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Jamil Chade

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“Uma guerra seria longa e a Venezuela venceria”, alerta chanceler de Maduro

Jamil Chade

13/09/2019 10h08

 

Chefe da diplomacia venezuelana insiste, ao UOL, que Caracas não quer um conflito. Mas que, se atacada, terá de se defender

 

GENEBRA – Respondendo a uma pergunta da reportagem do UOL, o chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, garantiu que Caracas não quer uma guerra na região. Mas que, se atacada, terá de se defender e garante que os 30 milhões de venezuelanos vão atuar pelo país . "Uma guerra seria longa. Mas a Venezuela venceria", disse o ministro, em uma reunião em Genebra.

Visitando a ONU para encontros sobre a crise no país sul-americano, o chefe da diplomacia de Nicolas Maduro explicou que exercícios militares foram convocados pelo governo desde ontem. Mas repetiu pelo menos três vezes que seu país não quer um conflito.

Nesta semana, os Estados Unidos e onze outros países americanos convocaram os ministros das Relações Exteriores que fazem parte do tratado de defesa do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) para uma reunião. Na agenda está o "impacto desestabilizador" da crise na Venezuela.

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Arreaza estima que a iniciativa não tem legitimidade, já que a reunião foi chamada por uma delegação de Juan Guaidó, o presidente interino venezuelano reconhecido pelo Brasil, EUA e outros governos. Mas admite que o gesto "é perigoso, pois o espirito implica que ativaram mecanismos para atacar militarmente".

O que significa isso tudo é que a ameaça militar contra a Venezuela não é apenas de Washington. Mas também da Colômbia e Brasil.

"Jamais agrediríamos um país-irmão. Isso está descartado. Mas iremos nos defender", garantiu. "O presidente Maduro anunciou exercícios militares, que estão ocorrendo neste momento", disse.

"A Venezuela não quer uma confrontação com ninguém. Vamos nos defender e sabemos nos defender. Temos uma Força Armada bem equipada, profissional e temos 3 milhões de homens. Em caso de agressão, seria uma catástrofe. Seria uma guerra muito longa, e que venceríamos. Espero que esse erro nunca ocorra", disse.

O chanceler lembrou que, dos 34 países da OEA, apenas doze aprovaram a proposta, já que alguns se recusaram a aceitar a convocação da reuniões e outros já tinham abandonado o mecanismo nos últimos anos.

30 milhões de venezuelanos 

Horas depois de conversar com o UOL, o chefe da diplomacia venezuelana declarou à imprensa internacional na ONU que o governo está "preparado para defender o território com nossas armas, milícias e com os 30 milhões de venezuelanos". "Não vamos ficar com os braços cruzados enquanto estão se preparando para nos atacar", disse. "Temos a obrigação de defender nosso território e estamos preparado para responder", garantiu.

[Os americanos] não entendem o patriotismo dos venezuelanos. Os reis da Espanha tampouco nos entenderam.

Arreaza também rejeitou a tese de que, ao colocar 150 mil soldados na regiões mais próximas da fronteira da Colômbia, Caracas estaria "provocando" Bogotá. "Quem é que está de provocação? Quem é que acionou o TIAR?", atacou.

Segundo o chanceler, Caracas passou para a inteligência do presidente Ivan Duque dados e endereços de locais no território colombiano onde paramilitares e ex-soldados venezuelanos estariam treinando para atacar a Venezuela. Mas nada foi feito.

Apesar dos ataques e ameaças, o ministro insiste que continua disposto a negociar e dialogar, inclusive com Duque, para evitar um conflito.

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Em Washington, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, tentou descartar a hipótese de um conflito.

"Não significa ação militar, de forma nenhuma, não é isso que nós queremos, o Tiar não é simplesmente um acordo de ação militar, é um acordo para ação coletiva diante de ameaças à segurança, como claramente é. O chanceler da Colômbia, se não me engano, fez uma apresentação muito clara nesse sentido, com o fato de o regime Maduro estar abrigando terroristas", afirmou Araújo.

Arreaza, em Genebra, alertou que o tratado jamais representou "uma proteção ao povo latino-americano". "Esse é um instrumento para controlar todo o continente americano e para que os EUA possam invadi-lo", declarou.

O venezuelano lembrou que a Argentina foi o único país sul-americano a recorrer do tratado, em 1982 na Guerra das Malvinas. Mas apontou como Washington optou por apoiar o Reino Unido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)