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Jamil Chade

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Amazônia revelou ao mundo a vulgaridade do governo Bolsonaro

Jamil Chade

26/08/2019 06h56

 

GENEBRA – A vulgaridade como instrumento diplomático nunca foi algo que funcionou. A não ser para agradar uma parcela interna do eleitorado, incapaz de entender que países não têm amigos ou inimigos. Apenas têm interesses.

Nesta manhã, numa padaria em Genebra onde eu teria um encontro com uma fonte, a rádio estava ligada, sem que as pessoas estivessem prestando atenção. Mas quando o apresentador começou a relatar como a primeira-dama francesa havia sido alvo de comentários do presidente Jair Bolsonaro, garotas que estavam na mesa ao lado colocaram a mão na boca, num gesto de incredulidade.

Como eu já poderia imaginar o que o jornalista iria trazer como relato, passei a olhar de forma atenta às pessoas no restante do salão, onde aposentados tranquilamente tomavam seu café com croissant e estudantes revisavam sua agenda para o ciclo escolar que começava nesta manhã.

O locutor continuou, apontando como ministros brasileiros insultaram o presidente francês nas redes sociais. Neste momento, o salão inteiro tinha já parado para escutar aquele que era um relato de uma profunda vulgaridade.

O uso político que Macron fez da Amazônia passou a ficar nítido no fim de semana. Seja pela reação de Angela Merkel, seja pela ironia que ongs ambientalistas fizeram sobre seu comportamento "em prol da humanidade". Fragilizado, o francês foi buscar um escudo para seus problemas na América do Sul, oito mil quilómetros de Biarritz, onde ocorre a cúpula do G7. Mas não conseguiu tapar o sol. Pelas pequenas prefeituras do interior da França, os quadros com sua imagem oficial começaram a ser retirados por manifestantes.

Pelos sites europeus, porém, o Brasil não desapareceu. A crise na Amazônia foi em parte substituída nesta manhã pela repercussão das atitudes do governo brasileiro, aprofundando uma imagem já desgastada.

O que sim a crise conseguiu foi a de mostrar ao mundo a crise moral que existe entre os líderes brasileiros. A vulgaridade do governo Bolsonaro não trará uma solução. Muito pelo contrário. Diante dos acontecimentos dos últimos dias, o Brasil terá de se lançar em reconstruir sua imagem pelo mundo, principalmente entre jovens que acabam de descobrir a dimensão do absurdo dos comentários das lideranças políticas no Brasil.

Na guerra pelas "mentes e corações" pelo mundo, o país sofreu uma enorme derrota. Transformar a resposta em obscenidades e inelegância não apagará o fogo pelo mundo. Talvez consiga uma onda de "likes" de robôs e outros instrumentos nas redes sociais. Victor Hugo já alertara que o "vulgo é um velho narciso que a si próprio adora, e aplaude tudo quanto é vulgar". Mas essa estratégia não terá resultados para além das fronteiras de grupos de apoio do presidente.

Gosto da maneira pela qual o escritor japonês, Haruki Murakami, compara o nacionalismo com um "álcool barato". Em poucos tragos, ele já te deixa embriagado. A reação é falar mais alto e agir de forma rude. O problema é que, depois que o efeito da bebida desaparece, a única coisa que fica é uma enorme dor de cabeça.

Na diplomacia da vulgaridade do Brasil, o cenário parece se repetir e Bolsonaro, apesar de ser aplaudido por seus seguidores, terá uma enorme dor de cabeça pelo restante de seu mandato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)