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Jamil Chade

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Boicotado pelo Brasil, venezuelano acusa Bolsonaro de “submissão” aos EUA

Jamil Chade

12/09/2019 08h03

Em protesto à presença de chanceler de Maduro na ONU, Brasil deixou suas cadeiras vazias no Conselho de Direitos Humanos, nesta quinta-feira. Foto: Jamil Chade

 

Itamaraty boicota discurso de ministro de Relações Exteriores da Venezuela na ONU. Europa demonstrou nesta semana ser contrária à proposta liderada pelo  governo Bolsonaro de criar uma comissão de inquérito internacional contra Maduro. 

 

GENEBRA – Jorge Arreaza, ministro de Relações Exteriores do governo de Nicolas Maduro, acusa o governo brasileiro de estar se submetendo às ordens do presidente americano, Donald Trump. Em uma conversa exclusiva com o blog, em Genebra, o chanceler de Caracas teceu duas críticas contra Jair Bolsonaro e sua política externa. "Submissão total", declarou, numa referência ao comportamento do Brasil com a Casa Branca.

O Brasil é quem lidera uma iniciativa na ONU para que se crie uma comissão de inquérito internacional para investigar os crimes cometidos por Nicolas Maduro. Caracas, porém, tenta reunir votos suficientes para impedir a aprovação da proposta.

Os governos europeus apresentaram uma proposta alternativa, alegando que a medida sugerida pelo Brasil poderia isolar ainda mais o regime de Maduro e impedir canais de diálogo. Bruxelas propôs que a comissão de inquérito fosse abandonada e, em seu lugar, estabelecesse uma missão para visitar o país, em comum acordo com Maduro.

Fontes da UE, porém, apontaram que o governo brasileiro já indicou que vai se recusar a aceitar a proposta dos europeus e mantém sua ideia de criar uma comissão de inquérito.

A crise na Venezuela é ainda um dos temas das reuniões desta semana do chanceler Ernesto Araújo, em viagem à capital dos EUA.

Já Arreaza está nas Nações Unidas, em Genebra, para denunciar o que ele chama de "medidas unilaterais", tomadas pelo governo dos EUA e apoiada por seus aliados.

"Exigimos o levantamento das medidas coercitivas unilaterais contra nosso país", declarou o ministro. "Exigimos a devolução de empresas, ativos e dinheiro roubado da Venezuela. Exigimos o fim do bloqueio comercial e financeiro a nosso povo", disse. "As sanções matam", insistiu, alertando que o bloqueio de dinheiro garantiria alimentos e remédios para os venezuelanos por cinco anos.

O argumento do venezuelano é de que a atual crise foi gerada por conta dos impactos das sanções americanas, visão que não é compartilhada pela alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet. Em um informe apresentado no mês passado, a chilena denunciava a repressão de Maduro e pedia investigações para determinar a responsabilidade dos atos.

Boicote

Sem reconhecer o governo de Maduro como sendo legítimo, o Itamaraty fez questão de boicotar nesta quinta-feira o evento no Conselho de Direitos Humanos da ONU destinado a debater sanções econômicas.

As cadeiras reservadas ao Brasil ficaram vazias, enquanto os diplomatas tomaram lugares mais afastados para demonstrar o protesto diante da presença do chanceler.

O evento contou com intervenções de mais de duas dezenas de governos e fortes declarações contra sanções por parte da China, Rússia e outros países.

Horas depois, o chanceler fez um segundo discurso e, uma vez mais, o Brasil deixou suas cadeiras vazias dentro da sala da ONU.

Eleição

O confronto entre Venezuela e Brasil ainda tem um componente eleitoral. Ambos são candidatos a fazer parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU por mais um mandato. Sem citar nomes, o chanceler de Caracas defendeu que países que facilitem a adoção de sanções não deveriam poder ser membros do Conselho. "Os critérios deveriam mudar", disse, alertando para questões "morais e éticas".

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)