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Jamil Chade

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Brasil já recebe mais pedidos de asilo que Grécia, Espanha e Itália

Jamil Chade

2019-06-20T19:02:00

19/06/2019 02h00

Venezuelanos superaram afegãos, iraquianos e sírios e, em 2018, constituíram a nacionalidade que mais pedidos de asilo realizou no mundo. No total, crise de refugiados atinge 70,8 milhões de pessoas no planeta

 

Militares venezuelanos impendem a circulação de pessoas e veículos na fronteira com Pacaraima, em Roraima (Ricardo Moraes/Reuters)

GENEBRA – A crise na Venezuela transforma o mapa do fluxo de refugiados no mundo e coloca o Brasil como o sexto maior destino de solicitantes de asilo em 2018, ultrapassando alguns dos tradicionais destinos de refugiados do mundo, como Grécia, Espanha e Itália.

Ao final do ano passado, os venezuelanos ainda superaram afegão, iraquianos e sírios e se transformaram na nacionalidade que mais solicitou asilo no planeta, algo inédito para a América Latina.

"Essa não é mais apenas uma crise do hemisfério Ocidental. É uma crise global", alertou Filippo Grandi, alto comissário da ONU para Refugiados.

Os dados foram divulgados hoje pela ONU, que, num alerta, aponta que as principais potências estão ignorando a situação nos países sul-americanos como Brasil, Peru e Colômbia diante da pressão migratória. Se o dinheiro internacional não chegar à região, o temor é que os sistemas de saúde, educação e serviços básicos sofram um colapso.

As informações não deixam dúvidas sobre a dimensão da crise gerada em Caracas. A estimativa é que, até o final de 2019, 5 milhões de venezuelanos tenham deixado o país. A média continua sendo a fuga de 5.000 pessoas por dia.

Os números totais e acumulados dos últimos anos continua sendo inferior ao de sírios e afegãos. Mas, ainda assim, é o crescimento de pedidos de refúgio que surpreende. "Pela primeira vez, os pedidos de asilo de venezuelanos dominaram as estatísticas, com 341 mil novos pedidos em 2018", disse a ONU.

Na prática, um a cada cinco pessoas que pede asilo hoje no mundo é venezuelana. Em 2015, por exemplo, apenas 10 mil venezuelanos pediram status de refugiado. Os solicitantes de refúgio representam apenas uma parte dos 4 milhões de venezuelanos que estão fora do país, já que muitos contam com outros vistos ou mesmo estão no exterior de forma irregular.

Para os venezuelanos, o principal local de solicitações foi o Peru, com 190 mil novos casos em 2018. Em 2017, o número havia sido de apenas 33 mil. No Brasil, foram 61,6 mil pedidos, contra apenas 18 mil em 2017.

Com os 341 mil pedidos, os venezuelanos superaram por ampla margem os 107 mil pedidos de afegãos em 2018 para que sejam considerados como refugiados. A terceira nacionalidade é de sírios, com 106 mil novos pedidos. Em 2015, o número havia sido de 409 mil.

Nacionalidades que mais pediram asilo em 2018

Venezuela – 341 mil

Afeganistão – 108 mil

Síria – 106 mil

Iraque – 72 mil

República Democrática do Congo – 61 mil

Fonte: ONU

Destino Brasil

Os dados também revelam que, pela primeira vez, o Brasil ocupa uma posição de destaque entre os principais destinos de refugiados. Em 2018, 80 mil pessoas fizeram solicitação de asilo, o que colocou o Brasil como sexto maior destino. Em 2016, por exemplo, foram apenas 10,3 mil pedidos.

Desses 80 mil, 61,6 mil são venezuelanos, além de 7.000 haitianos. Com esses números, o Brasil superou a Grécia, país que registou 65 mil pedidos de asilo em 2018. Também abaixo do Brasil fica a Espanha, com 55,7 mil pedidos, além dos 55 mil no Canadá e 48 mil na Itália.

Outra constatação é que o número de solicitantes de asilo que se acumula no Brasil cresce de forma preocupante. No mundo, 3 milhões de pessoas aguardam por uma decisão sobre a eventual proteção. Só os EUA, são 719 mil pessoas nessa situação. Na Alemanha, são 369 mil, contra 311 mil na Turquia.

Ja o Peru aparece com 230 mil casos, seis vezes o volume de 2017. Já o Brasil soma 152 mil pessoas aguardando uma definição. O número é superior aos 105 mil da Itália, 89 mil da França, 78 mil do Canadá e 76 mil da Grécia.

