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Jamil Chade

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Diante de tratores nas ruas, França condiciona acordo com Mercosul

Jamil Chade

02/07/2019 13h36

Primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, e o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, durante sessão na Assembleia Nacional, em Paris (Alain Jocard/AFP)

A partir da noite desta terça-feira, agricultores franceses levam seus tratores para portas de prefeituras em toda a cidade para protestar contra o acordo. 

 

GENEBRA – Pressionado por agricultores e ecologistas, o governo da França endurece o tom e coloca condições para ratificar o acordo com o Mercosul.

Num acalorado debate nesta terça-feira na Assembleia Nacional, em Paris, ministros do governos foram alvos de duras cobranças por parte da oposição e mesmo de alguns deputados da base de apoio do governo. Em resposta, deixaram claro que uma série de critérios terão de ser cumpridos antes de a administração de Emmanuel Macron apresentar o documento para a ratificação.

O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi fechado na sexta-feira, depois de 20 anos de negociações. Mas, imediatamente, grupos de ambientalistas passaram a atacar a decisão dos europeus de promover tal aproximação com o governo de Jair Bolsonaro.

Jean-Yves Le Drian, ministro das Relações Exteriores da França, explicou aos deputados que a ratificação não será automática.

Segundo ele, pelo menos três aspectos terão de ser avaliados. O primeiro deles é o "respeito integral" pelo Acordo de Paris. A França quer saber se o Brasil, além de se manter no tratado, vai de fato cumprir o que está sendo exigido.

O segundo critério é a questão das normas sanitárias, um assunto que ganhou forte destaque na Europa depois dos escândalos dos embarques de carnes brasileiras e casos de corrupção entre os fiscais.

Por fim, a França quer garantias de que, caso seus produtores estejam sendo afetados de forma negativa, cláusulas de proteção comercial poderão ser acionadas e barreiras erguidas.

"É com a análise dessas três linhas vermelhas que a França assumirá uma posição", disse o ministro.

Ele prometeu não se precipitar na aceitação do acordo e garantiu que vai examinar cada trecho do tratado. O ministro, porém, deixou claro que o governo acredita que tem a ganhar em termos comerciais com o acordo.

Um tom similar foi adotado pelo ministro da Agricultura, Didier Guillaume. "Não haverá um acordo a qualquer preço e a história não terminou", afirmou. Prometendo ser "vigilante", o chefe da pasta agrícola indicou que também exigirá garantias da proveniência da carne sul-americana.

Pelo acordo, uma carne produzida a partir de uma área recém-desmatada não poderá se beneficiar do acesso preferencial ao mercado europeu. Moratórias também poderão ser estabelecidas contra a soja, na esperança de frear o desmatamento.

Entre aqueles que atacaram o projeto nesta terça-feira estão deputados como Jean-Baptiste Moreau e Yolaine de Courson, aliados de Emmanuel Macron. A principal queixa se refere à disparidade nas exigências colocadas sobre os produtores europeus e os do Mercosul.

Diante de Parlamento Europeu, deputados de esquerda protestam contra acordo com Mercosul

Tratores e protestos 

Protestos estão programados para esta terça-feira. Produtores rurais de toda a França prometem levar seus tratores para as portas das prefeituras.

Bruno Dufayet, presidente da Federação Nacional Bovina, será um deles. Ele promete levar seus tratores para porta da administração regional de Aurillac.

Pelo interior da França, agricultores e sindicatos fazem protesto contra acordo com Mercosul (CRÉDITO: FDSEA)

Segundo os sindicatos agrícolas europeus, os fazendeiros franceses são obrigados a investir em temas como saúde animal e meio ambiente, o que acaba elevando o preço do produto final.

O temor é que, com a concorrência sul-americana, haverá uma retração da atividade agrícola local.

Numa carta enviada a Macron, os sindicatos alertam para os riscos do acordo e pedem que sejam recebidos para tratar do tema.

Também diante do Parlamento Europeu, deputados que acabam de iniciar a partir de hoje um novo mandato realizaram um protesto contra o acordo com o Mercosul. A iniciativa foi do grupo de parlamentares de esquerda de diversos países.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)