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Jamil Chade

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Documento suíço revela "guerra dos tronos" entre generais da ditadura

Jamil Chade

16/08/2019 04h03

"É mais fácil fazer uma revolução que governar bem um país", constatou embaixador suíço

GENEBRA – A ambição pelo poder entre os generais brasileiros que fizeram parte do Golpe de 1964 criou uma nova "desordem" política no país e ameaçou até mesmo a união dentro das Forças Armadas. Foi assim que um telegrama confidencial da diplomacia suíça descrevia, preocupada, o que ocorria no Brasil, dois anos depois da chegada ao poder dos militares.

O documento está hoje preservado nos arquivos diplomáticos em Berna e revela um raro olhar estrangeiro sobre o que ocorria no Brasil. No dia 24 de maio de 1966, o então embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, escrevia ao conselheiro federal Willy Spuhler, para o atualizar sobre o cenário político no país.

E ele começa o telegrama com um alerta. "Desde que estou no Rio de Janeiro, escuto falar de forma mais ou menos séria da crise política no Brasil, da incapacidade do presidente (Humberto de Alencar) Castello Branco de governar o país, da intensa luta interna entre os generais e mesmo a possibilidade de um novo golpe de Estado", apontou.

De acordo com o relato, em março de 1964, havia uma "unanimidade contra (João) Goulart" no país e, segundo o diplomata suíço, os planos de um golpe já tinham começado a ser elaborados desde 1961.

Mas o embaixador seria claro em sua avaliação: "é mais fácil fazer uma revolução que governar bem um país". Segundo ele, um dos maiores obstáculos naquele momento era a ambição que militares tinham de chegar ao poder.

Disputa de poder

"As primeiras dificuldades começaram na escolha de um presidente provisório entre os 'revolucionários'", disse o embaixador.

Segundo ele, se Castello Branco tinha sido escolhido para apaziguar uma disputa entre nomes mais fortes, a esperança dos generais era de que ele cumprisse as ordens daqueles que, de fato, estavam no comando. "Contrariamente a esse desejo, essa personalidade considerada como fraca seguiu sua própria política", diz o telegrama. O texto aponta, assim, como os promotores da ideia de ter Castello Branco no cargo acabaram vendo seus interesses sendo marginalizados.

Elogiado pelo suíço por sua cultura "acima da média dos outros oficiais" e por seus gestos para reconduzir o país à "normalidade constitucional", Castello Branco não teria uma vida fácil como presidente.

"Depois da liquidação da esquerda, os generais começaram a distribuir os ganhos. Vários foram os que desejavam ser o futuro presidente da República ou vice-presidente, ou governador dos estados", escreveu o embaixador. Na visão do diplomata, a missão de Castello Branco era de "evitar uma desintegração do exército, a única força do país".

Explicando o rigor do processo de seleção e disciplina, o suíço apontou que os oficiais brasileiros sempre colocaram o interesse do país como prioridade. "Juntos, eles prepararam a revolução de 1964. Mas, uma vez que provaram o gosto do poder, as novas ambições apareceram, ambições que parecem coloca em jogos velhas amizades", alertou.

Costa e Silva no caminho

Artur da Costa e Silva, ministro da Guerra de Castello Branco, era quem fazia a vida do presidente ser especialmente difícil. ""Imediatamente depois da revolução, ele tomou posse de seu ministério sem admitir discussão", contou o diplomata.

O suíço previa que, uma vez candidato à Presidência, Costa e Silva geraria reações de vários outros militares na tentativa de o "eliminar como candidato". Enquanto isso, outros poderiam tentar forçar situações semelhantes, tendo em vista o sucesso das manobras de Costa e Silva.

"O infortúnio é que os chefes militares que quiserem colocar ordem na política do país criaram, por suas ambições pessoais, uma nova desordem quase tão infeliz quanto a antiga", disse.

No campo econômico, os resultados eram também incertos. Se houve algum tipo de avanço em certos aspectos, o diplomata contava como os setores comerciais e industriais se queixavam. Segundo ele, "o custo de vida continua a aumentar muito rapidamente (18% nos quatro primeiros meses de 1966)" e apontou que, apesar do aumento do salário mínimo, o nível de vida da população sofreu uma queda.

As avaliações do embaixador sobre as pretensões de Costa e Silva se mostrariam corretas. Em 3 de outubro de 1966, ele seria eleito pelo Congresso Nacional para o cargo de presidente e como único candidato da Arena (Aliança Renovadora Nacional).

Em 1967, ele assumiu o poder e, para historiadores, iniciou a fase mais dura do regime militar, ampliada ainda por Emílio Garrastazu Médici.

Costa e Silva acabaria promulgando o AI-5, abrindo a possibilidade para cassar políticos e fechar o Congresso Nacional.

 

Documento oficial da diplomacia suíça revela disputa pelo poder entre militares brasileiros

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)