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Governo Maduro denuncia congelamento de R$ 20 bi em bancos no exterior

Jamil Chade

20/07/2019 04h00

 

GENEBRA – Bancos europeus, norte-americanos e mesmo asiáticos já congelaram mais de US$ 5,4 bilhões (R$ 20,08 bilhões) em ativos pertencentes ao estado venezuelano. Os dados são do próprio governo de Nicolas Maduro e obtidos pelo UOL.

Apenas no Novo Banco, de Portugal, US$ 1,5 bilhão estão congelados, além de US$ 1,3 bilhão em barras de ouro no Banco da Inglaterra.

Durante o governo de Hugo Chávez, Caracas optou por reduzir sua dependência sobre o dólar americano e passou a acumular reservas em ouro e espalhar seus ativos pelo mundo. Em 2011, já vivendo um esgotamento de seu modelo econômico, Chávez ordenou que US$ 11 bilhões em reservas internacionais aplicadas fora do país fossem repatriadas. Nos anos seguintes, porém, o dinheiro foi consumido por um governo que tentava se manter no poder.

De acordo com o levantamento de Caracas, mais de 50 bancos pelo mundo seguiram ordens emitidas por seus governos para impedir que Maduro tenha acesso aos recursos. Parte desse congelamento ocorre por suspeitas de corrupção, enquanto outro montante significativo tem uma relação direta com as sanções impostas pelo governo de Donald Trump e alguns países europeus.

No Citibank, dos EUA, por exemplo, um total de US$ 458 milhões estavam congelados ao final de abril de 2019. Outros bancos que tomaram medidas similares são o UnionBank, o Banque Delubac e o Sumitomo Bank. Na Suíça, os venezuelanos acusam o UBS de também ter bloqueado recursos.

Desde que o cerco financeiro ganhou uma maior intensidade, o governo passou a tentar acordos e movimentar recursos usando rotas alternativas, incluindo Rússia, China, Turquia e o Oriente Médio.

Mas não é apenas uma ordem internacional que vem levando os bancos a congelar os ativos. A Assembleia Nacional da Venezuela também tem feito pedidos para que a comunidade internacional ajude a asfixiar o regime Maduro.

Juan Guaido, que se auto-declarou presidente interino, chegou a nomear membros de um novo conselho de administração da empresa Citgo, na esperança de obter o controle sobre a companhia com sede em Houston, nos EUA, e de propriedade do estado venezuelano.

A diplomacia venezuelana insiste que o governo americano congelou os ativos da empresa para impedir que seus lucros sejam repatriados para a Venezuela. O valor total seria de US$ 11 bilhões.

Crise

Para o governo de Maduro, são esses bloqueios que explicariam os problemas de falta de remédios e outros produtos e serviços na Venezuela. Mas uma investigação recentemente publicada pela ONU desmente a versão oficial de Caracas.

Para a entidade internacional, não existem dúvidas de que o embargo econômico imposto pelos americanos aprofundou a crise social. Mas a ONU alerta que os problemas começaram antes de qualquer bloqueio, desmontando a tese de Maduro para se defender.

Para a ONU, portanto, a responsabilidade pela crise é do governo. "A má alocação de recursos, a corrupção, a falta de manutenção da infraestrutura pública e o grave subinvestimento resultaram em violações ao direito a um padrão de vida adequado relacionadas ao colapso dos serviços públicos, como transporte público, acesso à eletricidade, água e gás natural", disse o informe.

Hoje, o salário mínimo é de apenas US$ 7,00, o que seria suficiente para atender a apenas 4% do valor da cesta básica de alimentos no país. De acordo com a ONU, o principal programa de assistência alimentar "não satisfaz as necessidades nutricionais básicas".

"O governo não demonstrou que utilizou todos os recursos à sua disposição para assegurar a realização progressiva do direito à alimentação, nem que não conseguiu obter assistência internacional para preencher as lacunas", disse. Segundo a ONU, há uma escassez de 60 a 100% de medicamentos essenciais em quatro das principais cidades da Venezuela, incluindo Caracas.

Algumas cidades não contam com contraceptivos e o número de gravidezes de adolescentes aumentou em 65% desde 2015. Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, 1.557 pessoas morreram por falta de suprimentos nos hospitais.

Segundo a investigação, o governo Maduro tem usado os programas sociais para atender apenas aqueles que continuam aliados ao regime. Cartões que dão acesso ao abastecimento também passaram a ter um controle partidário. Mulheres que, em bairros mais pobres, protestam contra a falta de serviços também são excluídas de programas sociais. Muitas, assim, optam pelo silêncio

Hoje, a inflação acumulada no país é de mais de 2.866.670 % e a perda do PIB chega a 44%.

Maduro qualificou a investigação de "mentirosa".

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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