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Jamil Chade

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Cúpula chavista desviou R$ 18 bilhões em esquema, aponta investigação

Jamil Chade

24/08/2019 04h00

EUA identifica uso de sistema de câmbio para o envio de bilhões para contas secretas na Suíça, equivalente a 5% do PIB venezuelano. Membros da família de Maduro são mencionados.

GENEBRA – Contas secretas na Suíça teriam abrigado bilhões de dólares do regime chavista na Venezuela. Isso é o que revela um documento oficial da Justiça suíça, obtido com exclusividade pelo UOL. Parte dos recursos viria de esquemas montados por funcionários do governo venezuelano para lucrar com a existência de câmbios diferenciados entre o dólar e o bolívar, a moeda nacional.

O total desviado a partir do esquema que usava cotações do dólar pode ter chegado a US$ 4,5 bilhões — cerca de R$ 18 bilhões.

De acordo com o Tribunal Penal Federal da Suíça, o Departamento de Justiça dos EUA fez uma solicitação no dia 13 de março de 2018 para que as autoridades europeias ajudassem em uma investigação internacional relacionada com a corrupção nos governos de Hugo Chavez e de Nicolas Maduro.

Segundo a investigação, a PDVSA, a estatal do petróleo venezuelano, teria fechado em março de 2012 um contrato de empréstimos com "várias empresas de fachada". Os dados fazem parte de um documento da Justiça suíça, de maio de 2019.

O esquema funcionava graças à existência das duas taxas de câmbios na Venezuela. A manipulação do sistema e a autorização dada para que um operador tenha acesso ao sistema permitiriam ganhos milionários.

Assim, emprestava-se dólar na cotação do mercado paralelo e usava-se esses bolívares para recomprar a moeda americana na cotação oficial. Em 2014, por exemplo, um indivíduo poderia trocar US$ 10 milhões por 600 milhões de bolívares na taxa econômica real.

Se aquele indivíduo tivesse acesso às taxas fixas do governo, poderia converter os mesmos 600 milhões de bolívares de volta para US$ 100 milhões. Essencialmente, em duas transações, a pessoa poderia comprar US$ 100 milhões por US$ 10 milhões.

Funcionários estatais sob suspeita

Esse esquema, segundo a investigação, apenas existia se funcionários do estado venezuelano dessem o sinal verde para essa manobra. A suspeita é de que essa autorização era fornecida em troca de propinas. "Isso era possível graças a pagamentos de subornos feitos a funcionários venezuelanos", escreveram os suíços.

De acordo com o tribunal, "mais de US$ 4,5 bilhões teriam sido, assim, desviados, principalmente por meio de contas abertas na Suíça". O valor, apenas nessas transações representaria o equivalente a 5% de todo o PIB venezuelano, se levados em conta os dados levantados pelo Fundo Monetário Internacional.

Um dos funcionários do governo teria ficado com uma comissão de US$ 22 milhões, depois de realizar uma dessas operações no mercado negro de câmbio. Parte do dinheiro ainda seria destinado a comprar bens imobiliários nos EUA. A Justiça da Suíça se nega a revelar o nome do suspeito, já que a investigação está em andamento.

A cooperação com os suíços prevê que a movimentação de contas, seus beneficiários e sua rota sejam identificadas pelos bancos e repassadas às autoridades do Departamento de Justiça, nos EUA.

700 contas

No total, acredita-se que a cúpula venezuelana teria mais de 700 contas secretas na Suíça. Em meados de 2018, a Justiça norte-americana anunciou que investigações em colaboração com a Suíça resultaram na prisão de um ex-banqueiro suíço, Matthias Krull.

Ele fechou um acordo de delação premiada e admitiu a existência do esquema que lavou mais de US$ 1,2 bilhão, principalmente ao promover desvios da PDVSA e de pessoas próximas ao governo venezuelano. Nos últimos meses, o país tem registrado um colapso sem precedentes na sua economia.

De acordo com o Departamento de Justiça, Krull "admitiu culpa em uma denúncia de conspiração para cometer lavagem de dinheiro".

Pressionadas, porém, as autoridades suíças passaram a avaliar a dimensão da delação. A suspeita é que Krull fosse o gerente de cerca de 700 contas na Suíça em nome de mais de 70 venezuelanos.

Entre as dezenas de clientes do ex-banqueiro, estavam também três venezuelanos especialmente importantes. Pessoas próximas ao caso confirmaram que eles são os três enteados de Nicolás Maduro. Krull, como parte do acordo com a Justiça americana, aceitou colaborar com as investigações relativas às pessoas próximas a Maduro.

Uma apuração inicial constatou que esses familiares teriam desviado uma fortuna de mais de US$ 180 milhões. Mas os detalhes do destino dos recursos não foram revelados por enquanto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)