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Jamil Chade

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Proposta do Brasil contra Maduro na ONU gera desentendimento com Europa

Jamil Chade

13/09/2019 04h00

Em protesto à presença de chanceler de Maduro na ONU, Brasil deixou suas cadeiras vazias no Conselho de Direitos Humanos, nesta quinta-feira. Foto: Jamil Chade

 

GENEBRA – O destino do governo de Nicolas Maduro coloca o Brasil e a Europa em lados opostos na diplomacia internacional. O UOL obteve com exclusividade um rascunho da resolução que o Brasil prepara para apresentar às Nações Unidas. Nela, o Itamaraty propõe a criação de uma comissão de inquérito internacional para investigar os crimes de Maduro e sua estrutura de repressão.

Mas nem todos estão de acordo com a proposta do Brasil e, nos bastidores, a situação passou a gerar tensão entre os representantes do governo de Jair Bolsonaro e as diplomacias de outros países. Rússia, China e outros governos aliados a Maduro deixaram claro sua oposição ao projeto.

Nos últimos dias, os europeus também tentaram convencer o Itamaraty a desistir da ideia, alertando para pelo menos dois aspectos. O primeiro deles é o risco de que a proposta não seja aprovada no Conselho de Direitos Humanos da ONU, o que seria alardeado por Maduro como uma "enorme vitória diplomática".

Mas há um segundo aspecto para a postura dos europeus. Várias capitais do Velho Continente consideram que, ao criar uma investigação que até hoje apenas foi adotada com países como Síria, Coreia do Norte, Burundi, Mianmar e Sudão, a comunidade internacional estará aprofundando o isolamento do governo de Maduro.

O risco poderia ser um radicalismo ainda maior por parte de Caracas, com impacto para os opositores que ainda estão dentro do país e em liberdade.

O resultado, entre outros, seria também o colapso dos canais de comunicação que tentam ser estabelecidos entre governos europeus e os diferentes lados da crise venezuelana.

Na esperança de convencer o governo brasileiro a rever sua proposta, os europeus apresentaram a ideia de que a comissão de inquérito – com a duração de pelo menos um ano – fosse substituída pelo simples envio de uma missão que, com o acordo do governo Maduro, poderia visitar o país e apresentar um informe.

Na prática, a proposta europeia reduziria o tom da agressividade e permitiria que os canais de comunicação fossem mantidos.

Na noite desta quinta-feira, o Brasil e os demais apoiadores da ideia circularam uma nova versão do rascunho. Mas, para a surpresa da Europa, o Itamaraty ignorou as propostas dos governos do Velho Continente e manteve a criação da comissão de inquérito.

Entre os negociadores, não eram poucos os que se mostravam irritados e preocupados com a postura do Brasil. Não contribuiu tampouco o gesto adotado pelo Itamaraty ao conseguir que a OEA aprovasse a ativação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), que prevê a defesa mútua entre os integrantes em caso de ataques de forças estrangeiras.

Uma resolução em prol da convocação do órgão de consulta do acordo conseguiu doze dos 18 votos possíveis. Brasil, Colômbia e Estados Unidos lideraram a proposta.

Diplomatas venezuelanos indicaram que o gesto foi interpretado como um passo rumo a uma intervenção. Para Caracas, o governo brasileiro atua como "representante de Trump" na região. "Submissão total", atacou o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, em uma conversa com o UOL, em Genebra.

Na cúpula da ONU, a proposta do Brasil tampouco é comemorada. A entidade, depois de longas negociações, conseguiu a autorização de Maduro para que um escritório fosse aberto em Caracas para monitorar a situação dos direitos humanos.

O temor é de que, se uma comissão de inquérito internacional for aprovada, a ONU será obrigada a fechar sua operação de observação em Caracas diante das pressões de Maduro.

Em seu informe sobre a situação da Venezuela, a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, denunciou a repressão orquestrada pelo governo e sugeriu que os autores dos crimes fossem investigados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)