Na fila de espera, a principal nacionalidade é também de venezuelanos pelo mundo. Em 2018, foram 464 mil pessoas nessa situação, seguida de longe por afegãos.

Número de pedidos de asilo em 2018
EUA –  254 mil
Peru –  192,5 mil
Alemanha – 161 mil
França – 114 mil
Turquia – 83 mil
Brasil – 80 mil
Grécia – 65 mil
Espanha – 55,7 mil
Canadá – 55,4 mil
Itália – 48,9 mil

Pouco dinheiro, muitos pedidos

Filippo Grandi não esconde que está preocupado. De acordo com ele, os países sul-americanos começam a estar em uma situação de saturação e precisarão de ajuda internacional para financiar uma ampliação de seus sistemas públicos de saúde ou educação.

Segundo ele, porém, menos de 30% do dinheiro solicitado pelo Acnur para dar assistência aos venezuelanos foram enviados por parte dos países ricos. "Precisamos de mais ajuda", disse. Grandi explica que está em negociações com o Banco Mundial para que financiamentos sejam oferecidos para a região, principalmente para saúde e educação.

Mas ele mesmo admite que, se os recursos não chegarem, "os sistemas vão rachar". "É algo emergencial. O dinheiro é dramaticamente necessário. Estamos em uma situação muito perigosa", alertou.

Para o chefe da ONU para Refugiados, a distância entre o que ocorre com os venezuelanos e os principais centro do poder mundial faz da crise algo afastado. Sua avaliação é que, como a crise afeta principalmente a América do Sul, potências econômicas não sentem a necessidade de investir recursos.

"É uma crise que está longe dos doadores. Para eles, essa é uma preocupação distante", lamentou. O problema, segundo ele, é que, enquanto não houver uma solução política na Venezuela, o êxodo continuará. "O governo diz que aumentamos o número. Mas essa é a triste realidade."

Grandi apela aos países da região para manter suas portas abertas aos venezuelanos. Mas um de seus temores é que, sem essa ajuda, governos sul-americanos comecem a colocar barreiras. No Peru, por exemplo, já existem exigências de vistos aos venezuelanos. Com a barreira peruana, outros podem passar a adotar algo semelhante.

Paz e guerra

Mas a realidade é que a crise venezuelana é mais uma numa longa lista de conflitos e tensões pelo mundo. A constatação da entidade é que, incapaz de colocar fim a conflitos, a comunidade internacional se depara com a maior crise de refugiados dos últimos 70 anos.

Segundo os dados, 70,8 milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas, fugindo de guerras e perseguição.

Os números são os mais altos desde a criação da agência da ONU. Há 20 anos, o número de refugiados era de apenas metade. Em apenas um ano, o fluxo de refugiados cresceu em 2,3 milhões de pessoas.

A ONU ainda alerta: os números que ela mesmo apresenta são "conservadores" e a realidade poderia ser ainda maior. Hoje, 4 milhões de venezuelanos estão fora do país. Mas apenas uma parte deles pediram asilo, cerca de 500 mil. Para a agência, a maioria deles precisa de proteção internacional.

As 70,8 milhões de pessoas afetadas estão divididas em três grupos. São 25,9 milhões de refugiados que cruzaram fronteiras internacionais, além de 3,5 milhões de solicitantes de asilo. Essas pessoas ainda aguardam para saber se terão seu status de refugiado reconhecido nos países onde elas chegaram.

Além desses dois grupos, 41,3 milhões de pessoas são deslocadas internas. Ou seja, indivíduos que tiveram de deixar suas casas e cidades. Mas que continuam em outras regiões de seus países.

Mas o que mais preocupa a ONU é que a taxa de pessoas afetadas continua crescendo a um ritmo mais elevado que a capacidade da comunidade internacional de encontrar soluções para guerras.

Grandi lembra que o último conflito a ser alvo de um acordo de paz foi a Gâmbia, em 2016. Ainda assim, tratava-se de um confronto relativamente pequeno e que havia gerado apenas 50 mil refugiados. "Quando foi o último grande conflito resolvido?", lançou.

Em 2018, enquanto milhões de pessoas abandonaram seus países, apenas 593 mil voltaram para suas cidades.

Outra constatação ainda chama a atenção: são os países em desenvolvimento, e não os países ricos, que mais recebem refugiados. Nas economias desenvolvidas, existem 2,7 refugiados para cada mil pessoas. Nos países de renda média, são 5,8 para cada mil.

Já os países mais pobres recebem um terço de todos os refugiados do mundo. "Europeus americanos dizem que estão vivendo uma crise de refugiados. Não. A crise está nos países vizinhos onde ocorrem em conflitos", completou.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)