visões opostas, chegaram a um acordo para formar um governo sem a presença de Salvini.

Em Israel, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, foi obrigado a realizar uma segunda eleição em apenas cinco meses. E, mesmo assim, não conseguiu formar uma maioria. Seu partido, o Likud, chegou na segunda posição, com 32 assentos no Parlamento. Seu principal adversário, Benny Gantz, terminou com 33 assentos.

A Presidência de Israel deu a Netanyahu a missão, agora, de formar um novo governo. Mas a oposição apresentou exigências e uma negociação poderá se arrastar.

Netanyahu tem pressa para que o entendimento se transforme em realidade. Em poucas semanas, ele poderia ser ouvido pela Justiça, em três casos suspeitos de corrupção. Ao permanecer como primeiro-ministro, porém, poderia garantir sua imunidade.

 

Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro se cumprimentam no Rio de Janeiro em dezembro do ano passado (Fernando Frazao/Agência Brasil)

 

Risco de isolamento

A queda de alguns dos aliados e a possibilidade de que outros também sofram derrotas não deixou de preocupar Brasília.

Embaixadores dentro do próprio Itamaraty, que pediram para não ser identificados por medo de serem punidos pela chancelaria, admitiram que houve essa preocupação entre os diplomatas de mais experiência dentro do serviço externo do país. Mas pelo menos dois deles afirmaram que os alertas foram ignorados.

Nesta semana, deputados democratas apresentaram uma resolução no Congresso dos EUA pedindo que os acordos com o Brasil sejam suspensos, justamente por conta das atitudes e políticas de Bolsonaro.

Ainda que o caso se insira no debate das eleições americanas, o caso revelou como a escolha de Bolsonaro pela aliança com Trump pode afetar a relação de estado entre Brasil e EUA.

Guilherme Casarões, cientista político e professor da FGV EAESP, também aponta para o risco de um isolamento. Não apenas por conta de o Brasil de Bolsonaro ter estabelecido relações pessoais como estratégia de política externa, mas também por conta do envolvimento do presidente brasileiro em eleições no exterior.

"Bolsonaro fez campanha por Netanyahu, por Macri, por Trump", disse. "Isso o leva a antagonizar com eventuais nos líderes que possam ser eleitos e é um risco", afirmou.

"O governo construiu relações tão intensas com um líder específico que, na eventualidade de uma oposição chegar ao poder, isso pode isolar o Brasil", explicou. "Claro que esse isolamento é relativo, já que o Estado continua com suas relações que vão além dos líderes", disse. "Mas não haverá a mesma proximidade com Israel ou outros. Vai haver um afastamento político natural", afirmou.

Casarões aponta que a realidade é que a "estratégia do governo Bolsonaro está muito focada em lideranças, e não em países".

"A política externa é uma ruptura em relação à tradição diplomática do Brasil. A busca de uma nova identidade, um novo Brasil, passa necessariamente por uma redefinição dos valores que guiam a política externa, como das relações estratégicas do Brasil com o mundo", explicou.

Ao focar na suposta recuperação da civilização cristã-judaica-ocidental, o governo colocou na pauta valores da família e nação. "O grande desafio foi encontrar líderes que comungam desses mesmos valores e dessas ideias", avaliou o cientista político.

Para ele, existe um "risco muito grande" ao se adotar essa estratégia. "Estamos falando em relações que se redefiniram de forma muito brusca", disse. "O risco principal é que, apesar de ter relações muito forte com esses líderes, Bolsonaro não se deu conta que eles podem sair do poder, como já ocorreu com Salvini, como pode ocorrer com Netanyahu e que vai ocorrer com Macri. Isso pode isolar o governo brasileiro", completou.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)