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Jamil Chade

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“Maduro troca comida pelo silêncio das pessoas”, denuncia opositor

Jamil Chade

15/09/2019 04h00

Deputado Miguel Pizzaro vive no exílio desde meados de 2019, depois de condenado por doze crimes. Foto: Jamil Chade.

 

Filho de um ex-guerrilheiro marxista que fugiu de Pinochet, Miguel Pizarro se transformou numa das principais vozes de oposição ao chavismo e liderou as operações de ajuda humanitária. Há dois meses, vive no exílio depois de ter sido condenado por doze crimes, entre eles "traição à pátria".
GENEBRA – Filho de ex-guerrilheiro marxista chileno que foi obrigado a deixar Santiago e fugir para a Venezuela nos anos 70, o deputado venezuelano Miguel Pizarro Rodríguez segue ironicamente o mesmo destino de seu pai: o exílio.

Há dois meses, ele não teve outra opção. Ou ficava e seria detido, como muitos outros. Ou seguiria o caminho do exílio, assim como já fizeram mais de 20 deputados.

Com apenas 31 anos, braços tatuados e ex-integrante de uma banda punk, Pizzaro vive hoje na Europa, depois de uma fuga que, segundo ele, contou com a ajuda de autoridades do governo e mesmo militares.

O berço político de sua casa o obrigada a falar de temas sociais. Diariamente. Sua mãe foi uma das fundadoras do Comitê de Defesa dos Direitos Humanos dos presos políticos. Seu pai foi um dos militantes do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Seu avô foi do Movimento Socialista, no Chile, próximo a ao presidente Salvador Allende, deposto por Pinochet.

Pizarro foi um dos principais nomes do movimento estudantil de 2007, ao lado de um certo Juan Guaidó. Com 21 anos, entrou para a Assembleia Nacional, eleito pela região de Petare, um dos bairros mais pobres de Caracas. De esquerda, ele sempre soube que Hugo Chavez chegou ao poder diante da injustiça social que manchava a história diária da população.

Ao fugir ao exílio, o deputado era o presidente da Comissão Especial de Seguimento à Ajuda Humanitária, encarregado de coordenar os esforços realizados pelo parlamento, ons, Igreja e organismos internacionais.

Sua fuga ocorreu depois que os tribunais venezuelanos o acusaram de "traição à pátria", conspiração, instigar a insurreição e rebelião civil, entre outros delitos.

Ele, segundo o governo, teria participado de uma tentativa de golpe contra Maduro, em abril, liderado por Juan Guaidó e Leopoldo Lopez.

Em Genebra para reuniões na ONU e denunciar a repressão do chavismo, o deputado conversou com exclusividade com o UOL. Eis os principais trechos da entrevista:

 

Qual é hoje a realidade social na Venezuela?

Sou deputado por um dos bairros mais pobres do país. Hoje, no meu bairro, há tuberculose, difteria. Tudo isso em Caracas. No meu bairro, as pessoas comem uma vez por dia. E isso é resultado de um modelo que os roubou tudo. O regime insiste que foram as sanções que destruíram o país. Mas, se amanhã elas acabarem, não haverá uma mudança de modelo. E outra vez alguém vai aparecer com bilhões de dólares no exterior. Hoje, é mais fácil fazer circular quilos de cocaína do narcotráfico e das Forças Armadas que uma caixa de remédios.

Como o sr. avalia os informes realizados pela ONU, apontando para as violações de direitos humanos na Venezuela?

Existem elementos importantes. O que eles mostram é que a violação de direitos humanos na Venezuela é uma política de estado. Foi mostrado como um militar – capitão Acosta – foi assassinado depois de um sessão de tortura. Não é mais uma suposição. As informações que a ONU traz é de costelas quebradas, impactos reais. Evidenciou-se que, em poucos meses, mais quatro deputados foram condenados pela Justiça.

Além disso, as forças de repressão e extermínio que Maduro se utiliza contra as pessoas mais pobres continuam a fazer suas vítimas. O regime de Maduro não está ouvindo os conselhos da ONU. Está tentando ter uma imagem mais positiva. Mas, no fundo, as violações continuam a se aprofundar.

A que serve esses informes da ONU?

Por muito tempo, essas denúncias eram feitas. Mas essas realidades não eram reconhecidas. Agora, a tortura e perseguição é comprovada.

Um dos pontos destacados no debate internacional é a situação do Orinoco e a corrida pelo ouro. Como está essa parcela do país hoje?

Trata-se de uma região onde vemos paramilitares, o deslocamento de povos indígenas e cobrando muitas vidas de venezuelanos. A exploração de recursos minerais apenas está beneficiando uma cúpula pequena ligada ao poder político. Esses recursos não estão chegando aos cidadãos.

O Brasil sugere a criação de uma comissão de inquérito internacional. Qual seria o próximo passo?

Enfrentar uma ditadura envolve tomar uma série de medidas. Precisamos somar esforços que apontarão para a mesma direção. Pode envolver a comissão de inquérito. Mas também a mobilização da Unicef e outros órgãos. O que estamos vendo é que entidades que por muito tempo olhavam para outro lado, agora reconhecem que a crise é real. Há dois anos, a Venezuela não era um assunto internacional. Há muito tempo estamos alertando. Mas nunca deram a devida importância. Agora, estão levantando os véus para ver a realidade.

O sr. tinha a função de acompanhar a ajuda humanitária. Como o governo administrava a ajuda que chegava?

Precisamos separar isso em alguns elementos. Primeiro, a necessidade humanitária da população foi usada com fins políticos pelo regime. Isso ocorria por meio do uso do Carnê da Pátria. A distribuição de alimentos era realizada em um sistema de segregação, para garantir o controle político sobre a população.

De que forma?

Havia uma transação. Era o silêncio e obediência, em troca de comida. Era o silêncio em troca de comer. Uma tentativa de controlar a população por meio da necessidade e da construção de espiral de miséria.

Na Saúde isso também ocorre?

Se hoje um venezuelano telefona para a central de saúde e que trata do acesso a remédios, ele é solicitado a fornecer seu Carnê da Pátria, que, uma vez mais, é uma forma de segregação política.

E quem entrega o Carnê da Pátria?

Ele é entregue pelos conselhos comunais, que é um sistema de base que só existe se o regime de Maduro lhe da autorização. A partir disso, tem início uma cadeia de privilégios. Cabe ao funcionário político do regime decidir qual casa chega a comida e que casa não chega. Decidem a qual casa o gás de cozinha é entregue ou não. O que te da acesso a isso não é seu documento de identidade. Mas um documento político do regime nas comunidades.

E a ajuda humanitária que chega da ONU?

O problema é que esse programa não conseguiu arrecadar os recursos necessários. Não conseguiu ter funcionários suficientes e capacidade de operação que se necessitava para ter independência. Hoje, um dos grandes desafios é de que o espaço humanitário na Venezuela seja real, sem interferência política do regime e nem propaganda política. É por esse controle que Maduro tenta se impôr.

Qual é a dimensão das necessidades hoje na Venezuela?

Em março, estimávamos que 7 milhões de venezuelanos precisavam de ajuda. Seis meses depois, esse número aumentou. Hoje, o salário mínimo é de menos de US$ 2,00 ao mês. Isso significa que a miséria na Venezuela não será revertida sem a ajuda internacional. Mas faço um alerta: se ficarmos apenas com programas de emergência, a comunidade internacional vai estar apenas tratando dos sintomas. Vamos passar 20 anos sem solução.

Então qual é a causa?

O regime Maduro.

 

 

Por qual motivo o sr. decidiu fugir?

Fui sentenciado por doze delitos, em abril. Passei então dois meses na clandestinidade na Venezuela. Há dois meses estou no exílio. Mas essa saída eu tomei com base em uma consideração política: onde é mais eficiente meu trabalho? Numa conversa com a família de outro detento do regime, eles me disseram: de que serve vocês dois na mesma cela? No fundo, não queremos ser moeda de barganha de uma ditadura e nem trofeus deles.

Fui sentenciado para que as negociações iniciadas pela Noruega entre o regime e a oposição tivessem eu e os outros deputados como foco. Assim, a delegação chegaria em Oslo para pedir que eu e os demais fóssemos soltos.

O exílio é muito ruim. Mas não vou aceitar ser moeda de troca do regime, enquanto os problemas continuam.

Como foi sua fuga?

Saí pela Colômbia. Mas devo dizer que eu só não estou preso graças às brechas no sistema. Policiais da Inteligência, pessoas das Forças Armadas e outros colaboraram na fuga. Colaboraram com informação também. Ao final, o poder não é tão poderoso assim. Isso me faz acreditar que estamos chegando na última etapa dessa história. E como toda última etapa, será a mais difícil, dolorosa. Mas será a última.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)